“Havia duas situações que eram fundamentais. Uma era os espaços reduzidos, e eu tinha pedido isso aos jogadores. Outra era a segunda bola. Sempre que os nossos jogadores apareciam, os ingleses são exímios a recupera a segunda bola. E isso era um fator determinante para a nossa posse de bola. Para dar seguimento a estas duas situações, havia que controlar o jogo. E se nós controlássemos a bola, com certeza que iríamos controlar o jogo”. Humberto Coelho

Foi há exatos 20 anos, no dia 12 de junho de 2000, que Portugal enfrentou Inglaterra no primeiro jogo no Euro 2000, em Eindhoven, na Holanda. Era a chamada geração de ouro: Figo, Costa, Pinto, Pauleta, Sousa, Conceição e todos os outros. Depois de falhar o apuramento para o Mundial 98, a Seleção Nacional voltava a um grande torneio internacional com a sensação de que tinha equipa para chegar longe. E Humberto Coelho, o selecionador que é também autor da frase destacada acima, era o maestro de um conjunto de jovens jogadores que tinha o sonho de fazer o que nunca nenhuma equipa portuguesa havia feito.

A estreia no Europeu começou por ser atribulada — ainda antes do apito inicial. Paulo Sousa estava lesionado, Pauleta tinha de cumprir castigo por ter sido expulso no último jogo da qualificação, contra a Hungria, e Sá Pinto ficou de fora do confronto com a Inglaterra graças a uma entorse no joelho. Contas feitas, saltava Nuno Gomes para o onze, então avançado do Benfica, cujas exibições no Euro acabaram por lhe garantir a ida para Itália e para a Fiorentina. E no relvado, depois do início da partida, a ideia de que a campanha portuguesa no Europeu da Bélgica e da Holanda estava amaldiçoada tornou-se ainda mais explícita.

A Inglaterra, que dois anos antes tinha caído nos oitavos de final do Mundial 98, era orientada por Kevin Keegan e contava com a geração de Beckham, Scholes, Owen e os irmãos Neville e ainda a experiência do capitão Alan Shearer. Logo aos três minutos, no Philips Stadion, Scholes apareceu sozinho na grande área e respondeu com um cabeceamento forte a um bom cruzamento de Beckham a partir da direita. Portugal respondeu através de João Pinto, que cabeceou por cima, e Rui Costa, que rematou de longe para uma boa defesa de David Seaman, mas não evitou sofrer o segundo golo ainda antes de estarem cumpridos os primeiros 20 minutos. Outra vez Beckham na direita, cruzamento para a área, McManaman aparece nas costas de Abel Xavier e remata sem oposição para bater Vítor Baía.

“Enquanto que os nossos avançados chegavam à baliza da Inglaterra, a nossa defesa ficava muito atrás. E isso criou-nos inúmeras dificuldades, com os passes em profundidade, especialmente do Beckham, que meteu muitas vezes a bola na frente. Era difícil recuperar e era difícil para os nossos defesas, no ‘um contra um’, onde eles são muito rápidos. Pensei: ‘Ou vamos levar uma cabazada ou ainda vamos recuperar, marcando um golo'”. Humberto Coelho

Humberto Coelho, numa entrevista à RTP, garantiu que se esforçou para pensar apenas na segunda opção. Quatro minutos depois de Inglaterra aumentar a vantagem, Luís Figo pegou na bola na zona do meio-campo, sem grande oposição, correu em drible e atirou em força em posição frontal para a baliza. O remate entrou entre o poste e a trave, onde se costuma dizer que as corujas dormem, e David Seaman ficou pregado no chão. O festejo dos jogadores portugueses, tanto de Figo como de Nuno Gomes, foi correr para a baliza adversária e resgatar a bola para a colocar de imediato no meio-campo. Afinal, ainda eram necessários mais dois golos para chegar à vitória.

Ainda antes do intervalo, na ala direita, Rui Costa triangulou com Abel Xavier e Paulo Bento antes de cruzar para a grande área. Nessa altura, o metro e setenta e um de João Vieira Pinto arranjou maneira de se agigantar face ao metro e oitenta e oito de Sol Campbell: de forma corajosa, o avançado que depois do Europeu trocaria o Benfica pelo Sporting lançou-se numa espécie de salto de peixe para pentear a bola para o poste mais distante. No final da primeira parte, depois de ter estado a perder por dois golos de vantagem, Portugal já tinha empatado e tinha agora 45 minutos para começar da melhor maneira o Campeonato da Europa do ano de 2000.

“O Nuno Gomes é um jogador muito rápido, tem uma capacidade técnica muito grande. E ainda não tinha aparecido porque estava em recuperação física. Contra a Inglaterra, fez diagonais, criou espaços, abriu espaços, movimentou-se para criar espaço para os outros jogadores poderem entrar, como o Figo e o Rui Costa”.

Logo no início da segunda parte, Kevin Keegan tirou Michael Owen e lançou Emile Heskey na partida. Humberto Coelho manteve os onze que tinham começado de início, incluindo Nuno Gomes, titular graças ao castigo de Pauleta e à lesão de Sá Pinto. E acabou por ser o jovem avançado, então com apenas 23 anos, a marcar o golo que deu a vitória à Seleção Nacional ainda antes da hora de jogo.

Rui Costa rasgou a defesa com um passe da direita para a defesa, Nuno Gomes dominou na passada e disparou certeiro à saída de David Seaman, já pressionado por Tony Adams, para se estrear a marcar pela Seleção Nacional. Em sprint, com o braço esticado e o dedo em riste, correu rumo ao banco de suplentes para abraçar um colega específico: Ricardo Sá Pinto. E em 2016, em entrevista ao Observador, o antigo avançado do Sporting lembrou precisamente esse momento. “Tínhamos, e temos, uma amizade boa. O grupo era forte, dávamo-nos muito bem, independentemente do clube em que jogávamos, e vivíamos o sucesso da Seleção de forma coletiva. Não importava quem marcasse ou jogasse, queríamos era que corresse tudo muito bem. O Nuno teve um gesto extraordinário comigo, também o apoiei imenso na altura em que ele entrou para o campo. Acreditava que ele podia ajudar a Seleção e ajudou, fez um grande Europeu”, revelou Sá Pinto.

“Olhei para a baliza e não sabia onde havia de meter a bola”

Já Nuno Gomes, que nesse dia há precisamente 20 anos marcou o golo decisivo contra a seleção inglesa, garante que a vitória no primeiro encontro do Euro 2000 foi “um jogo histórico”. “Pela história do jogo, pela emoção que houve nos 90 minutos, pela Seleção em si — era composta por jogadores fortíssimos e que deram muito ao futebol português –, acho que foi, talvez, o melhor jogo em que participei em termos de Seleção Nacional”, disse o antigo avançado, esta semana, em entrevista à Agência Lusa.

Depois de Inglaterra, Portugal venceu a Roménia com um golo solitário de Costinha e depois a Alemanha, com o histórico hat-trick de Sérgio Conceição em Roterdão. Conquistado o primeiro lugar do Grupo A, a Seleção de Humberto Coelho seguiu para os quartos de final, onde eliminou a Turquia com mais dois golos de Nuno Gomes sem resposta, e só caiu nas meias-finais, derrotada pela seleção francesa que acabaria por conquistar o Europeu. E Nuno Gomes, que terminou a competição com quatro golos marcados — menos um do que Milosevic e Kluivert, que ganharam juntos a Bota de Ouro –, tem a mesma ideia que praticamente todos os adeptos portugueses que viram aquela Seleção jogar. “Muitas vezes é-me relembrado esse jogo, pelas pessoas, e é daqueles jogos em que os jovens, ao verem na televisão passados uns anos, conseguem lembrar-se de onde estavam nesse dia à hora do jogo. Essa geração era composta por excelentes jogadores e merecia ter ganhado qualquer coisa”, defende o antigo avançado.

“Foi o jogo ideal para o começo de um Campeonato. Teve tudo. Teve um começo desastroso. Teve uma recuperação fantástica. E depois foi um jogo dinâmico, de movimentos, foi um jogo em que apresentamos um futebol alegre, em que os jogadores sentiram uma atração pela recuperação da bola e ao mesmo tempo pelo jogo da bola. E foi isso que criou o estado de espírito que nos levou a que a campanha,toda ela, se traduzisse nesse sentido”. Humberto Coelho