A moda, a beleza e o estilo de vida — dimensões de culto que, nas redes socais, assumem contornos aspiracionais pelas mãos de homens e mulheres a quem reconhecemos algum tipo de expertise ou, no mínimo, um gosto e uma cultura visual especialmente apurados. Quantos anos têm? A pergunta nunca foi relevante. Assente na premissa de que nada é tão sedutor como a juventude, a mecânica da influência digital tende a preconizar o mais unânime dos conceitos de beleza. Mas será que, entre rostos de pele lisa, sorrisos brancos e silhuetas delineadas, há espaço para outros padrões?

Aos 55 anos, Grece Ghanem é um ícone de estilo com mais de 427 mil seguidores no Instagram. Os sapatos Balenciaga, as calças de ganga J Brand e o perfume Tom Ford são algumas das pistas deixadas em fotografias e etiquetas e que conduzem a uma conclusão inevitável: Ghanem é uma influenciadora. “Mantenham-se visíveis! Quando as mulheres atingem uma certa idade, deixam de olhar para elas. [Mas] isso não me diz nada. Continuo a vestir-me de forma divertida. Não tenho de desaparecer”, admitiu à revista Vogue, há precisamente dois anos, quando acumulava menos de um quarto dos seguidores que tem hoje.

Um dos visuais partilhados por Grece Ghanem © Instagram.com/greceghanem

O interesse das marcas é explícito. Do calçado italiano ao minimalismo do pronto-a-vestir escandinavo, passando por joias e malas icónicas, o estilo desta libanesa a viver em Montreal é uma cobiçada montra comercial. Em maio, a marca Silk Laundry fez dela uma espécie de embaixadora, isto já depois de ter começado a colaborar com a Kérastase, marca de cosmética capilar.

Mas tornar-se influenciadora digital e modelo nunca fez parte dos planos de Grece, que em tempos trocou a microbiologia por uma carreira como personal trainer. Uma entrevista à revista Vice, em setembro de 2017, e o destaque dado pelo blogue Advanced Style catapultaram-na para um lugar de destaque. “A maior qualidade de uma mulher é a sua autoconfiança. A beleza não desaparece, apenas muda. Mulheres confiantes abraçam essas mudanças, não têm medo delas”, revelou numa entrevista recente.

As marcas e a idade

Nos últimos anos, vimos cabelos grisalhos pisarem as principais passerelles internacionais — a imagem mais recente é a de Lauren Hutton, com 75 anos, no desfile de alta-costura da Valentino, no verão passado, em Paris. Na publicidade, a idade das modelos é hoje um dado bem mais relativo do que era há dez ou 20 anos. Em maio, com 85 anos, a atriz britânica Judi Dench fez história ao ter sido a mulher mais velha a aparecer numa capa da Vogue.

Em março, a Adolfo Dominguez apresentou Benedicta Sánchez como rosto da marca, depois de, aos 84 anos, a atriz espanhola ter vencido o Goya de Melhor Atriz Revelação. O slogan — “O velho é o novo novo” — declarou guerra à ditadura da juventude e as rugas já se tornaram presença frequente nas produções fotográficas.

Campanha da Adolfo Dominguez com a atriz Benedicta Sánchez © Adolfo Dominguez

“Às vezes, pode parecer meramente simbólico. Dá a ideia de que os anunciantes estão a verificar uma espécie de lista de diversidade. Modelo com cabelo grisalho: check! Esta idade está resolvida. Jovem e sexy ou velho e fetiche — escolha. Mas acho que é uma mudança permanente. As marcas fizeram o trabalho de casa e sabem que estão perante um grupo demográfico poderoso e com poder de compra. É tudo uma questão de dinheiro”, referiu Alyson Walsh, jornalista britânica e autora do blogue “That’s Not My Age”, numa entrevista, em dezembro de 2018.

Para o gestor de redes sociais Tiago Froufe Costa, o fenómeno é expectável em Portugal, embora não com  influenciadores acima dos 50 com a expressão equiparável aos perfis internacionais. “É verdade que a grande maioria dos influenciadores está entre os 20 e os 40 anos, mas o target de influência é mais alargado e começa em idades bem inferiores e aproxima-se dos 65 anos”, explica o especialista, responsável por gerir as redes sociais de Cristina Ferreira.

Por um lado, a facilidade em comunicar com uma audiência na mesma faixa etária, por outro a possibilidade de adaptar produtos e setores específicos. E se até o recém-chegado TikTok já está a conquistar público para além dos adolescentes onde começou por fazer furor, segundo refere Tiago, o que dizer do Instagram, a rede social mais transversal do momento.

Na ótica das marcas, estamos perante criadores de conteúdos. Estas querem chegar a um público específico e para isso têm em conta a afinidade do influenciador com o alvo, em função do seu estilo de vida e convicções, a credibilidade que tem junto da respetiva comunidade, o posicionamento, a coerência e a postura. “Normalmente, a escolha de um influenciador sénior está associada à comunicação de uma marca, produto ou projeto dirigido a um público igualmente sénior e que, por isso, terá uma maior identificação com a mensagem”, explica Marta Marreiros, partner da consultora de comunicação e relação públicas Lift Consulting.

FASHION-BRITAIN-SIMONE ROCHA

Desfile da criadora Simone Rocha, na Semana de Moda de Londres, em fevereiro de 2017 © NIKLAS HALLE’N/AFP via Getty Images

A estratégia chega a ser intuitiva e não é propriamente recente. Marcas internacionais, sobretudo na área da cosmética, selecionam os canais de influência com os quais colaboram em função da faixa etária do público-alvo de cada produto. Veja-se o caso do gigante L’Oréal que em 2016 recrutou a estrela Jane Fonda, na altura com 78 anos, como um dos rostos da marca a nível mundial. Mais tarde, fê-lo com Helen Mirren e, exclusivamente em Portugal, com Simone de Oliveira e Lídia Franco.

“A idade, por si só, não é um fator de exclusão”, acrescenta. “A escolha dos canais de comunicação tem muito a ver com estilo de vida, posicionamento e credibilidade. Se um criador de conteúdos com mais de 60 anos, por exemplo, cumprir estes critérios e tiver uma presença digital expressiva, é naturalmente considerado na nossa estratégia”. A diversificação é um caminho e, segundo Marta, as marcas não começaram a percorrê-lo ontem. “A procura por perfis diferentes é constante. Se antes apenas se pensava em conteúdos digitais para perfis mais jovens, uma estratégia de influencer marketing vive hoje da diversidade e complementaridade de perfis. Para isso também contribui o aumento da presença digital de influenciadores seniores. Veja-se, a título de curiosidade, o exemplo de Dolores Aveiro”, remata.

Lyn, Roxanne e Linda. Os 60 são os novos 40

Uma coisa é certa: o carisma e o sentido de estilo refletem-se nas métricas. Com 99 anos acabados de fazer, Iris Apfel é provavelmente a maior prova de que a frescura que serve de combustível às redes sociais não é uma questão de idade. A moda como uma espécie de atestado de intemporalidade, no pensamento de Alyson Walsh, que em 2008 criou o blogue “That’s Not My Age”, guia de estilo para maiores de 40 e plataforma dedicada a celebrar mulheres inspiradoras de todas as idades.

Walsh olhou para o lado e viu uma indústria que ignorava as mulheres mais velhas. “A ênfase estava sempre na juventude e em ser-se jovem. Enquanto isso, deparava-me todos os dias com mulheres maravilhosas, pessoas mais velhas que não estavam representadas nos meios de comunicação tradicionais”, recordou ainda.

Deixou a redação onde trabalhava e criou o blogue. Aos 56 anos, não é só do próprio guarda-roupa, das lições de empoderamento e das dicas de styling que vive esta plataforma. Existem outras mulheres, símbolos de bom gosto, que Alyson apresenta ao mundo. A 31 de março de 2017, os parágrafos do dia falavam de Lyn Slater, a mulher que, de um dia para o outro, passou de ilustre desconhecida a estrela do Instagram e, consequente, a modelo profissional. Como? Corria a Semana Moda de Nova Iorque e um bando de fotógrafo tomou-a por uma das influentes especialistas com lugar cativo na primeira fila dos desfiles. A imagem da sexagenária com um guarda-roupa irrepreensível tornou-se viral.

Lyn Slater é Accidental Icon © Instagram.com/iconaccidental

Hoje, com 66 anos, Slater soma 746 mil seguidores no Instagram (que por sinal se chama “Accidental Icon”). A receita sempre foi infalível — uma figura carismática e uma longa relação com a moda enquanto ferramenta de expressão individual. Há três anos, esta professora universitária acabaria por brilhar numa campanha da Mango (imagem que abre este artigo) e num desfile da designer Simone Rocha, na Semana da Moda de Londres. Nas redes sociais, rejeita a preocupação com os números. “Não tenho 20 anos, nem quero ter, mas tenho muita pinta. É isto que penso quando estou a publicar uma fotografia”, admitiu há dois anos, num entrevista ao The New York Times.

Em janeiro de 2018, um relatório da consultora The Innovation Group referiu que o nosso estilo de vida tende a descolar-se do fator idade. A empresa chamou à análise “Elastic Generation”, que olhou para os comportamentos de um conjunto de mulheres britânicas entre os 53 e os 72 anos. Atualmente, aos 50 anos, “uma mulher pode ser já ser avó ou pode ter sido mãe há não muito tempo”, reflete o relatório. “O estilo de vida não é regido pela ideia que têm, mas pelos valores e pelas coisas com que se preocupam”, consta ainda.

Uma das tendências que o relatório aponta está relacionada com a tecnologia. A maioria das mulheres inquiridas (73%) mostrou-se incomodada com o estereótipo de que a sua geração revela menos aptidão para as ferramentas digitais, enquanto 78% não expressaram qualquer intenção de comprar equipamentos especialmente concebidos para utilizadores mais velhos. No que toca à moda, 69% da amostra considerou que a indústria ignora os consumidores de idade avançada e 82% afirmou mesmo que a roupa que lhe é destinada normalmente é “bastante antiquada”.

No Instagram, o mosaico de fotografias de Roxanne Gould ilustra o relatório na perfeição. Aos 62 anos, a modelo norte-americana permanece no ativo e soma mais de 36 mil seguidores nesta rede social. Treina no ginásio, posa em roupa interior e há mais de uma década que assume o cabelo cinzento. Sem exibir o corpo, mas com um sentido estético irrepreensível, Linda Rodin mantém o arrojo, mesmo depois dos 70.

Linda Rodin é modelo e já trabalhou como stylist © Instagram.com/lindaandwinks

“As mais novas não acreditam que sou mais velha que as mães delas. Mesmo assim, querem vestir o que estou a usar. Para as mais velhas, acho que é aquela sensação de: ‘Bem, se ela se pode vestir assim, então eu também posso’. Hoje, existem muitas mulheres mais velhas no centro das atenções dos holofotes. Estou feliz por fazer parte do movimento”, referiu Rodin, num texto publicado há um mês, no Net-a-Porter. Empresária, manequim e stylist, conta com mais de 280 mil seguidores no Instagram.

As aspirações parecem ser o único limite, seja aos 20 ou aos 70 anos. A história de Linda Malys Yore (ou Linda on the Run) é paradigmática. O divórcio, ao fim de 26 anos e com duas filhas já criadas, foi o ponto de viragem. Há anos que Linda havia abdicado da sua carreira de enfermeira para ficar em casa e ser mãe a tempo inteiro. Em 2014, o caso mudou de figura e a norte-americana, habituada a viajar em família e incentivada por uma das filhas, deu os primeiros passos como influenciadora de viagens.

No Instagram, Linda Malys Yore partilha as suas viagens © Instagram.com/lindaontherunofficial

“Percebia como funcionava o e-mail e o Facebook, mas ficava por aí. Tive de aprender tudo do zero”, explicou em janeiro deste ano, admitindo ainda ter recorrido a manuais sobre o funcionamento do Instagram. A preparação parece ter resultado. Hoje, aos 68 anos, tem quase 64 mil seguidores no Instagram e usa também o blogue para partilhar roteiros e dicas. As viagens são temperadas com uma pitada de moda — todos os visuais são escolhidos em função do destino e o batom vermelho é uma imagem de marca que nunca falta. A par da realização pessoal, o sucesso comercial. Linda já atraiu as atenções de marcas como a Ray-Ban e a cadeia de hotéis Waldorf Astoria.