Ao longo das últimas semanas, o jornalista chinês Chen Qiushi tem mostrado ao mundo a gravidade do coronavírus e como a China está a lidar com a doença, através de reportagens polémicas e vídeos em direto feitos a partir do seu telemóvel na cidade de Wuhan, o epicentro do surto. Agora, Chen Qiushi está desaparecido. De acordo com a CNN, a família não tem informações sobre ele desde a noite de quinta-feira, dia em que morreu o médico chinês que denunciou o coronavírus — o que gerou uma onda de revolta entre a população.

Chen Qiushi, que também é advogado, chegou a Wuhan no dia 24 de janeiro e, desde então, tem denunciado através de vídeos que publica nas redes sociais a realidade dos hospitais, funerárias e alas de isolamento improvisadas. Num dos vídeos, vê-se num canto do hospital uma mulher com uma máscara a tentar segurar um familiar morto, sentado numa cadeira de rodas, ao mesmo tempo que tenta fazer telefonemas.

Amigos do jornalistas disseram à CNN que, antecipando o risco de detenção pelas autoridades devido ao tipo de reportagens que andava a fazer, falavam com ele várias vezes ao dia. Mas, na noite de quinta-feira, Chen Qiushi deixou de atender o telemóvel. Logo sexta-feira, um amigo do jornalista publicou no Twitter um vídeo onde a mãe de Chen Qiushi pede ajuda. “Estou aqui para implorar a todos online, especialmente aos amigos em Wuhan, que ajudem a encontrar Qiushi e descobrir o que está a acontecer com ele”, disse ela, segundo a tradução da CNN.

Mais tarde, nessa sexta-feira, um amigo do jornalista, Xu Xiaodong, viria a revelar num vídeo em direto no Youtube que os pais Chen Qiushi tinham sido notificados pelas autoridades de que o filho tinha sido colocado em quarentena à força. “A mãe perguntou-lhes de imediato para onde e quando ele tinha sido levado, mas eles recusaram-se a dizer”, explicou Xu Xiaodong, lembrando que, antes de ter desaparecido, o jornalista estava bem de saúde e não aparentava ter sintomas de coronavírus.

Estamos preocupados com a sua segurança física, mas também com a possibilidade de ele ter sido infetado por coronavírus, enquanto está desaparecido”, disse um amigo à CNN, que solicitou anonimato por receio de represálias.

Chen Qiushi é conhecido na China por denunciar questões sociais: o seu canal do YouTube tem agora 434 mil subscritores e a sua conta no Twitter — que agora está a ser gerida por amigos a quem o jornalista deixou os dados de acesso — ultrapassa os 247 mil seguidores.

Já em agosto tinha visto as suas contas nas redes sociais bloqueadas depois de ter viajado até a Hong Kong para fazer reportagens sobre os protestos pró-democracia. A sua visita acabou de forma abrupta, depois das autoridades o terem obrigado a regressar a Pequim. Ali, foi chamado para um interrogatório por diferentes departamentos do governo — uma história que só é conhecida porque foi o próprio Chen Qiushi a contá-la num vídeo que publicou posteriormente.

No início de outubro, o jornalista voltou ao YouTube — até agora. “Uma vez que a liberdade de expressão é um direito básico dos cidadãos, previsto no artigo 35 da Constituição Chinesa, preciso de continuar porque acho que é o certo a fazer, independentemente da pressão que possam fazer”, disse num vídeo publicado nessa altura. Nos vídeos mais recentes, o jornalista e advogado explicou que o seu objetivo era “documentar o que realmente está a acontecer quanto aos esforços de Wuhan para conter o surto”. “Estou disposto a ajudar a espalhar a voz do povo Wuhan para o resto do mundo”, disse, acrescentando:

“Enquanto estiver aqui, prometo que não vou começar ou espalhar boatos. Não vou criar medo ou pânico, mas também não ocultarei a verdade”.

Na semana passada, Fang Bin, amigo de Chen Qiushi que também estava a fazer a cobertura do surto, foi detido pelas autoridades depois de ter divulgado um vídeo com cadáveres num hospital chinês. As publicações destes dois jornalistas tornaram-se virais nas redes sociais — o que levou até o órgão de vigilância da Internet da China a reforçar o policiamento, já intensificado devido à onda de indignação causada pela morte do médico que denunciou o vírus.