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Alex Telles, a paz e o sossego depois do barulho das luzes (a crónica do Boavista-FC Porto)

Este artigo tem mais de 2 anos

Alex Telles marcou o único golo da vitória do FC Porto perante o Boavista (0-1) e foi a calma depois da tempestade provocada pelo quarteto sul-americano. Os dragões continuam a dois pontos do Benfica.

O lateral brasileiro voltou à titularidade na Liga depois de ter regressado ao onze na Liga Europa
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O lateral brasileiro voltou à titularidade na Liga depois de ter regressado ao onze na Liga Europa

AFP via Getty Images

O lateral brasileiro voltou à titularidade na Liga depois de ter regressado ao onze na Liga Europa

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Uma pesquisa rápida na Internet diz-nos que a Lei de Murphy é um adágio ou epigrama da cultura ocidental que pode facilmente ser traduzido na frase “tudo o que pode correr mal, vai correr mal”. Pressupõe uma ideia muito comum e recorrente de que, assim que algo corre mal num processo, numa ação, num projeto, tudo aquilo que estava em dúvida, tudo o que tinha uma probabilidade forte de correr mal e até situações imprevisíveis e impensáveis, vai correr mal. Resumindo, é a personificação de um vórtice negativo que começa, dificilmente termina e se arrasta para todos os setores do local onde surgiu.

Nas últimas semanas, o FC Porto parece estar a viver a sua própria versão de uma Lei de Murphy inesperada. A derrota com o Feyenoord na Holanda foi o pontapé de saída de um ciclo progressivamente negativo que se prolongou com um empate em casa com o Rangers, um empate na Madeira com o Marítimo que ofereceu a liderança ao Benfica e um desaire na Escócia que complicou as contas do apuramento para a fase seguinte da Liga Europa. As ramificações dos resultados dentro de campo materializaram-se em conferências de imprensa inflamadas de Sérgio Conceição, em assobios vindos das bancadas do Dragão mesmo depois da vitória com o Desp. Aves e num não oficial mas aparente desconforto do treinador que parece ser o principal motivo para a apatia da equipa. Tudo isto, ainda assim, é uma reação claramente normal quando um clube de futebol não alcança no relvado os objetivos delineados fora dele: o que aconteceu este sábado estava longe de ser previsível.

Ficha de jogo

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Boavista-FC Porto, 0-1

11.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Bessa, no Porto

Árbitro: Nuno Almeida (AF Algarve)

Boavista: Bracali, Fabiano, Dulanto, Ricardo Costa, Neris, Marlon, Ackah, Rafael Costa, Heriberto (Yusupha, 70′), Stojiljkovic (Cassiano, 87′), Mateus (Paulinho, 76′)

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Suplentes não utilizados: Helton Leite, Carraça, Obiora, Gustavo Sauer

Treinador: Lito Vidigal

FC Porto: Diogo Costa, Manafá (Nakajima, 78′), Mbemba, Marcano, Alex Telles, Corona, Danilo, Loum, Otávio, Marega, Fábio Silva (Zé Luís, 76′)

Suplentes não utilizados: Mbaye, Diogo Leite, Bruno Costa, Aboubakar, Soares

Treinador: Sérgio Conceição

Golos: Alex Telles (9′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Marcano (44′), Fabiano (55′), Dulanto (70′), Marlon (87′)

Marchesín, titular indiscutível na baliza do FC Porto, Uribe, peça fulcral no meio-campo e Luis Díaz, que tem vindo a ganhar espaço no ataque e já resolveu sozinho vários jogos, foram todos retirados da convocatória para o jogo com o Boavista por questões disciplinares. A estes três junta-se também Saravia, o caso menos preocupante do quarteto por não ser habitualmente opção de Sérgio Conceição. O motivo? O facto de terem estado, na madrugada de sexta-feira para sábado, na festa de aniversário da mulher de Uribe, que se terá prolongado até às cinco da manhã, violando o regulamento interno do FC Porto (que baliza o limite horário nas 23h). Já durante a tarde deste domingo, Uribe recorreu ao Instagram para pedir desculpa ao clube e aos adeptos mas negou a informação relativa às horas, garantindo que abandonou a festa, tal como os três colegas, por volta da meia-noite.

Enquanto as consequências se restringiram à revolta de Sérgio Conceição na sala de imprensa, aos assobios no Dragão e à apatia da equipa face aos maus resultados, tudo era previsível. A ausência de dois titulares inequívocos, de uma opção importante para o ataque e de um quarto elemento do plantel da convocatória de um dérbi onde um mau resultado pode levar a diferença para a liderança para os cinco pontos, ganha contornos óbvios de uma Lei de Murphy que se abateu sobre o FC Porto. E este domingo, no Bessa com um Boavista que perdeu pela primeira vez para a Liga na semana passada, era necessário vencer, convencer e virar costas a uma semana horribilis que parecia não ter fim. Na hora de escolher o onze inicial e face às ausências confirmadas, Sérgio Conceição lançou Diogo Costa no lugar de Marchesín e Loum no lugar de Uribe; Mbemba rendia Pepe ao lado de Marcano, Fábio Silva era titular e Marega regressava à titularidade depois de vários jogos afastado das opções iniciais.

Depois de surpreender na Escócia ao atuar com três centrais e uma espécie de 5x3x2 que desdobrava em 3x5x2 sem bola, o treinador dos dragões regressou ao mais tradicional 4x4x2, com Otávio e Corona soltos nas alas a procurar espaços interiores que ofereciam desmarcações entre linhas a Fábio Silva e Marega. O FC Porto, sem entrar de forma absolutamente demolidora na partida, soube manter a posse de bola no meio-campo adversário e empurrar o Boavista para a própria baliza, assumindo desde logo que tinha o objetivo de comandar os desígnios do jogo e não permitir que o encontro se tornasse uma vitória sofrida ou um empate magro como aconteceu nas últimas duas jornadas. Foi Alex Telles, que voltou à titularidade a meio da semana com o Rangers e este domingo manteve esse regresso ao onze inicial na Liga, que acabou por inaugurar o marcador quando ainda não estavam cumpridos dez minutos. O lateral brasileiro recolheu uma bola à entrada da grande área depois de um livre rejeitado pela defesa do Boavista e soltou um remate forte de pé esquerdo que não deu qualquer hipótese a Bracalli (9′). Assumindo o papel de capitão quase espiritual, Alex Telles correu para o banco de suplentes para festejar com Sérgio Conceição e chamou toda a equipa para um abraço de grupo conjunto que acabou por ser a prova da união do grupo num período difícil do clube.

Apesar da desvantagem embrionária, o Boavista soube reagir ao golo sofrido e alongou-se no terreno ao invés de recolher no próprio meio-campo. Os axadrezados procuravam desequilibrar principalmente a partir dos corredores, para fugir ao overbooking de jogadores que o FC Porto colocava na zona central, e tanto Heriberto como Mateus faziam uso da velocidade e da capacidade de explosão para surpreender Telles e Manafá e cruzar à procura de Stojiljkovic. O avançado emprestado ao Boavista pelo Sp. Braga, porém, não ganhou uma única bola entre Mbemba e Marcano e tornava inglórios os esforços dos dois homens mais tombados nas alas. Essa falta de critério e definição era mesmo o grande pecado do Boavista, que conseguiu não sucumbir à pressão do FC Porto e criou perigo ao longo de toda a primeira parte — principalmente a partir de bolas paradas. Ricardo Costa, antigo jogador dos dragões, esteve perto de empatar com um desvio ao segundo poste depois de um canto na direita (27′) e era por intermédio de pontapés de canto ou livres que os axadrezados testavam Diogo Costa, preocupado principalmente com a subida do central Dulanto à área contrária.

A primeira parte do dérbi acabou por terminar com apenas um remate enquadrado — o do golo de Alex Telles — e nenhuma defesa feita nem por Diogo Costa nem por Bracalli e foi disputada principalmente na zona intermédia e na faixa central, onde as duas equipas encaixaram e conseguiram conter os ímpetos ofensivos de parte a parte, obrigando a uma lateralização que afastava o centro de jogo das balizas. Ainda assim, e mesmo sob chuva, a partida estava interessante do ponto de vista tático e do ponto de vista que apontava para a reação do Boavista, que não escondia que ia à procura do resultado.

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do Boavista-FC Porto:]

Na segunda parte, numa altura em que até se previam alterações no FC Porto face às limitações físicas de Corona e Alex Telles no final do primeiro tempo, Sérgio Conceição trouxe do balneário os mesmos onze jogadores. Os primeiros instantes da segunda parte mostraram que os dragões iam tentar reduzir o ritmo de jogo e colocar a primeira linha de construção, formada por Marcano e Mbemba, no círculo do meio-campo, para ir asfixiando aos poucos o Boavista e roubar o espaço que os axadrezados tinham explorado até ao intervalo. A maior presença da equipa no setor intermédio, porém — já que não tentava insistentemente entrar no último terço e preferia circular em posse –, evidenciava a exibição abaixo da média de Loum, que não se compara à qualidade de Uribe, e a fragilidade física de Fábio Silva na hora de recuar para servir de ligação entre o meio-campo e o ataque e soltar Marega para movimentos de desmarcação.

O Boavista, tal como na primeira parte, reagia ao bloco subido do FC Porto com profundidade e dezenas de passes longos que pouco ou nada encontravam. A equipa de Sérgio Conceição não tinha grandes pruridos em aplicar uma estratégia de contenção e recuperação física que tinha como objetivo controlar o jogo em posse e garantir a vitória sem grandes calafrios. Ainda assim, e apesar de estar obviamente numa velocidade que fica muito abaixo daquilo que é pedido e esperado do FC Porto, o conjunto azul e branco mostrava-se muito mais entrosado e concentrado do que aquilo que tinha demonstrado na semana passada com o Desp. Aves e na quinta-feira com o Rangers. A quase apatia que ficou patente tanto no Dragão como na Escócia desapareceu este domingo e o FC Porto, ainda que em modo gestão e em serviços muito perto do valor mínimo, esteve sempre mais ligado à partida e mais atento do que nos outros dois jogos da semana que passou — o que não esconde um dérbi muito pobre a nível ofensivo, com apenas dois remates à baliza.

Lito Vidigal ainda colocou em campo Yusupha e Paulinho mas não mexeu no desenho tático e acabou por arriscar pouco face àquilo que se antevia na altura da ida para o intervalo. Sérgio Conceição tirou Fábio Silva e Manafá e lançou Zé Luís e Nakajima, recuando Corona para a lateral direita da defesa, garantindo alguma frescura no ataque, virtuosismo no meio-campo e segurança no setor mais recuado — e acabou mesmo a trocar Marega por Diogo Leite, terminando a partida a fechar a porta com cinco defesas e três centrais. Loum ficou perto de aumentar a vantagem, num cabeceamento depois de um canto que foi a melhor ação que teve em todo o jogo (72′), mas o resultado do dérbi da Invicta ficou mesmo fechado na vantagem magra do FC Porto e na primeira derrota em casa do Boavista. A equipa de Sérgio Conceição regressou às vitórias, encurtou novamente para dois pontos a vantagem para o líder Benfica e apagou, pelo menos de forma momentânea e imediata, a má exibição perante o Desp. Aves e a derrota com o Rangers. Alex Telles, que andou arredado das opções iniciais do treinador durante vários jogos e cujo discernimento, maturidade e critério muita falta fez aos colegas de equipa, acabou por ser a paz e o sossego necessários depois do barulho das luzes provocado pela suspensão do quarteto de jogadores. E garantiu uma noite de domingo tranquila a Sérgio Conceição, que espera ter tido neste sábado a última surpresa relacionada com uma pouco bem-vinda Lei de Murphy.

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