“A quem é que vamos devolver o património?”, interroga-se a historiadora Raquel Henriques da Silva, depois de o Livre ter proposto restituir bens culturais das ex-colónias aos países de origem. A diretora científica do Museu do Neorrealismo sublinhou a importância de conhecer os interlocutores desta medida, porque, “em geral”, os políticos destes países não lhe “permitiriam o menor sinal de confiança”.

Em entrevista à rádio Observador, que pode ouvir aqui, a académica começou por dizer que a proposta tem “uma carga política excessiva” para um tema cultural e acusa o partido de ser populista. Acrescenta ainda que a forma “solitária, provocatória e bombástica” como foi apresentada na Assembleia da República por Joacine Katar Moreira, deputada única do partido, é “para provocar reações mais do que [para] fazer trabalho”.

Raquel Henriques da Silva sobre património das ex-colónias: “Vamos devolver a quem?”

Joacine sugeriu a criação de uma comissão multidisciplinar para poder listar os bens culturais a ser devolvidos e “descolonizar” os museus e monumentos nacionais. Raquel Henriques da Silva sugere que, em primeiro lugar, o partido crie “um consenso” na assembleia, e acrescenta que só depois deve conhecer os interlocutores e criar grupos de trabalho com os técnicos dos museus dos países que têm interesse em integrar o património. A historiadora apontou o Museu Nacional de Etnologia e o Museu Nacional de Arqueologia como as principais instituições a ser integradas na comissão por terem as mais importantes coleções africanas do país.

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Raquel Henriques da Silva acrescentou ainda que os grupos de trabalho não devem ser formados por “ativistas políticos”, mas sim por especialistas e técnicos portugueses, angolanos e moçambicanos.

No entanto, a diretora científica do Museu do Neorrealismo, frisou que “a grande cultura é transnacional” e que “os patrimónios não devem estar fechados em pátrias, em lugares com fronteira”.