“O Wendel está convocado e vai trazer coisas boas à equipa, o que é normal pela qualidade que tem. Além disso, posso também confirmar que o Matheus vai ser novamente titular”. Se dúvidas ainda existissem sobre a aposta de Rúben Amorim no jovem médio, a conferência de imprensa ainda de antevisão ao jogo com o P. Ferreira dissipou-as por completo. Aliás, a única dúvida era se os brasileiros seriam compatíveis ou não na mesma equipa, algo que foi também abordado: “Como jogamos com uma linha de três centrais, podemos fazer várias duplas de médios centro mas neste momento depende mais deles do que de mim porque eu tenho uma ideia de jogo e eles durante a semana tentam mostrar-me se estão ou não aptos. A partir daí, depende do jogo”.

Max escreveu nas costas de Jovane “Eu sou grande” mas a equipa pensou pequeno (a crónica do Sporting-P. Ferreira)

Não foi propriamente a estreia mais sonhada, tendo em conta a ausência de público nas bancadas, mas Matheus Nunes não esquecerá a noite desta sexta-feira em que conseguiu fazer o primeiro jogo em Alvalade como aposta de início do conjunto principal. Logo ele que, em janeiro de 2019, chegava à equipa Sub-23 dos leões depois de meia época no Estoril entre a formação A e B. Na presente temporada, entre algumas chamadas aos treinos do conjunto principal e 30 partidas pelos Sub-23, fixou-se como opção de Rúben Amorim a partir de março tendo a pandemia pelo meio e ganhou um outro mediatismo na sequência de uma entrevista de Frederico Varandas.

Às vezes o barato sai caro e o que é caro, por vezes, torna-se barato. O Sporting pagou 500 mil euros por 50% do passe do Matheus Nunes e tem uma opção para comprar mais 40% por 500 mil. Pelo que já vi do Matheus nos treinos, não tenho dúvidas de que vai pagar o Rúben Amorim”, referiu ao canal 11.

“Se a pandemia tivesse sido há um ano, o Sporting colapsava financeiramente”. Varandas sobre o passado, o presente e o futuro do clube

As condições de negócio já foram entretanto alteradas, porque tinham previstas compras de 30% mais 10% e mais 10% e agora passaram para 40% por 500 mil euros até setembro e os restantes 10% em 2021 com a cedência de 20% dos direitos económicos do também médio Rafael Barbosa, mas é sobretudo na evolução do jovem médio que se centram as atenções depois de uma estreia em Guimarães em que ficou algumas vezes “entalado” entre o trio minhoto no meio-campo mas onde terminou os 66 minutos jogados com 95% de eficácia de passe. “Foi um sonho cumprido que tenho desde que me lembro como pessoa, que sempre trabalhei para realizar. Hoje estar aqui é uma honra, mas sei que é só o começo”, escreveu o jogador na sua página oficial no Instagram.

Amorim percebeu o mais simples: não é preciso um lifting quando se tem estas caras novas (a crónica do V. Guimarães-Sporting)

Nascido no Rio de Janeiro, Matheus Nunes chegou como iniciado a Portugal mas apenas alguns meses depois foi autorizado a assinar pelo Ericeirense, clube da terra para onde se tinha mudado com a mãe. Faltava um papel, ou uma assinatura do pai, para que a transferência fosse aceite pela FIFA, algo que acabaria por acontecer após uma viagem ao Brasil. Fez toda a formação no clube, subindo à equipa principal nos Distritais de Lisboa quando tinha apenas 17 anos, e foi entre o último ano de júnior e o primeiro de sénior que teve as suas primeiras grandes oportunidades. Quatro, na verdade – e todas elas foram recusadas após uma a duas semanas de treinos à experiência entre o estrangeiro (Leicester, em Inglaterra, e Lille, em França) e Portugal (Sp. Braga e Benfica).

Em 2018, ano em que podia ter ido para o Oriental mas em que se manteve no Ericeirense, festejou com a equipa o triunfo na Divisão de Honra da Associação de Futebol de Lisboa e mudou-se para o Estoril, por influência de uma nova equipa técnica liderada por Luís Freire (agora treinador do Nacional, que subiu à Primeira Liga), como contou o Mais Futebol. Seis meses depois, estava em Alcochete a trabalhar com Alexandre Santos, seguindo-se mais uma temporada, a presente, em que cumpriu 30 dos 35 encontros dos Sub-23 quase sempre como titular.

Aos 21 anos, longe vão os tempos em que estava no Ericeirense e trabalhava também numa pastelaria para ajudar ainda mais nas contas familiares. Durante o confinamento, e entre os trabalhos que foi fazendo de acordo com as orientações dos responsáveis leoninos, aproveitou a interrupção nos estudos para ter aulas de inglês e aprender a tocar órgão; no regresso a Alcochete, começou a ser trabalhado com mais afinco na posição ‘8’, sendo um médio menos posicional para assumir uma maior presença com bola no meio-campo, mais capacidade para ir criando desequilíbrios na frente e outras valências como o risco nos passes longos e verticais.

“Declarações do presidente? Sobre mim não aumenta qualquer nível de pressão, até porque a pressão já é muita. Já o Matheus Nunes vai pagar isso sim uma casa à mãe, vai ajudar a família e só tem de preocupar-se com isso e em ajudar o Sporting dentro de campo. Temos de dar tempo a este miúdo mas ressalvo que é fantástico termos um presidente que acredita, e muito, nos jovens que tem na Academia”, comentou Rúben Amorim antes do jogo em Guimarães, “esvaziando” uma natural curiosidade e pressão extra em torno do médio após a antevisão confiante de Frederico Varandas não deixando de apostar no jovem brasileiro. Aliás, esta noite frente ao P. Ferreira, o técnico admitiu mesmo que a saída prejudicou a equipa mas preferiu não arriscar.

“O que falta à equipa para gerir as vantagens de outra maneira? Penso que falta maturidade, falta estar num bom momento, falta contexto mas também foi culpa minha porque o Matheus Nunes estava muito bem no jogo mas tinha um amarelo e fez um corte qualquer numa transição em que tive medo que fosse expulso e por isso saiu. Já tínhamos tido uma paragem, tentei gerir da melhor forma. Isso mexeu um bocado no jogo mas o golo marcado e o tempo que se esperou naquele lance do penálti fez com que a equipa perdesse o foco. Hoje estava mais solto porque pensou muito em Guimarães no que lhe tinha dito e hoje penso que se divertiu mais”, comentou no final do jogo Rúben Amorim, antes de explicar a ausência de Mathieu e o bom momento de Jovane Cabral.

“Não me interessa se é o Mathieu ou o Nuno Mendes, não interessa se vem do Barcelona ou da formação. Começa uma nova semana, começa uma nova vida. E não digo isto porque eu é que mando, tenho uma linha para gerir o grupo e quem segue muito bem, quem não segue… Mas não há caso nenhum, os melhores vão estar sempre lá e têm uma semana para lutar pelo lugar”, destacou, prosseguindo: “A condição do Jovane também melhorou muito graças ao Departamento de Performance, eu estou cá há pouco tempo. Se calhar o jogo dele enquadra-se mais na nossa ideia, porque as equipas tentam pressionar mais e depois arriscamos na velocidade e aí ele faz a diferença. O Luís Maximiano, bem como o Tiago que trabalha bem, esteve muito bem e gostei da forma como foi jogando com os pés mesmo depois do que aconteceu em Guimarães”, concluiu o técnico.