Há quem fale de 100 mil pessoas, há quem duplique o número e quem contabilize os manifestantes em meio milhão. Mas as imagens não deixam enganar: uma multidão está concentrada na Praça da Independência, sede dos edifícios da administração bielorrussa, numa “marcha pela liberdade” que quer Alexandr Lukashenko, eleito presidente do país pela sexta vez consecutiva há uma semana, fora do governo.

São muitos mais aqueles que se reuniram pela democracia tanto em Minsk como noutras cidades bielorrussas (Grodno, Gomel e Vitebsk, por exemplo) do que os apoiantes de Lukashenko que também se manifestaram este domingo naquela mesma praça, antes dos opositores ao regime. Levam bandeiras brancas e vermelhas, gritam pelo detenção do presidente e prometem não perdoar os líderes do regime na Bielorrússia.

De acordo com a televisão bielorrussa, este é o maior encontro de manifestantes da história da Bielorrússia independente. O trânsito foi interrompido no centro da capital para permitir a passagem do protesto, que exigem novas eleições, desta vez livres, enquanto entoam ordens ao presidente: “Rua!”, “Viva a Bielorrússia” e “Prisão a Lukashenko”.

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Mas Alexandr Lukashenko jura que “nem morto” permitirá a entrega do país aos rebeldes. “Conseguimos construir um belo país, com suas dificuldades e falhas. A quem o querem entregar? Se alguém o quiser entregar eu não o permito, nem morto”, disse Lukashenko citado pela agência Belta.

O presidente rejeitou categoricamente a possibilidade de realizar novas eleições presidenciais, afirmando que isso seria “a morte da Bielorrússia como Estado e nação”: “Há tanques e aviões a cerca de 15 minutos de voo de nossa fronteira. As tropas da NATO rangem os rastros dos tanques à nossa porta. Lituânia, Letônia, Polônia e, infelizmente, nossa amada Ucrânia ordenam que realizemos novas eleições. Se aceitarmos, vamos despencar-nos”, alertou.

As manifestações deste domingo coincidem com o dia do funeral de Alexander Vichor, 25 anos, uma das vítimas dos protestos bielorrussos. A 11 de agosto, Alexander Vichor foi detido pela polícia fiel ao regime à saída de um encontro, sofrendo um ataque cardíaco que o deixou inconsciente e, mais tarde, tirou a vida.

A Bielorrússia tem sido palco de manifestações desde o domingo passado, quando o país foi às urnas e Alexandr Lukashenko terminou eleito para o cargo de presidente, que ocupa há 26 anos, com a esmagadora maioria dos votos. Os opositores, assim como a comunidade internacional, não acredita na validade do processo eleitoral e suspeita de fraude.

Apesar das manifestações contra o presidente bielorrusso, as opiniões dividem-se sobre este será mesmo “o fim da era Lukashenko”, como lhe chamam os opositores. O filósofo polaco Marcin Król defende que “derrotas como esta não permitem que os governos autoritários se recuperem”.

Mas Adam Eberhardt, diretor do Centro de Estudos Orientais, diz que a questão é mais complexa: “Se Lukashenka cair — algo provável, mas que não é líquido —, o novo presidente terá que agradar a Moscovo, ao movimento de protesto e à Nomenklatura”.

Quem é essa pessoa? Viktar Babaryka, concorrente de Lukashenko atualmente detido pelo regime, que é precisamente representante da Nomenklatura e que foi durante duas décadas o líder do Belgazprombank. A 12 de maio saiu do cargo e assumiu querer candidatar-se às eleições deste ano. Foi detido a 19 de junho.

Mas Stanisław Szuszkiewicz, ex-presidente do parlamento bielorrusso, disse à Reuters que Lukashenko ainda tem condições para continuar no poder: “Não acho que se possa falar disso [o fim da era Lukashenko] por uma razão muito simples: Lukashenko serve ao Kremlin. De outra forma, não seria capaz de se sustentar”.