A TAP registou um prejuízo de 105,6 milhões de euros no ano passado, o que compara com um resultado também negativo em 2018 de 118 milhões de euros. Em comunicado a empresa sublinha que os últimos seis meses do ano foram de recuperação com lucros de 14 milhões de euros, que não foram suficientes para impedir o grupo de apresentar perdas, pelo segundo ano consecutivo.

A companhia apresentou esta manhã os resultados numa conferência de imprensa onde o presidente executivo Antonoaldo Neves foi questionado sobre o aviso feito ontem no Parlamento pelo ministro das Infraestruturas. Pedro Nuno Santos deixou claro que o Governo não permitiria o pagamento de prémios a alguns trabalhadores numa empresa que teve prejuízos de mais de 100 milhões de euros.

No entanto, o gestor evitou esclarecer se a empresa tenciona voltar a pagar prémios por desempenho a alguns trabalhadores, referindo que a “comissão executiva não comenta a política de remuneração da empresa na comunicação social”. A mesma resposta foi dada pelo presidente executivo e por Miguel Frasquilho, o presidente do conselho de administração que foi nomeado pelo Estado.

O Estado tem 50% do capital da TAP, mas o acordo com o acionista Gateway, de David Neeleman e Humberto Pedrosa, prevê que a gestão seja privada. E já no ano passado a atribuição de prémios causou mal-estar entre os privados e o Estado.

Desde que foi privatizada em 2015, o grupo TAP só teve resultados positivos em 2017 de 21,2 milhões de euros, com o principal negócio — o transporte aéreo — a lucrar cerca de 100 milhões de euros. Em 2016, o resultado consolidado da TAP SGPS foi negativo em 27,7 milhões de euros, com o transporte aéreo a lucrar 33,5 milhões de euros. Uma parte dos prejuízos registados pelas operações consolidadas nestes dois anos foi da responsabilidade da atividade de manutenção e engenharia no Brasil.

Já em 2018, o transporte aéreo entrou no vermelho com perdas de 58 milhões de euros. O grupo teve um prejuízo consolidado de 118 milhões de euros. O primeiro semestre de 2019 foi ainda mais negativo, com a gestão da empresa a referir o impacto da queda de receitas no mercado brasileiro.

O resultado negativo do primeiro semestre do ano é imputado sobretudo ao comportamento negativo das receitas do mercado brasileiro que caíram 43 milhões de euros. Já o segundo semestre “assistiu a uma melhoria progressiva, que ganhou força e consistência ao longo do período, o que permitiu fechar o segundo semestre com registo de forte expansão de margens e resultado líquido positivo”.

O resultado operacional da TAP passou de prejuízo de 44 milhões de euros em 2018 para lucro de 58,6 milhões de euros em 2019, o que a empresa atribui e uma maior  eficiência nos custos e à recuperação da receita no segundo semestre. Mas a recuperação não chegou para dar a volta aos resultados anuais.

Investimento histórico em novos aviões e congestionamento em Lisboa

Entre as razões apontadas ainda pela empresa para os prejuízos de 2019 estão o impacto do investimento na compra de aviões, mas também a falta de capacidade do aeroporto de Lisboa.

“A companhia conseguiu em 2019 reduzir as perdas anuais, fortemente impactadas pelo investimento feito ao longo do ano, tendo baixado para os 105,6 milhões de euros, que comparam com os 118 milhões de euros em 2018. De destacar os custos incorridos em 2019 com o phase-in e phase-out dos aviões no total de 55 milhões de euros.”

Em comunicado, a TAP destaca um investimento “sem precedentes na história da companhia, permitindo uma transformação sem paralelo na indústria do transporte aéreo a nível mundial no ano passado”. E sublinha que “foi a empresa que mais investiu em Portugal em 2019. Investimento de mais de 1,5 mil milhões de euros, incluindo a compra de 30 aviões novos que permitiu a renovação de 70% da frota de longo curso”. O ano passado ficou ainda marcado pela contratação de 900 colaboradores.

Sobre as restrições aeroportuárias, a empresa aponta o congestionamento do espaço aéreo que impactou negativamente em aproximadamente nove pontos percentuais a pontualidade da operação da TAP. Nessa medida, e apesar dos esforços feitos para melhorar a pontualidade, a companhia diz ter “sido penalizada com um custo por passageiro em termos de indemnizações por irregularidades de mais do dobro do benchmark ibérico. Em 2019 a TAP foi penalizada entre 30 milhões  de euros a 35 milhões de euros em resultado da ineficácia da infraestrutura”.

O presidente executivo da TAP avisou ainda que a empresa não tenciona continuar a investir porque não existem datas para a construção de taxiways, saídas rápidas de aviões da pista. Antonoaldo Neves queixou-se ainda de nada ter sido feito no aeroporto de Lisboa desde que está à frente da TAP há dois anos.

De positivo, a empresa destaca a capacidade de se financiar no mercado e captar 575 milhões de euros em emissões de obrigações junto dos investidores de retalho e também institucionais. E também o crescimento no mercado da América do Norte que é já a terceira principal operação da transportadora.

TAP insiste que não quer voar de e para o Montijo

Na conferência de apresentação dos resultados, Antonoaldo Neves, reiterou que “não há possibilidade” da companhia aérea ir para o Montijo e que o novo aeroporto “não é para a TAP”.

“Não há possibilidade de a TAP ir para o Montijo, não existe essa possibilidade. O Montijo não é para a TAP”. Antonoaldo Neves explicou que a companhia que lidera opera aviões de longo curso, que não cabem no aeroporto do Montijo, “nem hoje, nem daqui a quatro anos”.

O responsável disse também que 57% dos passageiros da TAP fazem escala em Lisboa e que, por isso mesmo, a opção do Montijo não facilita o processo de conexão entre voos. “A TAP não vai para o Montijo, essa decisão está tomada”, garantiu, salientando, no entanto, que considera “importantíssimo” a construção daquela infraestrutura.

“Tem que fazer o Montijo, ponto final. Mas a TAP não tem nada a dizer sobre isso. O que a TAP tem a dizer sobre o sistema aeroportuário em Portugal é só sobre a Portela”, acrescentou o presidente executivo da companhia aérea.

Corrigida referência a terceiro ano com perdas, foi o segundo ano consecutivo com prejuízos.