A partir da Praia da Nazaré, há um canhão submarino que se estende por mais de 200 quilómetros e que chega a atingir cinco mil metros de profundidade. No Canhão da Nazaré não nascem meras ondas. Nascem ondas gigantes, autênticas pirâmides de água que chegam a ter 30 metros de altura e uma densidade energética que, segundo o Instituto Hidrográfico, pode ultrapassar os 30 quilowatts por metro — o suficiente para carregar 30 milhões de smartphones.

Foi debaixo de uma onda como estas que Alexandre Botelho perdeu a consciência esta terça-feira durante o campeonato do Circuito Mundial de Ondas Grandes. O surfista estava a ser retirada da zona de provas pelo colega Hugo Vau, que em 2018 apanhou na Nazaré a maior onda de que há registo, quando foi atingido por uma massa de água que o esmagou contra uma mota d’água. Está “estável”, mas a ser acompanhado por um possível traumatismo craniano.

De acordo com Pedro Proença Cunha, professor catedrático de geologia na Universidade de Coimbra e autor do livro The Nazare Coast, the Submarine Canyon and the Giant Waves, os cientistas ainda não conseguiram compreender pormenorizadamente como é que o Canhão da Nazaré se desenvolveu no fundo do mar português: “Este tipo de canhões normalmente existem na embocadura de rios grandes, como no Douro, Sado e no rio Tejo”, justifica ao Observador.

Nesses casos, a resposta para o surgimento dos canhões é bem conhecida. Há cerca de 12 mil anos, a Terra estava no máximo de um período glaciário em que a água estava acumulada nas calotes de gelo e em glaciares de vale em terra, por isso o nível da água do mar era muito mais baixo — 120 a 130 metros abaixo do nível atual; e os rios tinham uma energia muito maior, escavando os terrenos em profundidade. Mas quando o nível da água do mar começou a subir, inundou estruturas como os fiordes e os estuários. E assim se geraram os canhões fluviais.

Mas na Nazaré não existe atualmente nenhum rio que pudesse de ter escavado um canhão daquela dimensão, concluiu Pedro Proença Cunha. Uma das explicações possível é que “a rede hidrográfica atual não seja a que existiu há entre 10 e 20 mil anos e que o vale submarino se tenha desenvolvido por constante fluxo de areias fornecidas pela deriva litoral, erodindo o fundo do mar.

Um esquema tridimensional do canhão da Nazaré. Créditos: D.R.

Mas as ondas gigantes da Nazaré são o produto de mais ingredientes além do Canhão da Nazaré. As respostas para este fenómeno que atrai os mais destemidos surfistas até ao oeste português começam mar adentro, no Atlântico Norte, que é uma área muito grande sujeita a ventos fortes. “As grandes depressões que se geram no Atlântico provocam ventos muito fortes [como a tempestade Ciara, que está a atingir Inglaterra neste momento] que, ao fazer atrito com a superfície do oceano, vai formar diferentes ondas”, começa por descrever o professor da Universidade de Coimbra.

Essas ondas dispersam-se em todas as direções. As maiores em altura são chamadas “ondas de temporal”, explica-nos Pedro Proença Cunha: “Como estamos a este do Atlântico Norte, que é muito energético, quando ocorre um temporal, passado uns dias essas ondas vão atingir os Açores e depois a nossa linha de costa ocidental”.

Acontece que “a nossa costa está muito exposta” a essa energia do Atlântico Norte: “A Holanda não tem este problema porque não recebe tanta energia da agitação marítima, por estar numa zona interior. Quando as ondas chegam lá, já dissiparam a energia”, compara.

Algumas dessas ondas grandes vão ter uns cinco a seis metros e, ao aproximarem-se da costa, vão tocar no fundo do mar. Esse contacto cria um efeito de atrito que as faz perder velocidade, “como uma bicicleta numa zona de cascalho”, prossegue Pedro Proença Cunha.

Mas outras ondas, as ondas que viajam segundo o Canhão da Nazaré, não sofrem nenhuma atenuação da velocidade até ao momento que chegam mesmo à costa porque, como encontram essa estrutura de águas profundas, não tocam no fundo do mar, não criam um efeito de atrito e não perdem velocidade.

Isto já criaria ondas muito densas, energéticas e altas, mas há mais. É que o canhão sofre um desvio para a esquerda na região da baía da Nazaré, encaminhando as ondas que por lá passam para esse lado. O resultado? As ondas mais energéticas vindas segundo o Canhão chocam com as outras, gerando uma onda em formato de pirâmide. O topo delas pode chegar aos 30 metros ou mais, resume o geólogo.

O australiano Mick Corbett apanha uma onda na Praia do Norte, Nazaré, a 11 de fevereiro de 2020. Créditos: Pedro Fiúza/NurPhoto via Getty Images

É na área junto ao promontório, muito perigosa por causa das grandes movimentações de água, que os surfistas apanham as ondas gigantes da Nazaré. Por lá, não só estão à mercê das fortes correntes daquela região marítima, como estão expostos aos rochedos dispersos que lá existem.

É perigoso, mas também é entusiasmante para os surfistas de ondas grandes. Hugo Vau, que acudiu Alexandre Botelho esta terça-feira, é um deles. Há dois anos, quando surfou a maior onda de que há registo no mundo, disse ao Observador que a sensação era a de “ser perseguido por uma avalanche”: “É precisamente pelo medo que acho importante estarmos conectados com o presente, o que se está a passar: se não recordarmos uma situação menos boa ou se não pensarmos demais naquilo que poderá acontecer no futuro, nós não temos medo porque estamos completamente ligados ao momento”, descreveu.

Garrett McNamara falou da mesma sensação quando, em 2017, foi entrevistado pelo Observador por ocasião do lançamento do livro Lobo do Mar: ” Naquelas praias é tudo sempre tão colossal e imponente e magnificente! Está sempre tudo a mudar, por isso nem sequer temos tempo de encontrar a regra daquele mar. Aliás, é impossível cair na monotonia quando estamos no mar da Nazaré”.

O surfista norte-americano, que em tempos foi o proprietário do recorde da maior onda alguma vez surfada, afirmou à época que a Nazaré mudou a forma como encara o desporto dentro do mar: “Sempre tive este ímpeto de tentar controlar todas as ondas que chegavam e o universo ensinou-me a desacelerar. É uma questão de respeito, no fundo, é preciso respeitar plenamente a fúria da Natureza. Antes, era demasiado confiante, um pouco insolente perante o mar. Respeitava-o, mas a Nazaré é tão mais desafiante que me obrigou a deixar essa arrogância de lado“.