O ABC não deixa grande margem para dúvidas logo no título: “O arrependimento de Cristiano”. Depois, explica algumas das pistas que levaram a essa conclusão: deixou em conversas com antigos companheiros que pensa ter sido um erro sair de Madrid, comenta com pessoas mais próximas que se tivesse ficado no Real tinha ganho as Bolas de Ouro de 2018 e 2019. Referências a isso em termos públicos, nem uma. Hoje ou para a frente. Por fim, no texto, deixa mais pormenores como o facto de considerar ser melhor tratado pela imprensa espanhola do que pela italiana ou a noção de que o clube merengue tem grande peso nas decisões da Bola de Ouro.

Dificilmente Ronaldo irá algum dia assumir de forma aberta que a troca do então tricampeão europeu por Itália e pela Juventus pode ter feito sentido no verão de 2018 mas agora, um ano e meio depois, trouxe também contras – a começar pela Bola de Ouro. Os números do português baixaram, sendo também verdade que nas alturas decisivas, como nos jogos a eliminar da Champions, marcou sempre apesar da eliminação com o Ajax nos quartos. Esta época, com números assombrosos na Seleção (11 golos em seis jogos na qualificação para o Europeu), continua discreto na Vecchia Signora, entrando para o importante jogo em Roma com a Lazio com sete golos em 16 partidas, incluindo seis em 11 encontros na Serie A. Ainda assim, e olhando para a crítica, era curto.

Começou com Nicola Amoruso, antigo avançado da Juve que, admitindo a capacidade de Ronaldo fazer a diferença em jogos da Liga dos Campeões, comentou que “de há uns meses para cá, tem vindo a arrastar-se em campo”. “Deveria ter a humildade de entender que, numa certa idade, é mais importante descansar do que jogar”, referiu à Sky Italia. Seguiu-se o sempre polémico Ibrahimovic, que, em entrevista à GQ transalpina, frisou que “o verdadeiro Ronaldo é o brasileiro”, que as Bolas de Ouro “foram ganhas por Florentino Pérez” e que desafio teria sido “ir para a Juventus quando a equipa estava na Serie B e trazê-la de volta à Serie A para o topo”. Agora foi o ex-treinador e selecionador italiano Marcello Lippi, que não esqueceu a reação após a substituição com o AC Milan. “Só ofende os seus companheiros de equipa, que trabalham como ele e fazem os mesmo sacrifícios”, disse.

Ronaldo já teve melhores dias em Turim e nem o facto de ser assumido pelo próprio e pelos responsáveis do clube de que esteve a jogar limitado durante alguns jogos para ajudar a Juventus e a Seleção Nacional pareceu servir de atenuante. Assim, restava fazer aquilo que faz como poucos: marcar. Tal como fez na semana passada de grande penalidade diante do Sassuolo, num encontro que custou a liderança da Serie A antes do empate sem golos do Inter frente à Roma de Paulo Fonseca que poderia devolver o primeiro lugar aos campeões transalpinos. E tudo num jogo de cautelas máximas, como se percebeu pelos cuidados de Maurizio Sarri no lançamento da viagem à capital quando recusou a possibilidade de jogar de início com Dybala, Ronado e Higuaín. “Não posso proibir o Dybala de procurar a profundidade e, ao mesmo tempo, as características de Ronaldo também não permitem jogar sempre pelo centro. Temos de tomar algumas precauções”, referiu o técnico bianconeri.

Higuaín acabou por ser o sacrificado no ataque mas o maior sacrifício de todos no arranque do jogo foi o da defesa da Lazio que, depois de uma primeira ameaça de Dybala, viu Cristiano Ronaldo inaugurar o marcador após assistência de Betancur (24′). O avançado português ainda teve oportunidade de fazer o segundo golo e Immobille perdeu também uma boa chance mas Luís Alberto faria o empate em cima do intervalo (45’).

No segundo tempo, a Juventus foi à procura da vantagem, a Lazio conseguiu ir saindo sempre com Luís Alberto em destaque, até que, a pouco mais de 20 minutos do final, Juan Cuadrado foi expulso e iniciou a derrocada que iria culminar na primeira derrota da Vecchia Signora na Serie A, com golos de Milinkovic-Savic (74’) e de Felipe Caicedo, avançado equatoriano que passou pelo Sporting há dez anos sem sucesso por empréstimo do Manchester City (90+5’) – e Immobile ainda falhou um penálti. Com este resultado, o Inter, que tinha empatado sem golos com a Roma nesta jornada, ganhou até um ponto à Juve, consolidando a liderança da Serie A (38-36).