Se fizermos um flashback muito curto, até aos meses de março e abril, em que metade do mundo estava dentro de casa a consumir todos os conteúdos das redes sociais, todas as notícias, todas as atualizações, Cristiano Ronaldo foi um dos nomes mais repetidos nessas três categorias. O facto de o jogador português ter passado grande parte do isolamento na Madeira e não em Itália motivou ainda mais a curiosidade ligada ao capitão da Seleção Nacional. Uma curiosidade que Ronaldo alimentou: com as imagens dos treinos diários, com as fotografias dos filhos, com os vídeos dos cortes de cabelo e com a presença relâmpago na última noite do live de Bruno Nogueira no Instagram.

Ao longo desses meses, enquanto a data para o reinício do futebol em Itália ainda não era certa e mesmo depois de Cristiano Ronaldo se apresentar em Turim, houve uma dúvida que começou a passar pela cabeça dos adeptos, dos jornalistas e provavelmente de todas as pessoas ligadas ao futebol: como é o jogador português, aos 35 anos, se iria apresentar depois de mais de dois meses sem competir?. A resposta de Ronaldo, como sempre, não foi nada ambígua. 

Cristiano Ronaldo e Jorge Mendes equipam ala no Hospital Santo António no Porto

“Está ainda mais rápido do que quando o futebol foi interrompido, na partida entre a Juventus e o Inter Milão: o sprint de velocidade é melhor e, neste caso, trata-se do resultado do intenso trabalho desenvolvido pelo português nos últimos três meses”, escreveu o Tuttosport na semana em que Cristiano Ronaldo voltou aos treinos no centro da Juventus. Em resumo, o jogador português teve resultados melhores nos testes que fez entre o final de maio e o início de junho do que naqueles que fez ainda em março, antes da paragem. Ronaldo já garantiu que se sente “mais forte”, Chiellini lembrou que se trata de um “super-atleta” e Sarri garantiu que muito dos objetivos da Juventus até ao final da época “passam” pelo português. Esta sexta-feira, era o dia em que finalmente tudo isso culminava.

No Allianz Stadium, em Turim, a Juventus recebia o AC Milan, naquele que era o primeiro jogo de futebol em Itália depois de uma interrupção de quase três meses. As duas equipas defrontavam-se na segunda mão das meias-finais da Taça de Itália — uma segunda mão que ficou pendurada desde março, quando a pandemia se agravou em Itália, e que transportava da primeira mão um empate em Milão (1-1). Com o governo italiano a dar luz verde para o apito inicial às 21h locais (20h em Portugal) ainda durante a manhã desta sexta-feira, era certo que as novas regras decretadas pela Liga de Clubes do país já seriam implementadas: em caso de igualdade no resultado agregado ao fim de 90 minutos, a eliminatória seria imediatamente decidida com recurso às grandes penalidades, sem prolongamento. Mais do que isso, as três partidas que restam desta Taça de Itália, a outra meia-final entre Nápoles e Inter Milão (este sábado) e a final (17 de junho), serão todas disputadas antes do recomeço da Serie A, agendado para 27 de junho.

Sem surpresas, Cristiano Ronaldo era titular, ao lado de Dybala e Douglas Costa, já que Higuaín sofreu uma lesão muscular nos últimos dias e estava indisponível. Pjanic, Bentancur e Matuidi formavam o trio do meio-campo da Juventus, com Khedira e Cuadrado no banco, enquanto que Ante Rebic era a referência ofensiva destacada do AC Milan, com Rafael Leão enquanto suplente. Ibrahimovic e Theo Hernández, que se lesionaram no regresso aos treinos depois da paragem, eram as principais baixas da equipa de Stefano Pioli, que tinha o jovem Lucas Paquetá como destaque no setor intermédio.

Douglas Costa poderia ter inaugurado o marcador logo nos primeiros instantes, depois de um trabalho delicioso de Alex Sandro na ala esquerda, e não foi preciso esperar muito para perceber que a Juventus iria pegar nos desígnios da partida e tentar resolver a eliminatória o mais depressa possível. Depois de um quarto de hora em que a equipa de Maurizio Sarri foi notoriamente superior, o minuto 16 trouxe os dois momentos que acabariam por moldar o resto da partida. Conti cometeu grande penalidade, ao tocar a bola com o braço enquanto disputava um lance com Cristiano Ronaldo: na conversão, o jogador português atirou ao poste e falhou um penálti pela primeira vez desde janeiro de 2019 e apenas pela segunda vez ao serviço da Juventus. Logo de seguida, no sequência da jogada, Rebic teve uma entrada arrepiante e inexplicável sobre Danilo — na zona intermédia — e foi expulso de imediato pelo árbitro da partida.

Até ao intervalo, até porque o AC Milan estava a jogar com menos um elemento, a Juventus dominou por completo e jogou quase sempre nos últimos 30 metros dos rossoneri. Ainda assim, a equipa de Stefano Pioli conseguiu blindar a baliza de Donnarumma durante a primeira parte e arrancou o segundo tempo com a ideia de que, apesar de reduzida, ainda tinha uma chance de carimbar o apuramento para a final da Taça de Itália. Certo era que teria de, provavelmente nos primeiros minutos da segunda parte, renovar e refrescar a zona média da equipa, que tinha passado 45 minutos a correr atrás dos jogadores da Juventus. Rafael Leão, que continuava no banco, voltou do balneário à conversa com o treinador e parecia garantido que seria uma das opções até ao fim do jogo.

O AC Milan beneficiou da melhor oportunidade em todo o jogo nos primeiros instantes da segunda parte, com Çalhanoglu a atirar ao lado depois de um cruzamento de Bonaventura (48′), e a verdade é que apesar da inferioridade numérica parecia estar mais solto e mais esticado no relvado — ainda que sempre sob um maior controlo da Juventus, que continuava com as linhas muito adiantadas mas não encontrava espaços numa faixa central em verdadeiro overbooking. Leão entrou mesmo, logo aos cinco minutos depois do intervalo, e foi diretamente para a zona mais destacada do ataque da equipa de Milão: uma posição, ainda assim, algo ingrata, que obrigava o avançado ex-Sporting a passar muito tempo isolado e a recuar constantemente para se aproximar dos colegas.

A partir da hora de jogo, e face à incapacidade da Juventus em fazer golo, o AC Milan começou a acreditar que podia conseguir o quase milagre e passou a aproximar-se com mais frequência da baliza de Buffon — até porque a partida partiu ligeiramente, deixou de ter tantas amarras aos sistemas técnicos e táticos e as dificuldades físicas de alguns elementos das duas equipas começaram a tornar-se evidentes. Cristiano Ronaldo, destacado na zona central do ataque, procurava recuar alguns metros para ser solicitado e oferecer linhas de passe mas não estava a ser bem sucedido, acabando por não protagonizar nenhum lance de perigo durante o segundo tempo.

O central Kjær esteve perto de empatar a eliminatória, com um cabeceamento ao lado na sequência de um canto (79′), e Dybala teve logo em seguida a melhor ocasião da Juventus na segunda parte, ao atirar um remate em jeito para uma boa defesa de Donnarumma (80′). Até ao final, o resultado já não se alterou: a Juventus carimbou o passaporte para a final da Taça de Itália (a quinta em seis anos), graças ao golo marcado fora na primeira mão, e fica à espera de saber o que fazem Nápoles e Inter este sábado para saber quem vai defrontar na derradeira partida de dia 17. Cristiano Ronaldo falhou um penálti, esteve sempre algo apagado — como a restante equipa, que nem contra 10 conseguiu superiorizar-se o suficiente e acabou a gerir a vantagem na eliminatória — mas vai estar na decisão do único troféu interno italiano que ainda não tem no palmarés.