Para quem passou muito tempo a ouvir 1989, o álbum de 2014 de Taylor Swift, há algo que fica muito claro: Taylor Swift tem um problema — ou vários. Todos temos problemas, Taylor Swift não seria exceção, a grande diferença está na forma como a cantora assume os que lhe dizem respeito, direta ou indiretamente. Estão visíveis e à mão de semear. E parece assumi-los como forma de os transcender, ultrapassar e, depois, criar novos. A história de Taylor Swift é feita de uma constante vontade de emancipação e de um desejo de enfrentar novos desafios.

São estes os temas de “Miss Americana”, o documentário realizado por Lana Wilson que está disponível na Netflix. “Miss Americana” pinta um retrato de “coitadinha de mim” e sobre isso não há volta a dar. São muitos os momentos nesse tom, desde a forma como se expõe sobre a notícia em volta da ausência de nomeações para algumas categorias dos Grammy, ou como se mostra quase sempre em privado, sozinha, na companhia de gatos.

[o trailer de “Miss Americana”:]

Isto não quer dizer que quem está na companhia de gatos é um coitadinho ou coitadinha. Há um esforço para mostrar um certo isolamento – ocasionalmente, há um apoio familiar – no sentido de se mostrar como uma mulher forte, que supera todos os desafios que estão à sua frente. E aí, “Miss Americana”, mais do que um documentário sobre Taylor Swift, é uma grande jogada para fazer vencer a sua verdade. Ou aquela que é a sua verdade neste momento.

Há razões para Taylor Swift se sentir assim? Tem 30 anos, já bateu uma série de recordes e foi a artista feminina que mais dinheiro fez na década passada. Mas e então? Como dizia há pouco tempo Jeff Tweedy, vocalista dos Wilco, cada um sabe dos seus problemas, das suas dificuldades e das suas dores. Em 2009, quando ainda só tinha 19 anos, Kanye West interrompeu-a em direto na cerimónia dos prémios da MTV para elogiar o vídeo de Beyoncé de “Single Ladies (Put a Ring on It)”. Assim:

O momento é recordado em “Miss Americana”. O que não é recordado é que nessa mesma cerimónia, Taylor Swift deu uma daquelas atuações que ficam para a história. Pouco lembrada porque aconteceu Kanye West:

No fundo, o que Taylor Swift quer dizer aos fãs e ao mundo em “Miss Americana” é que, apesar de ser muito rica e bem sucedida, tem o direito a sentir-se seja como for, bem ou mal, porque a ela também lhe acontecem coisas, boas e más, sem estabelecer comparações com a fortuna ou a má sorte de qualquer outra pessoa. E fá-lo sem passar a sensação de que é apenas mimada. Como se disse no início: a sua história é de emancipação, seja qual for o método a que cantora norte-americana recorra.

“Miss Americana” é, então, uma história de alguém a reclamar o direito a ser o que tiver de ser, o que quiser ser, o que os tempos ditarem que ela seja: triste, alegre, insatisfeita, ambiciosa, tudo. E a explicar porquê. Porque desde muito cedo se treinou – e esses momentos surgem nas entrelinhas e em momentos mais óbvios do documentário – para ser aclamada. Toda a sua formação enquanto artista, cantora, foi para receber a aclamação. E qualquer coisa menos do que isso é estranho para ela.

Por isso, quando se vê Taylor Swift nos VMAs a ser interrompida por Kanye West e a ouvir aqueles “buuus” todos logo a seguir, acompanhados por uma cara e um corpo próximos de estarem a desfazer-se em choro, é Taylor Swift a pensar que é o público a rejeitá-la. Mas não era. A vaia era para Kanye. Até então, Swift não deveria ter ouvido um “buuu” sequer, quanto mais num palco. Ou quando se sente rejeitada pelos Grammys, a sua resposta é apenas uma: tenho de fazer um álbum melhor. E talvez seja por isso que Reputation e Lover sejam separados por menos de dois anos.

Não há engano – nem qualquer disfarce – de que “Miss Americana” é uma grande manobra de marketing. Só que é Taylor Swift a fazê-la, a assumi-la. E além de ter esse direito, o de fazer um documentário e mostrar ao mundo como se sente, trabalhar esta imagem e revelá-la faz parte do seu plano ambicioso de superação e conquista. Pela forma como fala da sua última digressão, em volta de Reputation, “Miss Americana” funciona também como um companheiro para promover a próxima tour, a que promove o mais recente Lover e que passará por Portugal – a estreia de Taylor Swift em solo nacional – a 9 de Julho no NOS Alive.