No extremo sul do Arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau, encontra-se a ilha de Poilão, um local sagrado para o povo bijagó. A praia, com apenas dois quilómetros de comprimento, abriga a maior colónia de tartarugas-verdes do continente africano. Foi ali que, no dia 11 de setembro deste ano, Okinka desovou. Dois dias depois, a tartaruga regressou ao mar e iniciou a sua migração, rumo a norte. A 3 de Outubro, vinte dias e mil quilómetros percorridos depois, chegou ao Parque Nacional do Banco de Arguin, na Mauritânia, um local rico em pradarias de ervas-marinhas, um dos alimentos preferidos das Chelonia mydas.

No dia 23 de outubro a tartaruga estava a cerca de dois quilómetros da ilha de Kiji, fazendo apenas curtos percursos à volta do mesmo sítio. Esta deverá ser a sua casa, ou seja, a sua área de alimentação, pelo menos durante os meses de inverno.

Sabemos tudo isto graças ao transmissor por satélite que Ana Rita Patrício colocou em Okinka – que significa “rainha” na língua bijagó – e noutras tartarugas no dia 11 de setembro, quando a encontrou a depositar os ovos na praia. A Anindo (Céu) e a Kati (Estrela) também já iniciaram a migração a caminho do Banco de Arguin. A Etako (Lua) já chegou ao destino no Parque Nacional do Delta do Saloum, no Senegal, após ter percorrido cerca de quatrocentos quilómetros.

Graças ao transmissor instalado na carapaça de Okinka, os investigadores conseguiram identificar o percurso da tartaruga marinha, desde que desovou na ilha de Poilão, na Guiné-Bissau, a 11 de setembro, até chegar à Mauritânia, a 3 de outubro          ©TurtleResC

Os olhos de Ana Rita brilham quando fala das “suas” tartarugas. A bióloga marinha de 40 anos, investigadora no MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (polo do ISPA-Instituto Universitário) e na Universidade de Exeter, no Reino Unido, sempre adorou o oceano. Recorda-se de, em miúda, ver com entusiasmo os documentários de Jacques Cousteau e, já adolescente, passar muito tempo na praia, parte dele dentro de água. Isso levou-a a escolher a vertente de Recursos Animais Marinhos, quando tirou o curso de Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Depois de um estágio sobre a macrofauna de praias arenosas, feito na costa leste da Austrália, rumou a Porto Rico para trabalhar num projeto de conservação de tartarugas.

A ideia inicial era ficar um ano ou dois, mas apaixonou-se por aqueles animais e acabou por ficar seis, fazendo o mestrado na Universidade de Porto Rico. Quando tomou a decisão de regressar a este lado do mundo, em 2013, conseguiu uma bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia para fazer o doutoramento na Universidade de Exeter, em colaboração com o ISPA e com o Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas Dr. Alfredo Simão da Silva (IBAP – Guiné-Bissau), sobre as tartarugas-verdes que desovam no arquipélago dos Bijagós. Esta é também uma das populações que estará a estudar durante os próximos três anos, com o projecto Sea Turtle Resilience to Climate Change Impacts – TurtleResC’, vencedor de uma bolsa de Pós-Doutoramento Júnior Leader da Fundação “La Caixa”.

Espera-se que as mudanças climáticas globais tenham grandes impactos sobre a biodiversidade e sabe-se que as tartarugas marinhas estão entre as espécies mais suscetíveis a estas alterações”, explica Ana Rita.

Com este projeto, a investigadora quer perceber melhor como é que os animais vão lidar com estes impactos e qual será a sua capacidade de adaptação, de forma a planear desde já ações de conservação.

As tartarugas marinhas estão entre as espécies mais suscetíveis aos fatores ambientais, em geral, e às mudanças climáticas, em particular. “Por um lado, porque são animais ectotérmicos, ou seja, não regulam a sua temperatura internamente. Por outro lado, a subida do nível das águas do mar poderá vir a inundar as praias de desova. Além disso, têm um sistema de determinação do sexo que depende da temperatura”. É que, ao contrário da maioria dos animais, a determinação do sexo das tartarugas só acontece depois da fecundação: quanto mais alta for a temperatura de incubação, maior a probabilidade de nascer uma fêmea. Isso quer dizer que o nascimento de machos pode estar ameaçado com o aquecimento global, havendo mesmo alguns estudos que sugerem que, em 2100, em algumas partes do mundo, eles deixem simplesmente de nascer.

“A verdade é que não sabemos”, diz a investigadora, que olha para essas conclusões com prudência. “De facto, em alguns sítios, a situação já é preocupante porque 95% dos nascimentos são de fêmeas, mas a tendência ainda não é geral. Temos verificado que nascem mais crias fêmeas na maioria das praias de desova, mas isso não é necessariamente mau: um macho pode acasalar várias vezes, portanto, se houver mais fêmeas, vai haver mais ovos e a população vai crescer. O que ainda não sabemos e precisamos de saber é qual o limite mínimo de machos reprodutores.”

8 fotos

Para conseguir prever como é que as tartarugas vão responder às alterações climáticas, a investigadora precisa de ter alguma informação de base, nomeadamente a distribuição espacial dos animais na costa do Atlântico. Para isso, vai usar duas estratégias: a primeira são os estudos genéticos, que permitem perceber a ascendência dos animais, ou seja, de onde vêm; a segunda, a telemetria por satélite, que fornece informação sobre a localização das tartarugas em tempo real.

É que, apesar de serem vistas sobretudo nas praias, na altura das desovas, o habitat das tartarugas marinhas é o mar. Assim que os ovos eclodem, as pequenas crias correm em direção à água. Depois passam anos em alto-mar, em zonas de alimentação a centenas ou milhares de quilómetros da praia onde nasceram, só voltando a terra na altura de se reproduzirem, quando atingem a maturidade sexual, pelos 15 ou 20 anos. E é então que acontece uma coisa curiosa: não importa quão longe estejam, na altura de acasalar e desovar, regressam sempre à região onde nasceram, orientando-se pelo campo geomagnético do planeta.

Idealmente, daqui a três anos, no fim do projeto, com um maior conhecimento sobre a distribuição espacial das tartarugas no Atlântico e as conectividades que estabelecem ao longo da costa, será possível perceber melhor a que ameaças as tartarugas estão sujeitas.

Está a ser incrível: já descobrimos que elas estão a parar precisamente nas áreas marinhas protegidas (AMP) que existem ao longo da costa, em países como o Senegal, a Gâmbia e a Mauritânia, o que reforça a importância destas zonas”, esclarece a bióloga. Com os resultados da investigação os gestores de biodiversidade destes países podem redefinir os seus planos de ação, “seja delimitando melhor as áreas protegidas, seja definindo novas áreas que precisam de proteção.”

As tartarugas-verdes (Chelonia mydas) estão distribuídas pelos oceanos e zonas costeiras tropicais, sub-tropicais e temperadas quentes, ocorrendo no Atlântico, Pacífico, Índico e Mediterrâneo. “Há várias populações com grande expressão, sendo a maior na Raine Island, na Austrália, seguida pela população nidificante na praia de Tortuguero, na Costa Rica”, diz a investigadora. Há estudos em curso para estimar a população total, mas não há, até ao momento, resultados fidedignos.

Também não se sabe exatamente quantos anos vivem. “É muito difícil seguir estes animais ao longo de toda a sua vida, sendo impossível seguir o mesmo indivíduo desde a eclosão e dispersão oceânica dos primeiros anos de vida até retornar às zonas costeiras onde depois crescem e vivem. No entanto, alguns estudos genéticos sugerem uma longevidade média de 75 anos”, explica a bióloga. Além disso, estes animais crescem durante toda a vida, apesar de pouco a cada ano em adultas. Podem medir entre 80 a 150 cm de comprimento de carapaça e o tamanho está relacionado com a nutrição. Okinka, por exemplo, terá entre 20 e 65 anos. A única forma de ter a certeza da idade é através da análise dos anéis de crescimento nos ossos, o que não é possível fazer com os animais vivos.

Ana Rita Patrício escolheu a vertente de Recursos Animais Marinhos, quando tirou o curso de Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Depois de um trabalhar num projeto de conservação de tartarugas em Porto Rico, apaixonou-se pelo estudo deste animal

Pode haver quem se pergunte: porque é que as tartarugas marinhas importam? Ana Rita parece estar habituada à pergunta. Sorri e começa rapidamente a enumerar uma série de factos que mostram como na natureza tudo está ligado a tudo. “Os ovos que não eclodem, depositados nas praias, contribuem com nutrientes que ajudam a fazer crescer a vegetação costeira. As crias das tartarugas marinhas são uma enorme fonte de alimento para aves, caranguejos e peixes predadores. Elas regulam outros ecossistemas – a tartaruga-de-couro [Dermochelys coriacea], por exemplo, come alforrecas e o controlo desta população é essencial porque estas, por sua vez, comem larvas de peixes, alguns de interesse comercial e económico para nós: se há muitas alforrecas, estes peixes ficam menos disponíveis. As tartarugas têm também um papel importante na manutenção dos recifes de corais, que são por sua vez um berçário para várias espécies. A investigação e proteção das tartarugas marinhas está a criar empregos na área da conservação e do ecoturismo em muitos países em vias de desenvolvimento.”

Além disso, lembra a investigadora, por serem um animal de que as pessoas geralmente gostam, podem ser usadas precisamente como bandeira. “São uma espécie em nome da qual se conseguem conservar uma série de outras espécies e ecossistemas que são menos apelativos. Consegue-se mais facilmente apoio e financiamento para proteger estas mais carismáticas.”

O ISPA – que além de cursos de psicologia forma também profissionais na área da educação e biologia – é um dos sete polos do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, um organismo de investigação científica, desenvolvimento tecnológico e inovação que junta profissionais de sete diferentes instituições académicas nacionais. A ligação ao oceano é assim uma das prioridades do instituto universitário e é na biblioteca da sede, perto da estação de Santa Apolónia, em Lisboa, que Ana Rita Patrício confessa sentir falta de estar no terreno, já que a pandemia veio condicionar as viagens. Não só por causa das tartarugas, mas também das pessoas.

Envolver as comunidades locais

Mostrar Esconder

Trabalhar com as populações locais e ver as suas mudanças de comportamento é uma das melhores partes do trabalho, diz a investigadora.

“Comecei a trabalhar na Guiné-Bissau em 2013, em colaboração com o Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas Dr. Alfredo Simão da Silva (IBAP – Guiné-Bissau). O  trabalho é sempre feito com colaboradores locais das aldeias próximas da ilha de Poilão, e, ao longo destes anos, a mentalidade destes jovens mudou bastante. Já não capturam tartarugas e, quando termina a temporada de trabalho no campo e regressam às suas aldeias, é de sua livre iniciativa que montam uma banca para sensibilizar a comunidade para a importância da conservação destas espécies.”

Os nomes das tartarugas, como Okinka, de resto, são escolhidos pelos colaboradores dos Bijagós, na língua da ilha de Canhabaque, onde se encontra a tabanca (aldeia) de Ambeno, a “proprietária” tradicional da ilha de Poilão. Estão quase todos ligados ao mar e às coisas que é possível ver de noite, pois é nessa altura que as tartarugas saem às centenas do mar e sobem à praia para desovar.

O trabalho de Ana Rita Patrício está longe de estar concluído e por todo o mundo há centenas de investigadores como ela que tentam perceber melhor como as alterações climáticas afetam esta espécie. A informação que conseguirem recolher será vital para a preservação das tartarugas. E do planeta também.

Este artigo faz parte de uma série sobre investigação científica de ponta e é uma parceria entre o Observador, a Fundação “la Caixa” e o BPI. O projeto SeaTurtleResilience to ClimateChangeImpacts – TurtleResC,  de Ana Rita Patrício do ISPA-Instituto Universitário/ Universidade de Exeter, foi um dos 45 selecionados (nove de Portugal) – entre 575 candidaturas – para financiamento pela fundação sediada em Barcelona, ao abrigo da edição de 2020 do programa de bolsas de Pós-Doutoramento Junior Leader. A investigadora recebeu  292.500 euros por três anos. As bolsas Junior Leader apoiam a contratação de investigadores que pretendam continuar a carreira em Portugal ou Espanha nas áreas das ciências da saúde e da vida, da tecnologia, da física, da engenharia e da matemática. As candidaturas para a edição de 2021 encerraram a 7 de outubro e para a edição de 2022 deverão abrir no verão próximo verão (data a anunciar).