Com as portas dos seus estabelecimentos abertas para uma cidade “deserta”, empresários da restauração do Porto anseiam pelo alargamento do horário de funcionamento e pela abertura das fronteiras, ainda que para alguns este já seja “um ano perdido”.

Jorge Ribeiro gere O Caçula desde outubro de 2005, ano em que decidiu “dar uma nova vida” ao restaurante dos pais e mudá-lo da Travessa do Bom Jardim para a Praça Carlos Alberto, e quando a baixa do Porto “estava ainda a querer ganhar fôlego”. Agora, volvidos 15 anos, as ruas “desertas” de gente fazem-no recordar esses tempos, onde “nada se passava” e apenas pequenos “focos” na cidade a faziam ter algum movimento.

Além de O Caçula, Jorge Ribeiro gere também o Mangá, estabelecimento vizinho da casa mãe, e a cervejaria Fábrica da Picaria, localizada, precisamente, na Rua da Picaria. Desde que reabriu portas, no dia 18 de maio, que a afluência aos três estabelecimentos tem sido “bastante diferente”. Se outrora O Caçula era o restaurante que “recebia mais gente”, neste momento, o Mangá e a Fábrica da Picaria são os que têm maior procura.

A afluência aos três espaços, cuja lotação foi reduzida para 50% e de onde foram retiradas peças de mobiliário para assegurar o distanciamento social necessário, tem sido “notória” entre a comunidade brasileira residente no Porto.

Para Jorge Ribeiro, isto mostra apenas que “os portugueses ainda estão muito confinados e muito devagarinho a retomar à normalidade”. “A procura tem-se refletido sobretudo ao fim de semana”, garantiu à Lusa o gerente, adiantando, contudo, que se o horário de funcionamento se mantiver por muito mais tempo até às 23:00 é “a morte anunciada para muitos estabelecimentos”.

Fechar às 23h é, sem dúvida, uma condicionante. Com essa medida, vai ser uma morte lenta para todos. Estamos a anunciar a morte lenta a todos os estabelecimentos, especialmente aqui no Porto, uma vez que sem um motivo que atraia as pessoas ao centro da cidade, as mesmas não vêm”, confessou.

Além do alargamento do horário de funcionamento, outro dos desejos dos empresários da restauração do Porto é a abertura das fronteiras e a chegada de estrangeiros, que ainda há poucos meses enchiam as ruas da cidade.

“Estamos todos à espera que as fronteiras terrestres abram, porque o mercado espanhol é dos mais importantes”, admitiu à Lusa Ricardo Graça Moura, sócio-gerente dos restaurantes Flow e Mistu.

Sem prejuízo para a saúde pública e condições sanitárias, Ricardo Graça Moura acredita que do ponto de vista do negócio “puro e duro” era fundamental que as mesmas abrissem no dia 15 de junho. “Para nós faz muita diferença”, confessou, adiantando que também nos dois restaurantes a afluência é significativamente diferente.

Se, por um lado, o Flow com capacidade para 75 pessoas, está a “crescer razoavelmente”, tendo durante o fim de semana conseguido “lotar a capacidade”, o Mistu, com 48 lugares, está a crescer “muito devagarinho”. “Para já, a procura só se faz notar ao fim de semana”, contou Graça Moura, que nos dois estabelecimentos criou circuitos de desinfeção e colocou marcas para ditar o distanciamento social.

No interior, clientes e funcionários são obrigados a circular de máscara, as mercadorias e os estafetas ficam à porta e uma “série de medidas de contingências”, recomendadas pela Direção-Geral da Saúde, estão a ser escrupulosamente seguidas.

Sem turistas, sem pessoas a movimentarem-se pela cidade e com um fator acrescido – o “medo” -, Rui Pereira, sócio-gerente do Café Santiago, acredita que este ano as contas vão ser “equações com muitas incógnitas”.

Rui Pereira já deu o ano, em termos financeiros, como “perdido” e confia agora que demorará, pelo menos, “três anos” a recuperar aquilo que até março conquistou.

Os nossos objetivos para este ano deixaram de ser o de ganhar alguma coisa, para tentar perder pouco. Mudámos completamente a nossa visão. Damos o ano como perdido em termos financeiros, mas vamos manter a força de trabalho na expectativa de, sendo necessário, termos resposta para dar”, adiantou.

Ainda que com poucas expectativas, os três empresários da restauração do Porto, à semelhança de tantos outros, vão continuar a lutar por aquilo que em meados do mês de março perderam: clientes.

Portugal contabiliza pelo menos 1.455 mortos associados à Covid-19 em 33.592 casos confirmados de infeção, segundo o último boletim diário da Direção-Geral da Saúde (DGS) divulgado esta quinta-feira.

Portugal entrou no dia 03 de maio em situação de calamidade devido à pandemia, que sexta-feira foi prolongado até 14 de junho, depois de três períodos consecutivos em estado de emergência desde 19 de março.