Era o tempo das viagens a vapor, por terra ou por mar, mas nem por isso a doença deixou de alastrar-se por todo o mundo. Tudo depois de feitos os primeiros milhões de vítimas mortais nas trincheiras da Primeira Grande Guerra, prestes a chegar ao fim.

Muitos dos que não morreram nos campos militares levaram o vírus no regresso a casa, só demorou um pouco mais de tempo: no total, entre 1918 e 1920, terão morrido entre 50 e 100 milhões de pessoas em resultado da pandemia que ficaria conhecida como Gripe Espanhola (por ter sido esse o primeiro país a noticiar oficialmente o surto) ou Pneumónica (por, como acontece agora, 102 anos depois, a pneumonia ser uma das consequências mais graves).

O número de mortos, incerto, ou não fossem na altura inexistentes a maior parte dos sistemas nacionais de saúde e imprecisos os métodos de contagem de cadáveres, é geralmente atribuído ao mundo inteiro. Mas a verdade é que, recordou a imprensa internacional há dois anos, aquando do aniversário redondo da pandemia — que só ombreia com a Peste Negra no pódio das mais letais de que há memória — a Gripe Espanhola não chegou mesmo, mesmo a todo o mundo.

Ou melhor, até chegou, mas algumas comunidades conseguiram resistir com firmeza ao vírus invasor, que, ao contrário do que agora acontece com o novo coronavírus, atacava com maior gravidade a população jovem e saudável em vez de a mais idosa ou debilitada.

As medidas que tomaram na altura poderão ser úteis agora que o mundo está a ser ameaçado pelo SARS-Cov-2. Quando mais não seja para dar um sinal de esperança às populações fechadas em casa em isolamento social profilático ou de quarentena: há 102 anos a estratégia resultou.

O remoto Alasca, por exemplo, foi um dos territórios onde a Pneumónica mais matou — chegou tarde, no final da primavera de 1919, mas quando finalmente chegou vitimou mais centenas pessoas em escassos dias, deixando taxas de mortalidade de 90% em algumas comunidades e dezenas de crianças órfãs, recordou em 2018 a BBC. Quando três delas conseguiram meter-se num barco e chegar ao hospital mais próximo — propriedade do dono de uma das fábricas de conservas de salmão da região —, foi enviada uma expedição para socorrer os doentes e avaliar a situação das aldeias da área, junto à Baía de Bristol.

Por entre relatos de enterros em valas comuns e de cadáveres mastigados por cães, destacou-se o caso de Egegak. Era uma aldeia como tantas outras mas com uma diferença: estava ainda mais isolada, a vários quilómetros de distância das comunidades mais próximas. O que fez com escapasse incólume ao vírus e à gripe. Por muito que não tenham precisado sequer de tomar medidas, como fizeram os nativos de outras aldeias da região, que policiaram acessos e mantiveram estrangeiros à distância, os habitantes de Egegak mantiveram-se isolados da restante população — e sobreviveram.

Vários casos idênticos, de sete outras comunidades nos Estados Unidos que escaparam ilesas à Gripe Espanhola, foram alvo de investigação por parte do Departamento de Defesa em 2006. Entre elas estavam uma aldeia rural no norte do Vermont, uma cidade no meio das Rocky Mountains, um sanatório no estado de Nova Iorque, uma instituição para cegos em Pittsburgh e duas universidades, a de Princeton, em New Jersey, e a Bryn Mawr College, na Pennsylvania.

“Estas comunidades basicamente fecharam-se”, explicou Howard Markel, historiador epidemiológico da Universidade de Michigan e um dos autores do estudo à BBC. “Ninguém entrou e ninguém saiu. As escolas estavam fechadas e não houve reuniões públicas. Cunhámos a expressão ‘sequestro protetor’, em que um grupo de pessoas saudável se escuda do risco de infeção por parte de terceiros.”

A população de Gunnison, a cidade nas Rocky Mountains, por exemplo, ergueu barricadas e montou guarda às principais estradas de acesso; e aos que chegavam de comboio, impôs dois dias de quarentena obrigatória. Apesar de bem sucedidas, dizia há dois anos o historiador, as medidas seriam ainda assim pouco praticáveis nos tempos que correm: “A ideia de que se pode fechar uma cidade moderna ou mesmo uma universidade não é muito provável atualmente. Seria extremamente caro e perturbador”.

Contas à parte, a verdade é que outra das lições a retirar da Pneumónica, que vitimou tantos milhões de pessoas, é que sem uma ação concertada não é possível conter o surto — nem salvar vidas. E, aí, o novo coronavírus está claramente em desvantagem: em 1918 o conceito de saúde pública não só não existia em grande parte do mundo como, onde já havia algumas noções, quase todas as atenções (e dinheiro) estavam centradas no esforço de guerra.

O caso de Madrid, recuperado agora pelo ABC, é exemplar e resultou, justamente na capital do país que deu nome à pandemia. A 14 de outubro de 1918, enquanto no resto do território o povo espanhol agonizava — “Há famílias inteiras doentes sem assistência, metade da população está infetada, predominando as pneumonias e a febre tifóide, e há muitas mortes, incluindo de bebés pequenos à fome, por não terem quem os amamente“, escreveu na altura o jornal sobre uma vila a sul de Saragoça —, o alcaide de Madrid tomou medidas.

“Embora a epidemia que prevalece em Espanha ainda não se tenha propagado a Madrid e o estado de saúde continue a ser geralmente satisfatório, esta Câmara Municipal considerou oportuno tornar públicas, para tranquilidade da população, as medidas preventivas já postas em prática, de forma a não causar alarme, e outras adotadas agora, que fazem parte do plano de prevenção completo contra a epidemia”, explicou o autarca Luis Silvela y Casado, em editais espalhados pela cidade.

Ao todo, foram oito as medidas que anunciou:

  • desinfeção de passageiros, bagagem, mercadorias e carruagens ferroviárias;
  • desinfeção de correspondência;
  • isolamento dos doentes infetados;
  • desinfeção periódica de teatros, cafés, igrejas, escolas e outros locais fechados; desinfeção dos carros elétricos a cada paragem;
  • lavagem de ruas, passeios e esgotos com hipoclorito de cálcio misturado com água;
  • instalação de dispositivos de desinfeção nos edifícios do Congresso e do Senado;
  • e proibição de remexer o lixo, que devia passar a ser recolhido às primeiras horas de cada manhã para depois ser imediatamente incinerado.
  • Na mesma altura foram ainda suspensas as aulas nas escolas municipais e disponibilizadas as salas para acolher doentes, se necessário.

No final, só em Espanha morreram 260 mil pessoas, o equivalente a 1,5% da população do país; e a capital, dado o elevado número de habitantes, até terá sido uma das cidades mais afetadas. O rei Afonso XIII, então com 32 anos, foi um dos que se debateu com a infeção, mas acabou por sobreviver.

Nunca saberemos o que teria acontecido se Luis Silvela y Casado não tivesse implementado quaisquer medidas.