Quando um casal de franceses decidiu transformar um rés-do-chão recentemente comprado em Lisboa numa garagem, certamente não imaginava nada disto: que na intervenção arqueológica feita na sequência do projeto, necessária pela proximidade com o já antes identificado — e classificado — Teatro Romano, fossem descobertos indícios do que pode ter sido um templo Romano já erguido no século I, há mais de 1.900 anos.

Essa parte da história já se sabia, tinha sido anunciada em 2019 aquando das escavações — feitas a apenas 50cm de profundidade, o que atesta bem a riqueza arqueológica descoberta por cm2, com recurso a recolhas de amostras, colherins, réguas, fitas médicas, lousas e demais materiais de pesquisa.

Agora que o Museu de Lisboa – Teatro Romano decidiu organizar uma exposição para reconstituir esse possível templo, sabe-se mais. Por exemplo, que nesse solo do número 6 da Rua da Saudade foram encontrados indícios de um pavimento riquíssimo, com pedras que viajaram o mundo inteiro para chegar a Felicitas Iulia Olisipo, isto é ao território de Lisboa quando esta era município romano — pedras vindas do Norte de África, do Oriente, da atual Europa, de territórios como as atuais Tunísia, Grécia ou Turquia, num tempo em que as viagens eram odisseias.

Foi “o negativo que ficou na argamassa das lajes” que compunham o pavimento que permitiu “fazer uma reconstrução integral” do mesmo, explicou ao Observador a arqueóloga e coordenadora do Museu de Lisboa – Teatro Romano, Lídia Fernandes, em visita guiada na véspera da abertura da exposição.

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Imagem retirada de um vídeo de reconstituição em 3D do que pode ter sido um templo Romano em Lisboa, na atual Alfama, da autoria de Carlos Loureiro

A mostra, com o título “Arqueologia da Rua da Saudade. Um templo (?) romano na cidade”, ficará patente no edifício do Museu de Lisboa – Teatro Romano entre esta sexta-feira, 16 de outubro, e 28 de fevereiro de 2021. Poderá ser visitada de terça a domingo, entre as 10h e as 18h, havendo restrição atual ao número de visitantes — devido às regras impostas pela Direção-Geral da Saúde — e tendo os bilhetes o custo geral de três euros.

Pedras vindas de todo o império? Eis o sinal de um “edifício de prestígio”

A riqueza dos materiais do pavimento é um dos ingredientes que a equipa envolvida nesta pesquisa arqueológica mais considera sustentar a tese de se ter descoberto um templo Romano. Afinal, como se lê ao percorrer a exposição, “as pedras de revestimento do pavimento” encontradas são “oriundas de diferentes pontos do império, indicando uma encomenda muito dispendiosa e (…) empregue em edifícios de prestígio”.

A hipótese de este pavimento ter ornamentado uma habitação (domus) é pouco plausível, uma vez que nos encontramos junto a uma das entradas principais do teatro, um espaço público e amplo. A mesma ideia se coloca quanto a um possível edifico termal, já que estes eram de grande dimensão, não existindo espaço suficiente na área ou vestígios que indiquem essa funcionalidade”, lê-se ainda.

A conclusão relativa à proveniência variada das várias pedras que compunham o dispendioso revestimento do pavimento do que se acredita agora ter sido um templo Romano foi feita “depois de estudados fragmentos de pedras” e depois de “análises químicas e mineralógicas”, explica ao Observador Lídia Fernandes. Foi assim que se percebeu que terá sido feita para Lisboa, quando a capital portuguesa era município Romano, uma “encomenda de pedras que vieram de todos os cantos do império Romano”.

Os diferentes tipos de pedra, “sendo um material extremamente durável”, acabam por ser muitas vezes “um testemunho único das obras do passado”, explica Lídia Fernandes. É um “material de excelência para perceber a atividade industrial e construtiva” e neste caso “estamos a falar de pedras que decoravam os palácios Imperiais“.

Um fundo de taça em cerâmica fina descoberto na rua da Saudade, em Alfama, em 2019. A origem deve remontar a um período entre 70 d.C. e 110 d.C. Cerâmica fina

De acordo com os vestígios encontrados, o pavimento seria em opus sectile, uma técnica de construção utilizada pelos Romanos. Em Lisboa, só está identificada a existência de um outro pavimento deste tipo, situado a escassos metros do local da escavação, no teatro Romano. “Tendo o pavimento a mesma orientação que o teatro Romano, devem datar da mesma altura. Quando um foi construído, o outro também deve ter sido”, nota a arqueóloga.

Tendo matriz de formação geológica, muitas vezes trabalhamos nos materiais da natureza e damos apoio a estudos arqueológicos. Não estamos habituados a ver uma diversidade tão grande num só local — e materiais que são exóticos. Há um exotismo aqui que é interessante. As rochas têm sempre uma história por contar”, explicou ao Observador Manuel Francisco Costa Pereira, geólogo que trabalhou na identificação dos materiais descobertos na intervenção arqueológica.

Uma “espécie de tanque” que também reforça a hipótese templo

Fica agora saber-se, também, que no atual número 6 da Rua da Saudade chegou a estar “uma espécie de tanque, uma cisterna”. Uma “estrutura hidráulica” que “foi desativada nos finais do século I ou início do século II” — ou seja, há mais de 1.900 anos — mas que ajuda a reforçar a tese do Museu de Lisboa – Teatro Romano de que ali chegou a estar um templo, dado que “também é habitual os tanques estarem relacionados com templos” e estarem próximos destes locais de culto, até pelo simbolismo que a água tinha como elemento de “limpeza e pureza”.

Esta “espécie de tanque”, que os investigadores creem não ter sido usado para banhos, não é o único indício que alimenta a a tese de que podem ter sido encontrados pela primeira vez vestígios da localização concreta de um templo Romano em Lisboa, dos vários que terão existido quando o território era parte do império Romano. É apenas mais um, sendo um dos outros a então habitual proximidade entre teatros e templos.

Outra imagem com uma reconstituição  em 3D do que se supõe ter sido um templo Romano na atual Rua da Saudade, concebida por Carlos Loureiro. Note-se a riqueza do pavimento

À época, tantos os teatros como os templos tinham um forte pendor religioso — sendo que o culto era feito sempre no exterior do templo, não no interior. “Faziam-se as preces fora. No templo estava a divindade, a estátua”, lembrou Lídia Fernandes. E a garagem em Lisboa que se pressupõe agora ter sido um templo romano ficava precisamente junto a uma das entradas principais do teatro romano. “É muito habitual à época existirem templos ao lado do teatro. As pessoas podiam colocar incensos, óleos, algumas oferendas no altar em frente ao templo. Depois saíam pela rua e entravam nos teatros”.

Há porém outras descobertas feitas nas escavações do número 6 da rua da Saudade.

Vestígio de uma corvina com pelo menos 20 kg? Também se encontrou

Entre as descobertas mais relevantes da intervenção arqueológica levada a cabo em 2019 estão vestígios da fauna local — que permite, desde logo, reconstituir os hábitos alimentares há mais de 1.900 anos no município romano de Felicitas Iulia Olisipo, que se tornou entretanto Lisboa.

Apesar das escavações terem sido feitas a apenas 50 cm de profundidade, é habitual em intervenções arqueológicas descobrirem-se vestígios como ossos e espinhas de animais — e esta intervenção de 2019 não foi exceção. A primeira conclusão é que a dieta era variada: como se lê ao circular pela exposição, “a diversidade de espécies identificadas indica que terá existido um consumo bastante variado de proteína animal”.

Encontraram-se, por exemplo, vestígios de animais domésticos como a cabra, o porco, a vaca — que tinha então uma dimensão bastante inferior à que tem hoje —, a ovelha, o coelho e a galinha. Foram identificados “vários ossos de veado, que correspondem a diferentes indivíduos, situação pouco comum em Olisipo”, lê-se na exposição, ainda que “a caça de animais de maior porte” fosse “bastante apreciada” à época por “militares e aristocratas romanos”.

A quantidade de vestígios de peixe encontrados prova a abundância marinha do rio Tagus, hoje rio Tejo. Foram identificados sinais de “vários tipos de peixe e conchas, assim como choco”, mas também moluscos, nomeadamente “bivalves — principalmente ostras, mas também amêijoa — e gastrópodes como o búzio e a lapa. A maior descoberta, porém, foi uma maxila (peça óssea em que estão implementados os dentes) de uma portentosa corvina, que terá pesado 20 a 25 kg.

Na exposição são expostos os vestígios de animais encontrados nas escavações feitas na Rua da Saudade, em 2019

Esta foi “a primeira vez que foi registada corvina da época Romana”, ou seja, a primeira vez em que foram encontrados vestígios de corvinas como peixe que fazia parte da alimentação da época, afirmou ao Observador a arqueóloga e coordenadora do Museu de Lisboa – Teatro Romano, Lídia Fernandes. “Também não estavam registados em Lisboa veados [nesta época]”, acrescentou.

O trabalho de identificação dos restos de fauna encontrados foi feito pelo zoólogo Simon Davis.

Encontrados escritos com mais de 1.800 anos — em pedra portuguesa

Outras descobertas de grande relevo feita nas escavações de 2019 ao número 6 da Rua da Saudade, em Lisboa, foram duas inscrições romanas feitas em calcário — nomeadamente em pedra de lioz. Na face frontal da pedra de origem portuguesa está uma inscrição feita no ano 164 d.C., conclusão possível de tirar a partir do que está inscrito. Na face lateral da pedra, está uma outra inscrição que se presume poder ser do ano 57 d.C.

A epígrafe apareceu na fachada do imóvel do nº 6 aquando de obras de remodelação, dado o desejo do casal francês que se tornou proprietário de tornar o rés-do-chão uma garagem. Infelizmente, a inscrição frontal está danificada : lê-se apenas, já pós-tradução, “(…) sendo cônsules Marco Pompeio Macrino, Públio Juvêncio Celso; dúunviros [magistrados que exerciam funções em dupla] Marco Cecílio Emiliano, Q. Júlio Marceliano”. É a referência explícita aos cônsules e dúunvíros que então exerciam mandatos que permite situar a inscrição no ano 164 d.C., ou seja, há 1.856 anos — mas o “acontecimento de cariz solene” a que a inscrição aludiria já não é possível desvendar.

Na parte lateral da pedra portuguesa está uma inscrição que os investigadores supõem poder remontar ao ano 57 d.C. — portanto, há 1.963 anos —, também incompleta mas distinta. O que hoje se pode ler é: “[…] no tempo de Nero Cláudio [imperador Romano], filho do divino Cláudio, neto do César Germânico, bisneto de Tibério César, trineto do divino Augusto…”

As inscrições romanas com mais de 1.800 anos foram encontradas em pedra de lioz, pedra portuguesa com origem no distrito de Lisboa

“Todo o projeto” de remodelação do edifício “teve de ser refeito”

O grosso da intervenção arqueológica “demorou cerca de dois a três meses”, tendo-se depois arrastado mais porque “teve de haver uma adequação do projeto de engenharia e arquitetura [de remodelação do edifício] aos novos achados”, explicou Lídia Fernandes.

O projeto inicial do casal de francês que comprou o imóvel “implicava cortar o solo e colocar canalizações novas”, contou ainda a responsável do Museu de Lisboa – Teatro Romano. “Todo o projeto teve de ser refeito para ser colocado numa área que não tivesse o pavimento. Foi possível a obra ser feita, nada foi impeditivo, houve apenas algumas alterações ao projeto base”.

A obra demorou quase um ano. Porque depois da escavação parámos e fez-se alterações de projeto de engenharia. Fizeram a obra e fomos acompanhando”, referiu.

Os dois proprietários, que “compraram vários edifícios no número 6 da Rua da Saudade”, mostraram “uma enorme compreensão”, garantiu ainda Lídia Fernandes.

Intervenções destas “permitem contar a história das cidades ao longo dos tempos”

Um dos intuitos desta nova exposição passa por “mostrar a importância de fazer escavações arqueológicas em todo o solo”, referiu ainda Lídia Fernandes. “Estas descobertas e estas intervenções permitem-nos contar a história das cidades — e neste caso específico de Lisboa — ao longo dos tempos”, acrescentou.

Para o projeto, foi mesmo necessário “recorrer a outros especialistas além da equipa do museu”, que “é muito pequena” para “tanta e tão diversificada informação” encontrada nas escavações, explicou Lídia Fernandes.

As escavações foram feitas em 2019

Participaram no projeto, por exemplo, “três geólogos de três instituições distintas”, para ajudar a identificar a origem histórica dos materiais encontrados. A lista total de especialistas que trabalharam na identificação destes materiais e na produção dos textos da exposições inclui, além dos já citados, Carolina Grilo, Cristóvão Fonseca, Isabel Fernandes, Jorge Sequeira, José d’Encarnação e Victor Felipe.