Primeiro o símbolo de hashtag. Depois, os caracteres han. Quero liberdade de expressão: 1,8 milhões de visualizações. Queremos liberdade de expressão: 2 milhões de visualizações. A censura chinesa, rápida a apagar da internet o rasto de manifestações anti-censura ou anti-regime, foi incapaz de reagir em tempo útil. E o seu falhanço permitiu que a indignação com a morte do médico que alertou para o surto do novo coronavírus enchesse a Weibo, a principal rede social chinesa, de protestos.

De cada vez que um hashtag era apagado, surgia outro. Até mesmo a frase “o governo de Wuhan deve um pedido de desculpas ao Dr. Li Wenliang” teve milhares de visualizações antes de desaparecer para sempre no espaço cibernáutico.

Para a censura chinesa, perdido por cem, não quer dizer perdido por mil. Apesar do atraso inicial, todas as publicações a apelar à liberdade de expressão (ou a criticar a censura) acabaram no caixote de lixo, sem deixar pegada digital, depois da intervenção do Escudo Dourado. Usualmente chamado de Great Firewall (alusão à Grande Muralha da China), este é o maior projeto de censura e vigilância da internet do mundo, operado pelo governo chinês, e que desde o início dos anos 2000 garante que quem usa internet na China o faz sob as condições impostas pelo governo.

O que falhou desta vez? Algo muito semelhante ao cenário de 2011, quando dois comboios de alta velocidade colidiram na China. O governo foi rápido a dar indicações aos jornalistas para se focarem na operação de salvamento, tentando encobrir a verdadeira dimensão e os motivos do acidente que fizeram mais de 30 mortos. A população sentiu que a verdade lhe estava a ser ocultada e foi nas redes sociais que se manifestou, de uma forma nunca antes vista.

Com a morte do médico Li Wenliang, e com os chineses a adivinharem a mão da censura na informação sobre o vírus 2019-nCoV, os protestos começaram a surgir em catadupa. O problema não era apenas a morte do oftalmologista — ela foi apenas o rastillho —, mas o sentimento de que as autoridades chinesas tentaram encobrir o surto do coronavírus.

Li Wenliang alertou para o início do surto. Foi detido pela polícia chinesa e obrigado a assinar um documento (na foto publicada por ele nas redes sociais) onde admitia ter violado a lei e “perturbado seriamente a ordem social”. Não sobreviveu ao coronavírus

O herói silenciado pelo regime

Ainda antes de o novo coronavírus fazer manchetes em todo o mundo, somando já mais de 630 mortes e de 31 mil infetados, Li Wenliang alertou para o surgimento de um novo vírus. Como viria a contar em entrevista ao Beijing Youth Daily — jornal oficial da Juventude Comunista em Pequim — o médico do Hospital Central de Wuhan (epicentro do surto) enviou mensagens a colegas seus avisando-os de novos casos de infeção de SARS. Mais tarde, corrigia a mão: não era SARS, a síndrome respiratória aguda grave que fez mais de 800 mortes nos anos 2000, mas antes um novo coronavírus. Nessas mensagens, alertava para um número pouco usual de casos relacionados com o mercado de Wuhan. Quando é que tudo isto aconteceu? A 30 de dezembro de 2019.

As autoridades chinesas foram rápidas a atuar. A 3 de janeiro foi acusado de lançar rumores e admoestado para parar de fazer comentários falsos na internet. O oftalmologista de 33 anos teve ainda de assinar um documento — com o qual haveria de posar para uma fotografia que publicou nas redes sociais — onde assumia ter “perturbado seriamente a ordem social”. Poucos dias depois, a 8 de janeiro, contraiu o vírus, que lhe viria a causar a morte a 7 de fevereiro. Quando a sua história foi tornada pública, já Li Wenliang estava infetado e rapidamente se tornou numa espécie de herói, silenciado pelo regime chinês.

“Disseram-me para não publicar nenhuma informação sobre isto online”, disse ao Beijing Youth Daily no final de janeiro. “Mais tarde, o surto começou a espalhar-se. Eu tratei alguém que estava infetado, e cuja família foi infetada, e acabei infetado.” A 10 de janeiro começou a tosse, no dia seguinte a febre. Dez dias depois, a 20 de janeiro, a China declarou emergência por causa do surto.

Depois de vários testes negativos, a 30 de janeiro, o médico — contagiado por uma doente com glaucoma — era finalmente diagnosticado e escrevia nas redes sociais: “Hoje, o teste de ácido nucleico voltou com um resultado positivo.” Da China ao resto do mundo, a história de Li Wenliang viajou mais rápido do que o próprio coronavírus e a imprensa internacional começou a contar a sua história, que teve novo twist com o anúncio da sua morte, em resultado da infeção.

A 6 de fevereiro, a imprensa estatal chinesa anunciava a morte do médico. Num desenvolvimento pouco habitual na China, o Hospital Central de Wuhan desmentia aquela informação, anunciando que o médico estava vivo, mas em estado crítico. A 7 de fevereiro de 2020, às 2h58 (hora local), o hospital confirmava o óbito. E a internet explodia na China.

Mesmo que as mensagens continuem a desaparecer da internet, as autoridades chinesas anunciaram esta sexta-feira que vão abrir um inquérito sobre o caso, com o Partido Comunista Chinês, através do seu órgão que combate a corrupção, a anunciar o envio de uma equipa para Wuhan “para realizar um inquérito exaustivo sobre as circunstâncias relativas ao caso do médico Li Wenliang, tal como foram referidas pelas massas”.