“Quero agradecer a toda a gente. Isso inclui a minha equipa. O Preki foi o treinador do ano da MLS, o Gonzo e o Djimi são treinadores super talentosos. O Tommy, o meu melhor amigo, o Chris, o Paul, o Jake, a Hilary, os roupeiros, os fisioterapeutas, o pessoal da ciência desportiva — toda a gente, toda a gente fez um grande trabalho para nos ajudar a perseverar. Família. É tudo o que temos. A minha família esteve cá esta noite, os meus netos bebés, a minha mulher, seis filhos. Amo-vos. A minha mãe estava a ver, de certeza. E por fim, aos jogadores e aos adeptos, que merecem tudo isto”. No final do segundo parágrafo de um longo comunicado que pediu para ler durante a conferência de imprensa, Brian Schmetzer não conseguiu conter as lágrimas. A camisola que tinha vestida, de cor preta, tinha escrito a letras brancas a palavra “família”. Quando baixou a cabeça para limpar os olhos, Brian Schmetzer continuava a dizer o que de mais importante tinha para dizer sem ter de abrir a boca.

Brian Schmetzer é o treinador da equipa principal dos Seattle Sounders. Este domingo, precisamente em Seattle, os Sounders venceram os canadianos do Toronto e conquistaram a Major League Soccer, MLS, a principal liga de futebol da América do Norte. Naquela que foi a terceira final do clube em quatro anos — ganharam em 2016 e perderam em 2017 –, a equipa do Estado de Washington repetiu a glória de há três anos e apagou definitivamente a desilusão de há dois, recuperando o estatuto de campeã norte-americana de futebol. Brian Schmetzer, que esta segunda-feira é descrito pela imprensa local como “o treinador genial que tem ar de professor da escola primária”, foi jogador de futebol e começou a carreira nos Sounders durante os anos 80: saiu, representou outros clubes, regressou para dizer adeus aos relvados em casa, foi técnico principal enquanto a equipa ainda estava nos escalões inferiores e tornou-se adjunto do alemão Sigi Schmid nos primeiros sete anos de MLS em Seattle. Quando Schmid saiu, ficou como interino e recebeu a proposta para ser efetivo depois de levar a equipa à primeira conquista da liga, em 2016.

O treinador norte-americano levou para a conferência de imprensa uma camisola onde se lia “família”

O treinador de 57 anos, que tem então ar de professor da escola primária, é o principal exemplo e a personificação daquilo que significam os Seattle Sounders. A equipa norte-americana — onde o ex-Sporting Fredy Montero é o melhor marcador absoluto — foi o primeiro grande franchise do milionário futebol norte-americano, a primeira entidade a associar-se a celebridades e individualidades do mundo empresarial para alicerçar contratações sonantes e chegar a números que, até então, estavam nos Estados Unidos restringidos ao futebol americano, ao basquetebol ou ao basebol. A nível estratégico, os Sounders tomaram a interessante e inteligente decisão de se ligarem de forma intrínseca aos Seahawks, a bem sucedida equipa de futebol americano da mesma cidade (venceram o Super Bowl em 2013), utilizando não só as mesmas cores como até o mesmo estádio, o colossal CenturyLink Field.

A chegada à MLS de nomes como David Beckham, Zlatan Ibrahimovic ou Wayne Rooney, porém, roubou os holofotes aos Seattle Sounders com o passar dos anos. O investimento de equipas como o Atlanta United, cujos últimos dois treinadores são Tata Martino e Frank de Boer — nomes conhecidos e reconhecidos do mais sexy futebol sul-americano e europeu –, roubou os holofotes a Brian Schmetzer. E os Seattle Sounders entraram num vórtice que é uma espécie de antítese: se são, por um lado, dos poucos clubes que contam com acionistas minoritários famosos (a cantora Ciara, o rapper Macklemore e o jogador de futebol americano Russell Wilson detêm uma parte das ações), estão também muito longe dos orçamentos dos mais mediáticos LA Galaxy ou Los Angeles FC. O jogador mais bem pago dos Sounders, o capitão Nicolás Lodeiro, é apenas o 11.º jogador que mais recebe na MLS — e os 2,5 milhões de dólares que o uruguaio recebeu em 2019 estão muito longe dos 7,2 que chegaram aos bolsos de Ibrahimovic.

O guarda-redes Stefan Frei recebeu uma carta de um jovem adepto e jogador da formação

Em Seattle, o mais importante é a palavra que Brian Schmetzer tinha na camisola negra na conferência de imprensa depois da final que os Sounders venceram por 3-1 aos Toronto. Esta segunda-feira, depois da conquista da equipa que veste de verde e azul, o The Players’ Tribune publicou uma carta escrita por Bheem Goyal, um jovem jogador da formação dos Sounders que foi diagnosticado com leucemia e cujo desejo, endereçado à fundação Make-a-Wish, foi passar um dia com a equipa principal — principalmente com o ídolo, o guarda-redes Stefan Frei. As palavras de Bheem, tal como as lágrimas de Schmetzer, explicam porque é que os Seattle Sounders são uma equipa diferente das demais na MLS.

“Querido Frei,

Obrigada por teres tornado o meu sonho realidade. Adorei fazer exercícios no treino, dar e defender bolas, fazer dribles e marcar penáltis. Ter os autógrafos e tirar fotografias contigo foi tão divertido. Foste super simpático, ajudaste-me e fizeste com que me sentisse parte da equipa. Aprendi tanto contigo. Sou muito melhor guarda-redes agora. Fizeste com que queira muito mais ser guarda-redes. Fizeste com que queira ajudar outras crianças com cancro. Fizeste com que adore muito mais os Sounders. Foi tudo tão divertido.

Do teu companheiro,

Bheems”