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Eram mais de 100 páginas, 113 de forma mais exata, pouco menos do que o número de dias em que a competição esteve parada (140). E o que tinha? Na verdade, o melhor mesmo é analisar o que não tinha. O que poderia fazer parte deste Código de Conduta para jogadores, treinadores, staff e pessoas da organização entre 22 equipas e a própria NBA num espaço enorme reservado na Disney World em Orlando? Protocolos de como desinfetar as bolas devidamente, percursos para jogar golfe que têm de ser previamente aprovados, regras para jogar ténis de mesa onde só há jogos de singulares e não de pares, uma linha anónima para denunciar violações do Código, pesca, ioga e meditação, jogos de cartas só com seis pessoas e baralhos novos sempre que começar um jogo. O The New York Times detalhou ao pormenor este sem número de obrigatoriedades. Mas seria isso suficiente?

Na Disney World, a partir de julho, com 22 equipas. O plano da NBA para o regresso

Pelas mordomias descritas e em comparação com uma realidade totalmente diferente descrita pelas jogadoras que recomeçaram a WNBA, acima de tudo isto só o paraíso. Até porque existe uma outra simbologia no desporto americano quando se fala da Disney World – desde 1987, quando Phil Simms ganhou o Super Bowl pelos New York Giants e disse que ia para lá, isso tornou-se mesmo uma tradição, como recordou a CNN. Para 22 equipas da NBA, soa a rotina e durante dois meses e meio, a ponto de figuras como LeBron James descreverem esse período como uma espécie de “cumprir de sentença”. “A NBA está otimista de forma cautelosa. Escolhemos o caminho certo para ultrapassar todas as dificuldades para acabar a temporada. Mas também tenho noção de que o verdadeiro teste só agora vai chegar, com os jogadores sem máscara e sem distanciamento social”, disse o comissário da NBA, Adam Silver, que assumiu ainda antes do regresso uma maior flexibilidade em relação às regras mais “políticas”.

Retoma da NBA ameaçada em caso de “disseminação significativa” da Covid-19 entre os jogadores

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Tudo pronto então para o regresso da competição, num formato de oito jogos por equipa para acabar a fase regular e a possibilidade de haver um sistema de repescagem dos nonos classificados para o playoff, dependendo do rácio de vitórias-derrotas e de ganharem depois dois jogos na qualificação. Quanto a isso, teremos tempo para explicar. Até porque o primeiro encontro no complexo ESPN Wide World of Sports, que “montou” três pavilhões para jogos da NBA fora os espaços para treinos, o estádio de basebol ou campos de futebol onde uma equipa treinava ali ao lado antes de jogar, colocava frente a frente os New Orleans Pelicans e os Utah Jazz de Rudy Gobert, a “cara” da pandemia na NBA sem que tivesse feito para isso a não ser numa atitude que lamentou em inúmeras ocasiões quando andou a tocar de propósito em microfones e gravadores dizendo que não tinha medo do novo coronavírus.

A NBA fechou-se numa bolha para voltar a jogar, os jogadores querem sair da bolha para lutar por uma causa social

“Os órgãos de comunicação fizeram um retrato quase como se a NBA tivesse parado por minha causa em vez de dizerem que foi uma pandemia e que o Rudy Gobert testou positivo. Para muitas pessoas que não pensam mais do que lhe põem à frente, eles acharam mesmo que fui eu que trouxe o novo coronavírus para os Estados Unidos”, comentou o poste francês dos Jazz, em entrevista ao Washington Post que será publicada na íntegra esta sexta-feira. “Sei que quem viu aquele vídeo em que toquei nos microfones e nos gravadores pode pensar que não quero saber da segurança e da vida das outras pessoas. É difícil ver que questionam o meu carácter tendo por base aquele vídeo. Mas foi uma grande lição, mesmo. Sei quem sou, as pessoas à minha volta sabem quem eu sou. Todas as pessoas terão perceções e opiniões diferentes”, acrescentou, entre outros lamentos.

“Gozou” com as medidas, tocou em todos os microfones e foi diagnosticado dois dias depois com coronavírus: a noite que mudou a NBA

Hora de jogo, hora de novidades. Com Rudy Gobert a tentar sair da bolha onde se sentiu enclausurado, com duas equipas a tentarem abstrair-se da bolha que foi criada para eles. Diferenças? Muitas (não tantas para quem viu os jogos treino realizados, demasiadas para quem retomou agora o contacto com a NBA 140 dias depois). Exemplos: assistência virtual em ecrãs colocados atrás dos bancos com espetadores que faziam as mesmas caras e mexiam os braços como se estivessem num pavilhão de 20.000 a serem filmados; barreiras acrílicas na zona da mesa e entre os comentadores; um espaço de jogo a fazer lembrar aqueles campos de escola secundária como os que vimos nas imagens antigas de Michael Jordan no The Last Dance; apanha bolas atrás da zona das tabelas com máscaras e luvas para que se cumpra todo o protocolo ao tocar nas bolas; inovações tecnológicas que não foram perfeitas, pelo menos no sinal que chegava a Portugal via SportTV. Mas o início teve sobretudo uma mensagem.

Adam Silver tinha admitido uma outra flexibilidade em relação às mensagens políticas. Percebe-se porquê e ele mesmo sabia disso mesmo: o movimento Black Lives Matter não foi esquecido, pelo contrário. E além das t-shirts com a mensagem no aquecimento, todos os jogadores e técnicos ajoelharam-se durante o hino, numa das imagens mais fortes que ficaram do primeiro encontro da noite (de madrugada entrariam em campo Lakers e Clippers, no aguardado dérbi entre equipas de Los Angeles), e entraram em campo com palavras ou mensagens nas contas em vez dos nomes. Em vez de Gobert, “Igualdade”. Em vez de Zion, “Paz”. Em vez de Mitchell, “Diz o nome dela” (uma homenagem a Breonna Taylor, morta na sua casa pela polícia em março). Em vez de Ingram, “Liberdade”. Tudo explicado nas páginas oficiais das equipas dos New Orleans Pelicans e dos Utah Jazz.

Curiosidade das curiosidades, as duas grandes figuras foram as primeiras a aparecer. Rudy Gobert, um leão nas tabelas com uma postura de gato bem comportados que quer mostrar que não é nada do que fizeram dele em março, ganhou a bola ao ar, atacou o cesto na primeira posse, marcou dois pontos e falhou o lance livre. Bola para os Pelicans, passe para Zion, falta e cesto a converter o lançamento livre. O jogo começou num ritmo que mais parecia um All Star com bola cá, bola lá em ataques rápidos em 15 segundos, baixou depois com a falta de eficácia, teve sempre os Jazz na frente até a uma parte final dos Pelicans com Ingram e Holiday a chegarem-se à frente e a fazerem o 26-23 no final do primeiro período com sete pontos cada. Ao intervalo, em vez de três, eram já 12 de vantagem. Conley fez 14 pontos, Gobert era o jogador com mais ressaltos mas Ingram continuava a ser o melhor, Reddick e Hart tiveram saídas importantes do banco e Zion foi Zion, como o conhecemos desde que começou a jogar após longa lesão: em menos de sete minutos, entre cuidados diversos, nove pontos e 100% de eficácia.

Gobert apareceu no início do jogo com cesto e falta, Gobert apareceu na segunda parte com um desarme gigante a Zion, Gobert teve de desaparecer um pouco depois de uma entrada com o braço de JJ Reddick que deixou o francês uns minutos de fora a queixar-se do olho direito quando já estava próximo do duplo-duplo (dez pontos, oito ressaltos). No entanto, o 60-48 que parecia colocar os Pelicans a salvo numa vitória fundamental para conseguir ainda entrar nas contas do playoff transformou-se no final do terceiro período num 87-79 mais aberto, com os Jazz melhores no plano ofensivo e a colocarem outro tipo de problemas a um adversário muito versátil nas combinações atacantes. O aviso estava dado, os Pelicans não ligaram muito (e Zion, numa “decisão”, jogou apenas 15 minutos…) e, a pouco mais de quatro minutos do final, a equipa deixou de ter capacidade para se distanciar quando estava mais apertada, vendo os Jazz passarem para a frente por 98-97 com Clarkson e Conley a chegarem às duas dezenas de pontos e Gobert a ser o único jogador com duplo-duplo (14 pontos e 12 ressaltos). E para reforçar a ironia das ironias, o poste francês voltaria a ser decisivo com dois lances livres a seis segundos do final que fez o 106-104 final antes de um triplo falhado por Ingram quando a bola parecia dentro do aro mas não caiu.