Hugo Vau surfou a maior onda da Nazaré: “É como ser perseguido por uma avalanche”

19 Janeiro 201810.552

Dez anos e 6 tentativas falhadas depois, Hugo Vau surfou uma onda maior que a do tsunami de 1755, aquela que será a "Big Mama", a mãe de todas as ondas. Agora já quer a "Big Grandmama".

A maior onda gigante do mundo foi surfada pelo português Hugo Vau. Já de costas viradas para a Nazaré, onde tentava — e só agora conseguiu — dominar a força do Canhão há dez anos, o lisboeta de 36 anos que se apaixonou pelo mar na Costa da Caparica falou ao Observador sobre “a dádiva” que encontrou ao fim da tarde de quarta-feira no cimo de uma onda que teria 35 metros de altura (falta a homologação oficial, que confirmará que o recorde foi batido). Fala de paciência e de uma dádiva. Fala de orgulho e de companheirismo. E agradece a vida a Garrett McNamara, o anterior recordista.

Apanhar esta onda gigante, aquela que será a maior de sempre, foi uma questão de sorte ou de muito trabalho?
Ando à espera que aconteça desde há dez anos [risos]. Foi o resultado de muita persistência e de um trabalho de equipa que já vai com uma década. A Nazaré é um sítio muito específico onde um surfista sozinho não consegue fazer nada. Tem de ter uma equipa por trás para gozar esta aventura de forma segura e divertida. Nós passámos três horas e meia na água, sempre a tentar encontrar uma única onda na Praia do Norte. Estava muito, muito vento. As condições eram realmente adversas e já era final de tarde. Mas nós não desistimos e acabámos por ser recompensados.

Foi o resultado de muita persistência e de um trabalho de equipa que já vai com uma década. A Nazaré é um sítio muito específico onde um surfista ali sozinho quando consegue fazer nada.

Mas teve noção do que estava prestes a enfrentar?
Vimos uma onda a rebentar naquele sítio. Uma “Big Mama”, que é uma onda que só aparece mesmo quando o mar está gigante. Está mais do que gigante: está monstruoso. É muito fora do normal, é muito raro esta onda funcionar. Até mesmo na Nazaré, porque tem de ser um mar muito grande, ter ondas perfeitas e tem de estar a maré certa — se não estiver a maré certa, a onda não rebenta.

Viu-a formar-se?
Sim, porque, enquanto estamos dentro de água na Praia do Norte, temos um outro colega, o Jorge Leal — que é o nosso videógrafo e fotógrafo — que faz os calls, que são as chamadas para as ondas. Ele está num plano onde consegue ter outra perspetiva e onde consegue mais ou menos situar e perceber a natureza da onda que se está a aproximar. Nós não estávamos a conseguir apanhar as ondas porque estava muito vento. Já tínhamos tentado seis vezes, mas era impossível descê-las. Ele disse-nos: “Vem aí uma onda gigante, tentem apanhá-la”. Então pus o meu colega Alex numa onda, que não foi tão grande como esta, e a seguir apercebi-me que vinha lá o set. Não sei se se percebem este palavreado.

PROUD OF YOU VAU!!! Today i saw probably the biggest wave surfed at nazaré by @hugovau on the biggest swell ever! @hugovau team up with @alex_botelho and @marcelolunaoficial … hard conditions but perseverance from this amazing Portuguese team was speechless! We stay, we seat, and big mama came! Jesus call and Alex with an amazing drive put Hugo on the bomb!!! I’m felling so proud of @hugo and @alex_botelho as a team!…

A post shared by Jorge Leal_POLVO (@polvo32) on

É melhor explicar…
O set é um conjunto de ondas grandes. Os outros surfistas andavam entre o porto de abrigo e a Praia do Norte à espera de uma onda no canal. Eu vi uma mesmo enorme e fui em direção a ela. O Alex foi exímio na condução da onda dele, foi mesmo espetacular. E eu, pronto, também surfei a minha onda da melhor maneira que pude. Por acaso até foi bem surfada. É uma daquelas histórias em que correu tudo bem, em que houve sintonia entre duas pessoas, entre nós e o mar. Correu tudo na perfeição. Pode dizer-se que foi um momento mágico.

Quando está em cima de uma onda provavelmente tão grande como a do tsunami que devastou Lisboa em 1755 no que é que se pensa?
Pensa-se em muita coisa! Aquelas ondas são tão grandes que desde a crista até lá em baixo dá tempo para pensar em tudo [risos]. Essencialmente, quando se está a descer uma onda daquelas é preciso manter muita concentração e, acima de tudo, ter muita vontade de a descer . É preciso estar-se completamente conectado de forma a que se consiga fazer uma leitura d onda que permita uma experiência tranquila. Agora, aquela onda em particular, vi logo que ia ser enorme. Pensei que talvez fosse a maior onda que já tinha surfado — e acabou por ser mesmo.

Como é que se sabe disso quando se está num mar tão bravo?
Percebe-se o sítio onde ela vai rebentar através da forma que ela começou a ter. Houve ali um momento em que duas ondas se juntaram e foi isso que fez com que esta onda se tornasse tão grande. Ficou quase com o dobro do tamanho antes de rebentar. Calcula-se que sejam 35 metros de altura, mas apurar isso cabe ao comité. Tem de haver muito amor pelo mar, tem de se ter muita confiança na equipa e tem de ser estar ali mesmo com o coração. Quem abraça desafios destes, tem de o fazer pelas razões certas. Não se pode estar neste oceano à espera de um momento de protagonismo, de fama ou whatever. Temos de estar a surfar com a alma.

E o medo?
É uma situação engraçada. É precisamente pelo medo que acho importante estarmos conectados com o presente, o que se está a passar: se não recordarmos uma situação menos boa ou se não pensarmos demais naquilo que poderá acontecer no futuro, nós não temos medo porque estamos completamente ligados ao momento. E isso protege-nos. Outra técnica que gosto de utilizar é sentir-me grato. Sentir gratidão. Quando estamos a agradecer por alguma coisa — por termos saúde, por exemplo, ou por podermos fazer aquilo que mais gostamos — ficamos gratos com a vida e não há espaço para mais nada. Se calhar não são técnicas: são formas de viver.

Já agora, como era a vista lá de cima? Ou não se consegue ver nada
Quando larguei o cabo da mota, fiz uma trajetória de modo a ir para uma área mais interna — vamos lá: para irmos mais para dentro da onda, digamos assim. Essa é uma zona mais profunda e crítica da onda. Quando estava a fazer essa trajetória fiquei de frente para onda e foi aí que me apercebi de como a onda era grande e quão veloz podia ser em cima dela. Consegui ver tudo: aquela ia ser a onda mais poderosa que já tinha surfado. A partir daí, a sensação é a de descer uma montanha enquanto se está a ser perseguido por uma avalanche.

Consegui ver tudo: aquela ia ser a onda mais poderosa que eu ia surfar. A partir daí, a sensação é a de descer uma montanha enquanto se está a ser perseguido por uma avalanche.

Sim, mas não é novato nesta coisa das ondas gigantes…
Não, até fui um dos nomeados para os galardões XXL de maior onda gigante da Liga Mundial de Surf em 2014 e no ano passado. Ainda assim, foi preciso esperar dez anos para encontrar “a” onda gigante. Foi preciso muita paciência. Mas vamos lá ver: quando vou para a água, não vou à procura de uma onda gigante ou de uma onda maior ou mais pequena. A única coisa que procuro quando vou para a água é divertir-me, passar momentos inesquecíveis na natureza — que é isso que adoro — e acima de tudo passar bons momentos com os meus amigos. As ondas grandes entraram na minha vida de forma natural em que comecei a sentir cada vez mais calma e ligação com o mar. Notei que essa ligação era maior em cima de ondas gigantes.

Mas era seu objetivo bater o recorde?
Não vou à procura de bater um recorde ou de apanhar uma onda maior do que a de outra pessoa. Vou à procura de me divertir o mais possível e de viver novamente aquele sentimentos que tínhamos em criança: quando estávamos a brincar não pensávamos em mais nada. É isso que me acontece quando apanho uma onda daquelas. Entro noutra realidade. Acaba por ser a natureza. A natureza e o destino é que fazem se calhar com que a maior onda do mundo tenha vindo ter comigo. Consegui estar à altura para a surfar. É mais forte do que a nossa vontade: também tem de estar um pouco destinado. Aquela onda foi uma dádiva. O mar foi muito meu amigo [risos].

Como é que celebrou?
Por acaso foi um momento muito especial em que eu e o Alex demos um abraço. Lá está, tipo… Os recordes vão e vêm, o mediatismo pode ir e voltar, mas a sensação e sentimento de alegria que nós guardamos é algo que vai ficar para sempre nas nossas memórias. E que vai marcar para toda a vida. É sempre sobre isso: amizade e espírito de equipa. A primeira pessoa a quem liguei foi à minha namorada, a Joana. Mas logo dentro de água houve uma grande celebração porque estavam ali muitos surfistas a observar-me, a mim e ao Alex. Estavam a tentar perceber o que é que nós estávamos a fazer. Quando acabei a onda, estava tudo completamente louco, tudo aos gritos! Todas as pessoas que estavam na água — até mesmo aqueles que já têm muitos anos de Praia do Norte –, disseram-me logo que tinha sido a maior onda de sempre. Toda a gente se apercebeu que aquilo a que tinham acabado de assistir tinha sido muito especial.

Quando eu acabei a onda, estava tudo completamente louco, tudo aos gritos! Todas as pessoas que estavam na água -- até mesmo aqueles que já têm muitos anos de Praia do Norte --, disseram-me logo que tinha sido a maior onda de sempre.

O que é que lhe disse Garrett McNamara? Afinal vai roubar-lhe o recorde…
Ainda não falei com ele. Ele ligou-me duas vezes, mas eu estava na água. Vi a publicação que ele fez, por isso penso que deve estar muito feliz. Ele está super feliz com o facto de ter sido eu a apanhar esta onda. Ele já tinha confessado a muita gente, inclusive a mim, que se fosse para alguém bater o recorde dele, gostava que fosse eu. Nós gostamos muito um do outro, somos muito amigos. Já nos ajudámos muito um ao outro, já salvámos muitas vezes a vida um do outro. O Garrett estava lá quando surfei as duas maiores ondas da minha vida. Foi ele que me puxou para essas ondas. Ele é uma pessoa com muito bom coração e certamente está muito feliz. Se tiver mesmo batido o recorde dele, ele ficará muito feliz.

Acha que este é o momento mais importante da sua carreira?
Hmmmm (silêncio). Penso que sim, que está a ser. Sim. Também já fui duas vezes finalista do Ride of the Year Awards na categoria da maior onda do mundo e isso foi importante porque, na Europa, se calhar só dois ou três surfistas é que conseguiram estar mais do que uma vez nessa final. Portanto, sei lá, se isto realmente for como toda a gente está a pensar — que a onda seja realmente um recorde do mundo –, sim, este é o momento mais alto da minha carreira enquanto surfista profissional de ondas grandes.

Há uma rivalidade entre surfistas para encontrar ondas como esta?
Sim. Mas confesso que não sou muito competitivo: gosto de estar no mar para relaxar e se calhar por isso é que esta onda me apareceu. Não fui para a água para isso, mas andava inspirado para que acontecesse. Cada um é como cada qual. Eu, pessoalmente, não sou muito assim. Gosto, claro, de me superar. Sou competitivo comigo próprio e gosto de testar os meus próprios limites. E de melhorar enquanto atleta e como pessoa.

Nós gostamos muito um do outro, somos muito amigos. Já nos ajudámos muito um ao outro, já salvámos muitas vezes a vida um do outro. O Garrett estava lá sempre que surfei as duas maiores ondas da minha vida. Foi ele que me puxou para essas ondas.
Sobre Garrett McNamara

Então agora o que é que quer fazer para superar isto?
A seguir, uma das coisas de que gostava — é mesmo um objetivo — era conseguir ajudar ao meu companheiro de equipa, o Alex Botelho, a apanhar a maior onda a remar. E também ajudá-lo a entrar no Big Wave World Tour. Esses são os meus objetivos prioritários porque também é bom darmos coisas boas aos nossos amigos, principalmente àqueles que nos rodeiam todos os dias. E depois é esperar pela outra: em vez de ser a “Big Mama”, que venha a “Big Grandmama”. Depois da mãe, que venha a avó [risos]!

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: mlferreira@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)