A historiadora brasileira Ana Lúcia Araújo, membro de um projeto da UNESCO, defendeu esta quarta-feira, num painel virtual das Nações Unidas, que as decisões sobre monumentos e estátuas devem ser tomadas por toda a comunidade de habitantes de uma área.

Membro do comité científico internacional do projeto “The Slave Route” da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, em inglês), Ana Lúcia Araújo considerou que as decisões sobre a manutenção ou remoção de monumentos não têm de vir de especialistas ou historiadores, mas de todos os grupos da comunidade em conjunto, incluindo os minoritários, sem exceção.

Autora de vários estudos e livros, a professora de História da Universidade Howard, em Washington, Estados Unidos da América (EUA), a investigadora afirmou que os protestos que removem estátuas de comerciantes de escravos são consequência de uma “constante exclusão dos cidadãos negros ou mulatos dos espaços públicos” e das decisões sobre o património material e imaterial.

No painel virtual do Departamento de Comunicação Global da ONU, Ana Lúcia Araújo assinalou que as autoridades públicas responsáveis pelos monumentos estão imersas na “imobilidade” e “falham em dar uma resposta satisfatória” aos contínuos pedidos de dar contexto ou de “retirar da vista pública” as estátuas sobre a escravatura ou colonialismo.

Os protestos antirracismo aceleraram o processo de reconhecer o passado doloroso associado ao comércio transatlântico de escravos em cidades europeias e americanas”, referiu a professora brasileira.

Nas últimas semanas têm sido muitos os exemplos de estátuas vandalizadas ou removidas em várias cidades dos Estados Unidos, Reino Unido e noutros países, no meio dos protestos contra o racismo ou violência policial.

Em Lisboa, a estátua do padre António Vieira foi vandalizada em meados de junho.

Para a investigadora, o primeiro passo é reconhecer que “estátuas de homens brancos que perpetuaram opressão racial e atrocidades contra a humanidade” são “instrumentos” que fazem com que “o passado de opressão continue vivo no presente”.

Reconhecendo que as estátuas estão profundamente ligadas à história e vivência de uma localidade, a docente alertou contudo que o que têm em comum é que continuam a simbolizar e a chamar “os fantasmas” da escravatura e colonialismo.

A moderadora do painel promovido pelas Nações Unidas, Tracey Peterson, considerou que os monumentos e memoriais “podem ser símbolos de reconciliação” e formas de sensibilizar e trazer mais consciência sobre determinados assuntos ou “declarações triunfalistas (…) da cultura dominante e uma contínua cegueira às injustiças”.

Apesar de haver “diferentes contornos”, este movimento de “ataque maciço” para remover certos monumentos “não é novo nem isolado”, salientou Ana Lúcia Araújo.

A brasileira defendeu a criação de “mais projetos educativos que dão mais conhecimento e consciência” sobre o domínio colonial ou a escravatura, com uma “dimensão humana” que deve criar “conexão” do público a estes assuntos.

Segundo a investigadora, para aumentar o conhecimento da era do comércio de escravos, devem ser destacadas as narrativas e os testemunhos dos sobreviventes e descendentes.