Todos os anos, o Museu van Gogh recebe cerca de duas mil visitantes. O número é, no entanto, inferior ao dos interessados pelo trabalho do artista holandês, que permanece, 130 anos após a sua morte, um dos mais populares e influentes do mundo. Prova deste interesse são também os pedidos de empréstimos que o museu recebe constantemente e que, na maioria dos casos, não podem ser correspondidos. São cada vez menos as obras autorizadas a sair do edifício em Amesterdão, como é o caso dos famosos girassóis.

A coleção do Museu van Gogh, constituída pela maioria das pinturas e desenhos que ficaram com Theo, irmão de Vincent, “é pequena e vulnerável” e só em raras ocasiões pode ser cedida. Por essa razão, os responsáveis do organismo decidiram que era importante encontrar “outras formas de responder à procura de quem quer conhecer van Gogh e o seu trabalho”, como explicou ao Observador o diretor-geral, Adriaan Dönszelmann. Foi assim que nasceu “Meet Vincent van Gogh”, a única experiência oficial sobre a vida e obra do artista holandês, apresentada esta quinta-feira em Lisboa, onde estará patente até final de maio.

Interativa e multissensorial, a experiência, instalada dentro de uma tenda no Terreiro das Missas, em Belém, dá a conhecer Vincent van Gogh de maneira diferente e apresenta-se como uma alternativa ao museu em Amesterdão criada e pensada por curadores e especialistas que nele trabalham. Adriaan Dönszelmann, que viajou até Lisboa para a apresentação de “Meet Vincent van Gogh”, juntamente com o sobrinho-bisneto do pintor, Willem van Gogh, acredita os elementos interativos podem também ser úteis dentro do espaço museológico e não apenas numa experiência como a que foi montada em Belém: “Acho que incluir mais elementos interativos no espaço dos museus, ajuda as pessoas a aprenderem mais do que aprenderiam se olhassem apenas para os quadros”, considerou, durante a conversa com o Observador.

Vestido a rigor, com uma gravada azul decorada com um dos quadros mais conhecidos de van Gogh, Amendoeira em Flor, o diretor-geral do museu de Amesterdão admitiu que essa não é contudo a sua pintura favorita do holandês, mas A Colheita” Sobre a popularidade de van Gogh, disse não conseguir explicar totalmente porque é que ela existe, já que isso “é uma coisa emocional”. No entanto, existem na história da sua vida certos aspetos, como ter de “tomar decisões difíceis” ou “seguir em frente se as coisas correrem mal”, com os quais as pessoas facilmente se identificam. “Sobretudo para os jovens, estas são questões elementares para as quais têm de encontrar respostas”, afirmou. “Acreditamos que esta é uma razão muito importante pela qual muitas pessoas, no mundo inteiro, se interessam por van Gogh.”

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Porque é que o Museu van Gogh decidiu criar uma experiência dedicada à vida e obra de Vincent van Gogh?
Recebemos muitos visitantes no museu em Amesterdão, mais de dois milhões por ano — é mais ou menos aquilo que conseguimos receber —, mas a procura por van Gogh é muito maior do que isso. Além de não podermos ter toda a gente em Amesterdão, porque nem toda a gente se pode deslocar até lá, a coleção é muito pequena e vulnerável, não podemos enviá-la para todo o lado. Isso encorajou-nos a pensar noutras formas de responder à procura de quem quer conhecer van Gogh e o seu trabalho.

Recebem muitos pedidos de empréstimos?
Muitos! Obviamente que trabalhamos com outros museus, fazemos exposições em conjunto, às vezes emprestámos quadros, mas existem cada vez mais quadros em relação aos quais temos de decidir que não podem viajar mais. Por exemplo, os Girassóis, nunca mais vão viajar. Antes já viajavam de forma muito limitada porque, se não estiverem lá, os visitantes ficam dececionados. Mas são muito vulneráveis. Tivemos de tomar a decisão de que nunca mais voltarão a sair do museu.

Antes de vir para Lisboa, esta experiência esteve noutras cidades.
Está neste momento em Londres, ao mesmo tempo que em Lisboa. No ano passado, esteve em Barcelona e em Seoul, na Coreia do Sul.

Como é que foi recebida pelos visitantes nessas cidades? A receção foi positiva?
Muito positiva. Concluímos que as pessoas têm uma experiência semelhante à que têm quando vão ao museu e vêm as peças originais. Ficam emocionadas, gostam mesmo. Foi especialmente bem sucedida em Barcelona, tivemos 160 mil visitantes em quatro meses.

Adriaan Dönszelmann (à esquerda) e Willem van Gogh (à direita), sobrinho-bisneto do pintor holandês, estiveram em Lisboa para a apresentação da experiência “Meet Vincent van Gogh”

Esta é uma experiência interativa. Já tentaram incorporar alguns destes elementos no museu em Amesterdão?
É mais ao contrário, na verdade. É possível encontrar aqui alguns elementos interativos que já usamos no museu, como por exemplo, os grandes ecrãs táteis que podemos usar para aprender mais sobre os quadros, para vermos o que veríamos se usássemos raio-x. Alguns quadros de van Gogh foram pintados por cima de outros e, se usarmos raio-x, conseguimos ver o que está por baixo. Isso é algo que podemos experienciar aqui, através dos ecrãs táteis que já são usados no museu. Mas talvez no futuro usemos algumas das coisas que aqui estão em Amesterdão.

O futuro dos museus não passará um bocadinho por aqui? Por usar mais elementos interativos para aproximar mais as pessoas das obras de arte?
Sim. Vamos continuar com esta experiência, claro, mas acho que incluir mais elementos interativos no espaço dos museus, ajuda as pessoas a aprenderem mais do que aprenderiam se olhassem apenas para os quadros.

A exposição que está agora patente no Museu van Gogh chama-se In the Picture. É dedicada ao autorretrato.
Exatamente.

Os autorretratos de van Gogh são muito conhecidos. De que forma é que abordaram o tema?
Os autorretratos desempenharam um papel especial.

A imagem que temos dele é profundamente influenciada pelos seus autorretratos.
Sim. Isso deve-se ao facto de só existir uma fotografia de van Gogh. Os retratos dizem-nos como ele era. Para ele, eram uma forma de praticar. Ele não tinha dinheiro para pagar um modelo, então decidiu olhar para o espelho e pintar-se a si próprio. A exposição que temos atualmente em Amesterdão fala sobre como os artistas, ao longo do tempo, se pintaram a eles próprios e uns aos outros. Tirar selfies é uma coisa popular, então existe uma relação entre esta exposição e alguma coisa que é muito moderna.

Uma das salas da experiência é dedicada ao quarto de Vincent van Gogh em Arles. Esta inclui uma réplica da famosa obra de 1888. O cenário é composto por projeções

Será que a imagem que temos de van Gogh corresponde à realidade? Não sabemos exatamente como ele era — só existe uma fotografia, tirada quando ele era muito novo –, mas achamos que sabemos.
Acho que ficamos a saber muito mais sobre ele e sobre como ele era através das suas cartas. Ele escreveu mais de 800 cartas ao seu irmão [Theo], e o irmão respondeu-lhe de volta. Nas cartas, descreveu o que estava a fazer, como se sentia, como era influenciado por outras pessoas, como era afetado pela crítica. Essas cartas permitem-nos, por isso, aprender muito mais sobre ele.

Na sua opinião, porque é que van Gogh continua a ser um artista tão popular?
Muitas pessoas gostam dos seus trabalhos e isso é algo que não se pode propriamente explicar, é uma coisa emocional. Por outro lado, a história da sua vida contém uma série de coisas genéricas que têm a ver com tomar decisões difíceis, seguir em frente se as coisas correrem mal. Sobretudo para os jovens, estas são questões elementares para as quais têm de encontrar respostas. Acreditamos que esta é uma razão muito importante pela qual muitas pessoas, no mundo inteiro, se interessam por van Gogh.

É uma história muito inspiradora, mas também muito trágica. A experiência começa precisamente pela sua morte.
É inevitável. Mas gostava de enfatizar a coisa positiva — alguém que pintou apenas durante dez anos e que, ao mesmo tempo, foi capaz de produzir um grande volume de peças de arte, é ainda tão influente hoje e sê-lo-á no futuro. Isso é extremamente positivo, e é isso que queremos fazer transparecer através desta experiência.

“Meet Vincent van Gogh”, a única experiência oficial dedicada ao artista holandês, pode ser visitada a partir desta sexta-feira até 31 de maio no Terreiro das Missas, em Belém (junto à Estação Fluvial). Mais informações aqui