Das várias adaptações feitas para o cinema e a televisão do clássico da literatura juvenil “O Jardim Secreto”, de Frances Hodgson Burnett, publicado em 1911, destacam-se, no primeiro caso, a de 1949, realizada por Fred M. Wilcox, com Margaret O’Brien e Dean Stockwell, rodada a preto e branco mas com as cenas passadas no jardim secreto em Technicolor; e a de 1993, produzida por Francis Ford Coppola e assinada por Agniezska Holland, com Maggie Smith a sobressair no elenco no papel da governanta da mansão. Na televisão, a melhor versão é sem dúvida a de 1987, filmada na mansão e no parque que décadas mais tarde viriam a ser utilizados em “Downton Abbey” e com argumento de Blanche Hanalis (“Uma Casa na Pradaria”).

[Veja o “trailer” da versão de 1993:]

Tirando uma ou outra pequena liberdade ou compressão dramática, todas estas adaptações respeitaram o espírito e a integridade narrativa do livro de Hodgson Burnett e o seu tema da regeneração familiar, através da metáfora do jardim abandonado e esquecido, que é devolvido ao seu esplendor original pela pequena órfã Mary, pelo seu enfermiço primo Colin e por Dickon, o irmão de uma das criadas da mansão, que tem um jeito  especial para lidar com os animais. Até que veio um tal Marc Munden estragar tudo com uma nova versão para cinema de “O Jardim Secreto”, que sob a duvidosa bandeira da “releitura”, desfigura de forma grosseira a obra da escritora americana.

[Veja o “trailer” de “O Jardim Secreto”:]

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O enredo foi  transferido para o mundo pós-II Guerra Mundial, com Mary (Dixie Egerickx, uma das poucas coisas aceitáveis do filme) a ser trazida para a enorme mansão do tio viúvo no Yorkshire, após perder os pais depois da independência da Índia. Munden e o argumentista Jack Thorne carregam demasiado no negrume e no negativo, ao representarem a mansão, que serviu de hospital militar durante a guerra, como semi-devastada e lúgubre ao ponto do fantasmagórico, e ao caracterizarem Archibald Craven, o rabugento e indiferente tio de Mary (um Colin Firth a fazer pouco mais que figura de corpo presente), como fisicamente disforme e psicologicamente perturbado. E quase nem damos por Julie Walters na governanta.

[Veja uma entrevista com Dixie Egerickx:]

Mas o pior deste filme exageradamente tristonho e torcido ainda está para vir. Não só a personagem essencial do velho Ben, o jardineiro, foi eliminada, e as de Dickon e da irmã passadas pelo filtro do “racialmente correto”, como o jardim murado que é central ao enredo foi transformado de um pequeno e discreto refúgio pastoral, num lugar absurdamente grande, feérico e irreal, arrancando o filme do seu enquadramento de realismo bucólico caracteristicamente inglês e atirando-o de forma despropositada para uma dimensão fantástica (o jardim é na realidade composto de aspetos de sete jardins ingleses diferentes, mais as secções criadas por computador). Alguns dos produtores da fita estão ligados à série “Harry Potter” e devem ter achado que era bom meter “magia” a martelo em “O Jardim Secreto”.

[Veja uma cena do filme:]

E as três crianças usam o jardim apenas para brincar e não o restauram, o que tira todo o sentido à história. É como se em “A Ilha do Tesouro” não houvesse tesouro nenhum ou em “Robinson Crusoé” o herói não fosse resgatado da ilha. Não contente com tanta e tão infeliz adulteração do livro de Hodgson Burnett, Marc Munden, que filma como se andasse a aspirar as alcatifas em casa, ainda arranja, no final, maneira de incendiar a mansão, num exibicionismo gratuito de efeitos digitais que prolonga o das sequências passadas no nada secreto mega-jardim. Este desnaturado “Jardim Secreto” está a pedir uma valente praga de oídio e de pulgões.