A escritora Leonor de Almeida, aclamada na década de 1950, “eclipsou-se numa treva de silêncio”, de que é resgatada com a publicação da sua obra, a investigação de Cláudia Clemente e a homenagem da Feira do Livro do Porto.

Considerada, pelo romancista e crítico literário João Gaspar Simões, “um dos melhores poetas portugueses”, definida como “uma personalidade lírica invulgar”, pelo professor Jacinto do Prado Coelho, e “um dos casos mais extraordinários da poesia moderna”, pelo escritor Artur Portela, Leonor de Almeida publicou quatro livros de poemas, entre 1947 e 1960, antes de desaparecer no ‘naufrágio’ dos anos finais da sua vida.

Esses quatro livros surgem agora reunidos num só volume, da editora Ponto de Fuga, sob o título “Na Curva Escura dos Cardos do Tempo”, acompanhados de dois ‘inéditos’, do prefácio da poeta e investigadora Ana Luísa Amaral, e da apresentação da escritora e realizadora Cláudia Clemente.

Desta autora, a Documenta também edita “Tatuagens de Luz”, investigação da vida e obra de Leonor de Almeida, que não só expõe os factos desvendados e comprovados, mas estabelece uma narrativa sobre o modo como Cláudia Clemente chega até eles, ao longo dos anos, assim como os motivos por que os desvenda.

“Tudo começou com um quadro” do pintor surrealista João Moniz Pereira, que teria pertencido a Alexandre O’Neill, adquirido nos anos de 1950, pela avó de Cláudia Clemente, à sua amiga e esteticista, permanecendo na família desde então.

“Resolvi seguir o rasto da senhora, na esperança de obter mais informações sobre a tela, e descobri Leonor de Almeida — não a marquesa de Alorna, com quem partilha o nome, mas uma das mais invulgares poetisas do século XX”, escreve Clemente.

“Leonor, que se disfarçava usando uma peruca quando trabalhava como esteticista, foi uma autora surpreendente, aclamada pelos mais importantes críticos da época”, escreve a romancista de “A Casa Azul” e realizadora do documentário sobre a editora “&etc.”.

Cláudia Clemente recorda a presença de Leonor de Almeida nas antologias “Novíssima Poesia Portuguesa”, de Maria Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro, e “Poesia Erótica e Satírica”, de Natália Correia, as suas colaborações com as revistas literárias da época, os poemas, artigos e entrevistas surgidos nos jornais e revistas dos anos de 1940/1950.

Leonor de Almeida viveu em Londres, Paris, Copenhaga. Publicou quatro livros de poesia, “Terceira Asa” (1960), “Rapto” (1953), “Luz do Fim” (1950), “Caminhos Frios” (1947). Depois desapareceu. “A sua vida permanece envolta numa aura de mistério que a própria autora alimentou”, desde a incerteza da data de nascimento, que Cláudia Clemente acaba por fixar em 1909, no Porto, com a descoberta da certidão.

“Ao longo de três anos recolhi todo o material disponível em bibliotecas, alfarrabistas, fundações, arquivos e espólios particulares. Consegui fotografias, documentos e manuscritos da autora, consultei jornais e revistas, compilei toda a poesia contida nos quatro livros e reuni a correspondência com amigos, escritores e críticos literários, oriunda de espólios como o de Alexandre Pinheiro Torres (segundo marido de Leonor), Adolfo Casais Monteiro, João Gaspar Simões, José Gomes Ferreira, Alberto de Serpa e Egito Gonçalves”, afirma Cláudia Clemente.

“Tatuagens de Luz” resulta dessa pesquisa que, conjugada com a publicação da “poesia reunida”, estabelece um mapa sobre o rasto de Leonor de Almeida, mas também abre vias sobre movimentos literários da época e perspetivas para as impossíveis condições de vida sob a ditadura, e a natureza de uma mulher que, como “enfermeira-acompanhadora”, não hesitou em escrever cartas de protesto a Salazar.

Durante os seus últimos 20 anos, morou incógnita em Lisboa, onde morreu sozinha, “em dia incerto de maio de 1983”. Sobre a sua cama, descobriu Cláudia Clemente, “estava caído o telefone, com o auscultador fora do descanso”.

A escritora Ana Luísa Amaral, na apresentação da poesia reunida, detém-se nas “palavras-mapa” de Leonor de Almeida, ao longo dos seus quatro livros, enumerando pontos de referência, como a ideia de liberdade de “Rapto”, a que o artista Fernando Lanhas deu suporte gráfico, a relação entre o corpo e a escrita, e a condição humana, também patente nessa “Luz do Fim”, para a qual admite uma referência à bomba de Hiroshima e Nagasaki.

“Interrogo-me se Leonor de Almeida seguiu, no ano de 1972, a publicação e receção de ‘Novas Cartas Portuguesas'”, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, e identificou nelas elementos “como se a tivessem lido”: “Por mais que me asfixies a sombra, não impedirás que encontre a custódia”, cita.

Ana Luísa Amaral apoia-se na poeta norte-americana Adrienne Rich para tornar mais evidente a realidade de Leonor: “Vim explorar o naufrágio. As palavras são propósitos. As palavras são mapas. Vim ver os estragos que foram feitos e os tesouros que foram preservados”.

Leonor de Almeida “nasceu num 25 de abril”, recorda Cláudia Clemente. “Foi poeta, enfermeira, esteticista, mãe, viajante, aventureira, corajosa, pioneira, mas acima de tudo, um espírito livre e uma mulher muito à frente do seu tempo”.

É a autora homenageada da Feira do Livro do Porto. A poesia reunida em “Na Curva Escura dos Cardos do Tempo”, que foi organizada por Vladimiro Nunes (com apoio dos curadores e programadores Nuno Faria e João Gesta), e o livro “Tatuagens de Luz”, publicado com o apoio da Câmara do Porto, chegaram esta semana às livrarias.