Os diretores do Diário de Notícias apresentaram a demissão à administração da Global Media, detentora do jornal, que aceitou o pedido. Em causa, apurou o Observador, estão não só os planos da administração para reestruturar o grupo, como o de acionar o lay-off nos vários títulos, onde o Diário de Notícias estará entre os mais afetados.

Isso mesmo pode ler-se no email distribuído à redação pelo diretor demissionário, e a que o Observador teve acesso: “Fomos informados pela Administração que a crise do covid-19 vai levar o grupo GMG a medidas em que a redação do DN está entre as mais atingidas – decidiu a Administração. Lamentamos. Por isso, a partir de hoje, Ferreira Fernandes e Catarina Carvalho não podem continuar na direção do DN”.

É com esta frase que o até agora diretor termina um email onde garante “lealdade” da equipa que está de saída da direção (mas continuará a trabalhar no jornal) a Leonídio Paulo Ferreira, até agora subdiretor, que assume as funções de diretor interino: “O Leonídio Paulo Ferreira que passará a dirigir o jornal sabe que terá de nós dois a mesma lealdade que tivemos sempre dele. Mande-nos muito, faremos mais”.

Esta é, assim, a segunda empresa do grupo que fica com uma direção interina, já que o mesmo acontece na TSF desde novembro de 2019 quando Arsénio Reis deixou a direção editoral da rádio. A partir dessa altura, a direção da TSF passou a ser assegurada interinamente pela restante equipa, Pedro Pinheiro, Ricardo Alexandre e Anselmo Crespo.

Através de um comunicado, o Conselho de Administração do Global Media Group, confirma que “aceitou o pedido de demissão dos jornalistas Ferreira Fernandes e Catarina Carvalho, de diretor e diretora executiva do Diário de Notícias”, dá conta da nomeação do diretor interino a quem deposita confiança “para dar continuidade a uma informação plural, de rigor e isenção como é timbre deste jornal centenário“.

No comunicado, é ainda feito um “profundo agradecimento” aos dois diretores demissionários “pelo enorme esforço que têm dado à empresa e ao DN, e pelo profissionalismo na liderança deste projeto editorial, que exerceram nos últimos dois anos, num contexto especialmente difícil para a generalidade da Imprensa em Portugal”. E é garantido que os dois jornalistas “manter-se-ão no Global Media Group, ligados ao Diário de Notícias, uma marca comprometida há mais de 155 anos com a informação de qualidade e que sempre soube antecipar as grandes mudanças da História”.

No email enviado à redação, onde dá conta da sua saída de diretor, Ferreira Fernandes recorda que recebeu o convite para a direção juntamente com  Catarina Carvalho, numa altura em “o jornal e o seu grupo estavam em crise, tal como o conjunto das empresas de jornais“. O até agora diretor diz ainda que “Aceitámos sem exigir qualquer aumento salarial ou regalia, aceitámos ficar com os membros da anterior direção e aceitámos o que já havia sido decidido pela Administração: passar o DN a jornal digital com uma edição semanal em papel. Antes dos prazos propostos, uma redação que tinha meia dúzia jornalistas no online passou toda ela, num mês, a integrar a produção digital”.

Falando em nome dos dois diretores demissionários, Ferreira Fernandes diz que “o que nos levou aceitar a direção foi a comum admiração pelo DN: pelo que ele fora de fundador do jornalismo moderno em Portugal, pelo que ele era memória da história nacional e pela marca que deixara na sua Lisboa”.

São também revelados alguns dos planos da direção demissionária que, segundo Ferreira Fernandes, chocavam com os planos da administração: “Desde há um ano, a direção defendeu para o DN uma organização mais ágil, mais pequena, mais nova e mais barata – a exemplo das soluções que por todo o mundo se discutiam e já se praticam. A direção propôs que se pensassem alternativas, inclusive de rutura, como transformar o DN em fundação, embora ligado à empresa, dedicado à cidade e trabalhando como jornal-escola, com universidades, das quais a direção já tinha ouvido interesse e entusiasmo”. Mas, lê-se no email interno: “A Administração argumentando com as dificuldades financeiras, apresentava como solução uma reestruturação, que na prática significava cortes na redação. A direção do DN admitia evidentemente as dificuldades financeiras mas não aceitava cortes na redação sem estarem integrados num plano do que fazer com o DN. Para nós, o critério, mais uma vez e sempre era: tudo pelo DN, até sacrifícios, logo que a razão do nosso trabalho, o DN, fosse resguardado. Se não, não”.

A Global Media Group, para além do DN e da TSF, é dona do Jornal de Notícias, do desportivo O Jogo e das revistas Evasões e Men’s Health, entre outros títulos. De acordo com informação divulgada pela ERC, registou em 2018, prejuízos de 9,1 milhões de euros, um agravamento face aos 4,5 milhões de euros registados em 2017.

Ferreira Fernandes substituiu Paulo Baldaia na direção do jornal em março de 2018 e uma das principais medidas que tomou foi a da passagem do jornal a digital com uma edição semanal em papel (primeiro ao domingo, agora ao sábado), cujas vendas nunca atingiram o esperado. Ferreira Fernandes começou a apontar para 25 mil exemplares — “o objectivo do DN é, até ao final do ano, passar a vender ao domingo 25 mil exemplares e, no online, passar dos actuais 29 milhões de pageviews para 50 e dos actuais 4 milhões de visitas para 15 milhões”, disse, aquando das mudanças, há dois anos. Mas os últimos números estavam pouco acima dos 3 mil.