A cidade de Paredes tem estado mais inquieta nos últimos dias. A azáfama no estádio foi visível, nas ruas não se comenta outra coisa e nos vários cafés da cidade há cachecóis com metade a azul e a outra a vermelho, expostos ao balcão para serem vendidos. “Parece que nunca mais chega o dia”, comenta-se num dos estabelecimentos. Este sábado disputa-se a Taça de Portugal na cidade. E não é um dia qualquer: o União Sport Clube de Paredes vai defrontar pela segunda vez na história o Benfica, que também conta com muitos adeptos na zona. O dia era para ser de festa nas ruas, mas a pandemia de Covid-19 veio trocar as voltas e impedir grande parte dos planos.

“Tenho muita pena de ter uma oportunidade destas, de vir cá um grande clube como o Benfica, e a Covid-19 vir estragar isto tudo. Ia ser uma festa lindíssima. Gostava de ver muita gente no estádio, tudo a aplaudir, cada um a defender o seu, mas pronto, ficamos em casa”, lamenta Céu Melo, membro da direção do Paredes desde 1989.

A ligação ao clube da terra começou com a família e hoje todos conhecem “a Céu” que, garante, também não esquece os nomes e caras de todos os que passam pelo clube. “Aquilo é uma vida, é uma felicidade”, sublinha ao Observador.

Como Paredes integra os 191 concelhos de risco elevado devido à Covid-19, a partir das 13h ninguém pode sair de casa. A ideia de receber as equipas e assistir ao jogo na Cidade Desportiva de Paredes não vai, por isso, ser possível. Ainda assim, os paredenses não escondem “o orgulho que é receber um grande” e garantem que de tudo vão fazer para que o dia fique marcado. A festa será “agridoce” e, desta vez, “feita em frente ao ecrã”.

Tenho muito orgulho na minha equipa. O Paredes tem uma equipa fantástica, muito bem organizada, muito bem orientada pelo mister Eurico Couto e tem um jogo aberto, bonito. Não usa muito aquilo que costumam chamar de ‘o autocarro’. É um futebol aberto e bonito”, descreve Céu Melo.

O desejo e pedido de muitos paredenses, tal como de Céu Melo, é o de que a equipa que ocupa atualmente o segundo lugar da série C do Campeonato de Portugal faça um bom jogo e dê luta à equipa de Jorge Jesus. “Espero que o Benfica tenha um pequeno deslize. Queria gritar golo em minha casa. Vou estar com o cachecol do Paredes-Benfica e claro que gostava que o grito saísse ‘Paredes’, seja o Tó, seja o Ismael, até pode ser o guarda-redes a marcar o golo. Marcar um golo a um grande…eu nem tenho explicação possível“, descreve, garantindo que o desejo é “a 100% que o Paredes ganhe”, apesar de reconhecer a superioridade dos encarnados.

Mais dividido está Miguel Couto, presidente da Casa do Benfica de Paredes, a maior fora da capital, e também vice-presidente do União Sport Clube de Paredes, e irmão do treinador Eurico Couto. “São dois amores: um é o clube onde nasci, cresci e onde tenho uma colaboração muito ativa, que é o Paredes, e depois tenho a ligação à Casa do Benfica, porque sou benfiquista”, explica ao Observador. Como é “um jogo difícil de escolher o lado”, Miguel Couto só quer uma coisa: “Que ganhe o melhor”.

E quando se é do Paredes e do Benfica?

Na mesma situação está também João Moreira, que coordena o café da sede do Paredes. “Sou sócio dos dois clubes, é um misto de emoções. Ver o clube do coração, que é o Benfica, e o Paredes, que é o clube da terra e que cresceu comigo, jogarem juntos é uma alegria muito grande”, descreve, lamentando que a situação da pandemia tenha impedido uma festa maior. “Este jogo é uma montra para tudo: para os jogadores, treinador, cidade e para o clube”, explica.

Miguel Couto admite que esta “vai ser uma festa diferente, feita quase com cada um em sua casa e a ver pela televisão”. A Casa do Benfica, que em dias normais estaria cheia para assistir à transmissão do jogo, vai estar encerrada e os planos para receber as equipas foram cancelados.

“O Benfica nunca tinha vindo mesmo à cidade. Já tinha vindo jogar com o Paredes [em 1985], mas foi jogar ao campo do Penafiel. Esta visita, sendo mesmo em Paredes, é algo muito especial e isso tem-se notado nos cachecóis que temos vendido que vêm do Paredes para a Casa do Benfica: todos os que aqui chegam voaram e esgotaram”.

Um estádio melhorado e balneários estreados no dia da Taça de Portugal

Na Cidade Desportiva de Paredes, os últimos tempos têm sido de muito trabalho e movimento. Tudo porque, a partir deste sábado, há novidades no estádio, como enumera Alexandre Almeida, presidente da Câmara Municipal de Paredes: “Temos quatro balneários de equipas, mais dois balneários para árbitros, com sala de fisioterapia, com e de tratamentos médicos e sala de conferências. Depois, tendo em conta a receção do Benfica, tivemos que fazer melhorias nas instalações do campo principal ao nível da iluminação e da instalação de umas torres, para que possa haver uma transmissão televisiva noturna”. Até agora, os balneários eram em contentores provisórios.

Já era previsto que as mudanças acontecessem até ao final do ano, explica o autarca, mas o jogo com os encarnados veio acelerar o processo. “Todos nos vamos lembrar que aqueles balneários foram estreados pela equipa do União Sport Club de Paredes, num jogo que fez com a equipa do Benfica”, explica ao Observador, acrescentando que tem visto “um espírito muito positivo” na equipa do Paredes e “uma vontade muito grande de os jogadores partilharem o palco com uma equipa da primeira liga”. Também Miguel Couto, presidente da Casa do Benfica e vice-presidente do Paredes, tem ajudado a coordenar os trabalhos para que tudo esteja pronto no jogo desta noite.

Alexandre Almeida só lamenta, tal como todos em Paredes, que a pandemia tenha impedido os planos. Até porque, garante, não tem dúvidas de que “a moldura humana ia ser muito grande no estádio e mesmo na receção das equipas ao complexo”. “Ainda assim, continua a ser uma forma de promover o clube e concelho e quisemos ter as instalações devidamente preparadas”, garante.

O União Sport Clube de Paredes recebe este sábado, às 21h15, o Benfica, a contar para a terceira eliminatória da Taça de Portugal.