O número de deslocados internos em Moçambique cresceu 2700% em dois anos e representa hoje 1,4% da população do país, sem ajuda que chegue, destaca um relatório do Centro de Integridade Pública (CIP), ONG moçambicana, divulgado esta segunda-feira.

“Cerca de 1,4% da população moçambicana encontra-se atualmente deslocada, devido aos ataques armados em Cabo Delgado e no centro do país”, ou seja, 424.002 afetados de um total de 29 milhões de habitantes, nota o documento.

O aumento de deslocados reflete o agravamento do conflito no norte do país, região rica em gás natural e cuja exploração está a atrair o maior investimento privado em África, da ordem dos 25 mil milhões de euros.

No final de 2018, em todo o país “havia cerca de 15.000 pessoas deslocadas internamente pelos conflitos armados em Cabo Delgado e na região centro”, mas esta segunda-feira o número atual de deslocados significa “um aumento de mais de 2.700% no número de pessoas deslocadas, em apenas dois anos”.

Do total de 86.562 famílias deslocadas, apenas 3.981 vivem em 13 centros de acolhimento instituídos pelo Governo e parceiros nas províncias de Cabo Delgado (seis), Nampula (quatro), Niassa (um) e Manica (duas).

O CIP realça que só 4,6% dos agregados familiares em fuga se encontram em centros de acolhimento, ou seja, quase todos os afetados na crise humanitária vivem “em agregados que os acolhem, na maioria dos casos sem o mínimo de condições básicas para garantir a sua sobrevivência”.

O Governo central deve instalar urgentemente centros de acolhimento para os deslocados que vivam em casas de familiares e amigos e receber com o mínimo de dignidade os deslocados que continuam a chegar das regiões sob ataque em Cabo Delgado”.

Na última semana, cerca de mil refugiados por dia chegaram às praias de Pemba, sul da província, segundo dados das autoridades e diversos relatos ouvidos pela Lusa.

O CIP recomenda ainda que o Governo investigue “os casos de furto de ajuda e abuso de mulheres e responsabilizar os culpados por seus atos, para evitar qualquer repetição”.

“Tendo em conta a quantidade insuficiente de alimentos distribuídos aos deslocados, o Governo deve intensificar a mobilização de apoios”, através do contacto com parceiros, empresários ou outros agentes, realça-se ainda no documento.

Outra das recomendações do relatório aponta para a necessidade de preparar o futuro, através de capacitação profissional e promoção de oportunidades – trabalho que o Governo anunciou, entretanto, através da criação da Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN).

“Pelo menos no início de 2021 não se vislumbra que a situação humanitária melhore”, disse à Lusa Borges Nhamire, investigador do CIP e um dos coautores do relatório.

Mesmo que haja uma acalmia no conflito, “as pessoas estão com medo. Mesmo que a situação se normalizasse, não quererão voltar”, referiu, dando o exemplo de uma mãe com quem falou no trabalho de campo para produção do documento.

Uma senhora tinha quatro filhos. Perdeu três no conflito. Não pensa certamente em retornar à aldeia de onde fugiu. É uma fuga da barbárie”.

O investigador referiu não acreditar que o número de pessoas que querem fugir venha a reduzir-se, “daí a necessidade de a sociedade se mobilizar”.

O conflito armado em Cabo Delgado dura há três anos, provocando entre 1.000 e 2.000 mortos, e alguns dos ataques da insurgência têm sido reivindicados desde junho de 2019 pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico, sendo que a verdadeira origem da violência continua sob debate.

Este ano, as incursões e a ocupação de vilas durante alguns períodos agravaram-se.

A diplomacia da União Europeia (UE) garantiu na quarta-feira “acompanhar de forma próxima” a onda de violência em Cabo Delgado, indicando que elegerá em “próximos diálogos políticos” com o Governo moçambicano a ajuda a disponibilizar.