“Toda a gente fala sobre o tempo mas ninguém faz nada para o mudar”, diz a célebre frase atribuída a Mark Twain. Menos em “O Tempo Contigo”, a nova longa-metragem animada de Makoto Shinkai, a quem já chamam (disparatadamente) “o novo Miyazaki”, e que foi o filme campeão de bilheteiras no Japão no ano passado. Hodaka, um miúdo de 16 anos que fugiu de casa para viver e trabalhar em Tóquio, conhece Hina, um pouco mais velha que ele, que se revela ser uma “Rapariga do Sol”, capaz de parar a chuva e fazer aparecer o astro-rei com orações. Um dom que lhe foi concedido após ter atravessado um portal sagrado mágico que descobriu no topo de uma fábrica abandonada. (Parece que a mitologia nipónica está cheia de raparigas que conseguem controlar o tempo).

[Veja o “trailer” de “O Tempo Contigo”:]

Além de se apaixonar por Hina, que perdeu a mãe, está desempregada e vive com o irmão mais novo, Hodaka propõe-lhe usar o seu dom para ganhar dinheiro e fazer as pessoas felizes. É que o Verão está a ser invulgar e lugubremente chuvoso na região de Tóquio, e os dois fazem um página na Net a anunciar as invulgares qualidades da Rapariga do Sol, a quem todos aqueles que precisarem que a chuva pare por algum tempo podem comprar os serviços. E começam a ganhar muito dinheiro com feirantes que querem compradores nas suas bancas, noivos que imploram um casamento com sol, desportos que precisam de recintos secos ou famílias que desejam fazer um piquenique sem temer que chova. Só que Hina tem que pagar, literalmente, um preço na pele de cada vez que reza a pedir sol.

[Veja uma entrevista com o realizador:]

Makoto Shinkai gosta de contar histórias com personagens adolescentes que se envolvem de forma insólita e onde o tempo costuma desempenhar um papel muito importante, e de imbricar o realista e o fantástico, o terra-a-terra e o místico.Veja-se a importância das estações do ano em “Cinco Centímetros por Segundo”, o papel dos dias de chuva em “O Jardim das Palavras” ou a forma como os dois protagonistas de “Your Name” trocam de corpos à distância. Em “O Tempo Contigo”, mais do que em outra animação anterior do cineasta (que também é argumentista e autor de “manga”), o tempo atmosférico serve para exteriorizar ou enfatizar as emoções e os sentimentos dos protagonistas, e os altos e baixos emotivos da fita (que padece aqui e ali de um excesso quer de efusividade visual, quer expressiva e emotiva das personagens, tipicamente nipónico).

[Veja uma cena do filme:]

“O Tempo Contigo” é uma fantasia meteorológica e romântica em que a magia e a feérie irrompem no meio do hiperrealismo pontilhista com que Makoto Shinkai se compraz, por um lado, em retratar uma megalópole contemporânea, e pelo outro, em mostrar o tempo nos seus mais ínfimos cambiantes e nas suas alterações mais temíveis, deslumbrantes ou impercetíveis. Desde a forma como a luminosidade solar filtrada pelas nuvens cai sobre Tóquio, as pessoas e os objetos do quotidiano, até aos pormenores na representação da água nas várias formas e quantidades em que se manifesta ao longo da fita (a ideia dos peixinhos gota-de-água é uma delícia).

[Ouça a canção-tema do filme:]

Apesar de, no final, “O Tempo Contigo” comungar do filme de ficção científica distópica, Shinkai não se põe a fazer sermões catastrofistas e didáticos sobre as alterações climáticas. Ele está sempre do lado de Hodaka e Hina, mesmo que isso signifique afundar gradualmente Tóquio em água e lama. Este é todo o contrário de um filme tendência Greta Thunberg. Se a felicidade dos dois jovens protagonistas depende dos milhões de habitantes de Tóquio terem de aguentar chover cães e gatos todos os dias, e ver as águas, pouco a pouco, tomarem conta da metrópole, assim seja. Aqui, não se trata de “amor e uma cabana”, mas de amor, chapéus de chuva e galochas.