Mais um sinal de dessintonia entre a direção e a liderança da bancada do CDS. Desta vez, Telmo Correia assume publicamente que preferia que o partido tivesse votado a favor da renovação o do estado de emergência tal como fez nas últimas quatro votações. Numa declaração de voto entregue no Parlamento, o democrata-cristão sublinha que foi a direção do partido a definir a abstenção e diz que teve de se “conformar” com a posição assumida por Francisco Rodrigues dos Santos.

“Teria preferido o voto favorável mantendo a estabilidade da posição do CDS. Posição em que, não colocando em nada em causa nem a competência nem a legitimidade de quem definiu a orientação de voto, verifiquei com tranquilidade pessoal ser acompanhada pelos últimos seis líderes parlamentares do CDS“, escreve Telmo Correia.

Na sexta-feira, o Parlamento aprovou a renovação do estado de emergência desta vez apenas com os votos a favor de PS, PSD e da deputada não-inscrita Cristina Rodrigues. Os democratas-cristãos acabaram por mudar de sentido de voto e optar antes pela abstenção.

Na declaração de voto que entregou no Parlamento, Telmo Correia não deixa de reconhecer que o Governo esteve mal ao agir “sem transparência” em relação às medidas que veio a tomar na sequência do estado de emergência e acusa o Executivo socialista de revelar “falta de coerência”.

Ainda assim, sugere o líder da bancada parlamentar do CDS, a prioridade do partido deveria ter sido outra. “O CDS depois de ter votado favoravelmente os anteriores quatro estados de emergência, nesta votação alterou o seu voto para a abstenção. Nas votações de Estado de Emergência foi sempre entendido pelo partido dar prioridade à questão sanitária. Ao definir a sua votação como abstenção, de acordo com indicação expressa por parte do órgão competente que é a direção do partido o CDS valorizou, nesta votação, a forma como o Governo agiu sem transparência ao não comunicar aos partidos e ao Parlamento as suas medidas”, sublinha Telmo Correia.

A terminar, o democrata-cristão volta a insistir na crítica: se o voto do CDS tivesse sido determinante para ditar um eventual chumbo do estado de emergência, algo que não veio a acontecer graças aos votos de PS e PSD, isso teria sido uma “irresponsabilidade”.

“Se o Governo podia e devia ter partilhado as suas intenções e os contornos das suas medidas, ainda assim, negar a um Governo, por errático que ele seja (mas não há outro) a possibilidade de tomar medidas seria irresponsável. Não foi essa a posição do CDS e por isso conformei a minha posição com a indicação de voto no sentido da abstenção, independentemente da minha preferência”, nota Telmo Correia.

Vice do CDS critica Telmo Correia

Entretanto, Filipe Lobo D’Ávila já reagiu à tomada de posição de Telmo Correia reforçando a posição do CDS: o partido não podia continuar a passar “cheques em branco” ao Governo de António Costa.

“Irresponsabilidade seria votar a renovação de um estado de emergência sem conhecer as medidas que o Governo pretendia implementar e sobretudo fazê-lo na sequência de um estado de emergência em que a incompetência do Governo já era evidente para todos os portugueses. No dia em que o CDS servir para passar cheques em branco a quem já demonstrou ser incompetente para gerir a mais grave crise de saúde pública que se viu em Portugal então serei eu a estar a mais”, escreveu o vice-presidente do CDS.

A posição de Telmo Correia também não é unânime dentro do grupo parlamentar do CDS. João Almeida, adversário de Francisco Rodrigues dos Santos nas últimas eleições internas, recorreu ao Facebook para criticar o Governo e defender a posição do partido. “O CDS não podia continuar a favor de renovações que caucionam a incompetência e a inconsequência”, escreveu o democrata-cristão.

Líder do CDS queixa-se de “sabotagem interna” e não esconde o desconforto com o próprio grupo parlamentar