O economista-chefe da consultora Eaglestone afirmou à Lusa que o risco de Angola ter de fazer uma nova revisão ao cenário macroeconómico “é bastante significativo” dada a incerteza na evolução da economia mundial.

“A nivel da evolução do PIB, o Fundo Monetário Internacional (FMI) espera já uma recessão de 4%, enquanto o Governo inscreveu 3,6% no orçamento, mas vivemos tempos muito incertos e os riscos de novos cortes em baixa às previsões económicas ainda são bastante significativos”, disse Tiago Dionísio.

Em entrevista à Lusa para comentar a nova proposta de orçamento aprovada esta semana em Luanda, o economista-chefe da consultora Eaglestone acrescentou que, por outro lado, “a previsão de 33 dólares por barril pode ser algo conservadora tendo em conta a evolução do preço do petróleo no primeiro semestre”, tendo o barril de Brent fechado a sessão de quinta-feira a valer mais de 43 dólares.

O corte na estimativa das receitas chega quase a 30%, principalmente devido à previsão de menores impostos cobrados às petrolíferas por via da redução da atividade de exploração e produção nos poços angolanos, o que obriga o Executivo de Luanda a ajustar também a previsão de despesa pública, notou o analista.

“A nível da contas públicas, o orçamento inclui um corte muito significativo de receitas, de 28,9% face à estimativa anterior, e isto reflete acima de tudo a forte revisão em baixa da contribuição dos impostos do setor petrolífera, menos 47,1%, o que levou o Governo a inscrever um corte de 8,7% na despesa pública”, explicou o analista.

As despesas com os juros da dívida pública “vão levar um corte de 20,5% face ao orçamento inicial, o que poderá estar relacionado com o acordo a que Angola terá chegado com a China, de longe o seu maior credor, sobre uma moratória de três anos, o que vem aliviar um pouco a execução orçamental do Governo para este ano”.

No novo orçamento, continua, “houve um corte médio do preço do crude estimado para 2020 para 33 dólares, o que representa uma quebra de 40% face à estimativa inicial de 55 dólares, e por outro lado o orçamento inclui uma revisão em baixa de 10,7% da produção para este ano, o que reflete também o mais recente acordo de corte da produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e dos seus parceiros, que implica que Angola terá de cortar a produção até final do ano e possivelmente em 2021 e 2022”, apontou o analista.

Na entrevista à Lusa, Tiago Dionísio salientou ainda que a nova previsão para a evolução do crescimento económica mostra a severidade da crise angolana: “A revisão do crescimento económico de 1,8% para -3,6% significa o quinto ano consecutivo de recessão, o mais longo e a pior recessão da história de Angola”, sublinhou.

A Assembleia Nacional aprovou na generalidade a proposta de Orçamento Geral do Estado (OGE) revisto para 2020 na quarta-feira.