A Bolsa de Lisboa esteve entre as mais castigadas pela fúria vendedora que varreu os mercados financeiros esta segunda-feira. O índice das 18 principais empresas, o PSI 20, caiu 8,66%, a pior performance diária desde 2008 e que corresponde ao desaparecimento de mais de cinco mil milhões de euros no valor das ações. A Galp uma das empresas mais valiosas teve o maior tombo de sempre, mais de 16%, arrastada pela hecatombe nas cotações do petróleo.

Londres, Paris, Frankfurt e Madrid desvalorizaram mais de 8% e Milão no epicentro do coronavírus perdeu quase 11%. Do outro lado do Atlântico, dispararam os “disjuntores” que existem nos mercados bolsistas – neste caso, na bolsa norte-americana – e que servem para evitar colapsos (ainda) maiores nos mercados acionistas. Num dos piores arranques de sempre, com o índice S&P 500 a perder 7%, a bolsa de Nova Iorque parou de negociar durante 15 minutos. Este mecanismo para travar ondas de pânico no mercado acionista foi criado após a segunda-feira negra de 1987 e não era usado desde dezembro de 2008, no auge da crise financeira.

O Dow Jones industrial, outro dos principais índices da bolsa americana, afundou mais de dois mil pontos antes da ordem para congelar as transações. Depois de retoma das negociações, o Dow fechou a cair 7,79%, a maior queda em pontos, e o S&P, que reúne as 500 maiores empresas, perdeu 7,6%.

Com o alastrar da crise do novo coronavírus e com a “guerra” que emergiu entre a Arábia Saudita e a Rússia (que também tem, na sua base, a resposta que a OPEP e a Rússia querem dar à quebra da procura petrolífera devido ao vírus), as bolsas mundiais abriram a semana em forte queda, com o índice pan-europeu Stoxx 50 mais de 7%, aproximando-se rapidamente dos valores mais baixos fixados em 2019. Ou seja, dissipando quase toda a recuperação que se registou à medida que se atenuaram os receios de uma “guerra comercial” entre os principais blocos económicos, designadamente os EUA e a China.

Evolução do índice PSI-20, em Lisboa, nos últimos 12 meses. Fonte: Google Finance

Já nos mercados asiáticos várias bolsas tinham entrado em território de correção negativa – o chamado bear market –, que se define como uma quebra súbita de pelo menos 20% face ao valor máximo recente. “A guerra saudita no mercado do petróleo surgiu numa altura de grande fragilidade nos mercados”, comentou à Bloomberg um analista da AMP Capital Investors, em Sydney, Nader Naeimi. Ao início da tarde, o petróleo seguia a cair quase 19% em Londres e mais de 17% em Nova Iorqie.

Numa nota de análise divulgada esta segunda-feira, os analistas do holandês Rabobank diziam que esta era uma “manhã dramática” nas bolsas, salientando como fator crucial o confronto entre a OPEP (liderada informalmente pela Arábia Saudita) e a Rússia. Esse é um conflito que veio desestabilizar um mercado energético que já se debatia com perspetivas de redução da procura relacionada com a baixa de atividade económica relacionada com o coronavírus.

Coronavírus abre “guerra” entre Arábia Saudita e Rússia. Preço do petróleo com maior descida desde a Guerra do Golfo

O Rabobank salienta, também, o impacto psicológico que teve a notícia do isolamento de vastas zonas geográficas em Itália, o país europeu que está a ser mais penalizado pela propagação do vírus. O receio dos investidores é que este “cocktail” de más notícias leve a uma recessão económica induzida pela epidemia, uma recessão que poderá ter impactos duradouros sobre as maiores economias mundiais.

Bolsas podem cair 20% ou 30% antes de recuperarem

O economista Mohamed El-Erian, um dos economistas e especialistas em mercados financeiros mais reputados (anteriormente co-presidente da Pimco e, agora, conselheiro da Allianz), avisa que “vêm aí tempos traiçoeiros nos mercados bolsistas” – há um risco, diz, que a bolsa norte-americana pode cair 20% ou 30% (em relação aos máximos tocados no mês passado) antes de se atingir os valores mais baixos.

O conselho dado por El-Erian é que os investidores comuns se mantenham “à margem, sem pânico”. E não será sensato tentar aproveitar (já) as quedas que já se verificaram, tentando comprar ações na perspetiva de lucrar com uma eventual recuperação. “Haverá oportunidades, mas não para já”, avisa Mohamed El-Erian, em entrevista à CNBC.

Uma das primeiras consequências desta crise, para a zona euro, será o lançamento de novas medidas de estímulo monetário por parte do Banco Central Europeu, na reunião da próxima quinta-feira. Isso é o que o mercado está a antecipar, já, com os contratos swap de taxas de juro na zona euro em terreno negativo em todos os prazos até 30 anos.