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O batom vermelho foi a “primeira grande lição destes dias aos insultos da extrema-direita” e a segunda vai chegar no dia das eleições, quando os portugueses forem às urnas de “cabeça erguida” para mostrar que têm “orgulho na liberdade, na democracia e na igualdade”. Três dias depois está dada a resposta mais direta de Marisa Matias a André Ventura, uma resposta em jeito de crença nos portugueses, a quem pede coragem na hora de irem votar.

É essa atitude que a candidata a Belém quer ver este domingo e no dia 24 de janeiro, com “coragem, dignidade e solidariedade”. “Damos as mãos com o nosso voto. Façamos do nosso voto o abraço que nos falta nesta pandemia”, apela Marisa Matias, no comício de Viseu, onde agita as bandeiras da candidatura.

Uma dessas bandeiras é o SNS, que Marisa tem referido praticamente todos os dias na estrada e que continua a lembrar no pior dia da crise pandémica em Portugal. “O SNS está a fazer o combate mais importante da sua história” e a eurodeputada considera que “ainda há tempo para dar todos os meios, equipamentos e profissionais para fazer o que só o SNS sabe fazer”.

As restrições que se vivem em Portugal “exigem enormes sacrifícios” e Marisa recusa que se aproveite esse sofrimento para “fazer negócio”. “Ninguém compreende que se dê apoios de miséria ou nenhum apoio a quem mais precisa, enquanto se paga a preços de oportunismo a quem se aproveita”, aponta com as armas que tem usado para criticar o Governo e o Presidente da República na questão da saúde, inclusive no que toca aos privados e às requisições civis.

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Não estão em causa “coisinhas”, está-se a falar de “pessoas”, das “dificuldades contra privilégios”, da “democracia contra discriminações”, refere, enquanto descreve o país em que não quer viver nem ser Presidente da República: “No meu país não quero que haja gente a viver com medo da violência racista ou machista, com medo do desemprego, com medo do inverno nas casas frias, com medo de não ter dinheiro para comprar medicamentos. Os direitos essenciais devem unir toda a gente que cá vive e trabalha.”

“Nós não temos medo!” Pureza pinta os lábios entre críticas a Marcelo e Ventura

Pouco antes, subia ao púlpito um amigo de há várias vidas que veio com tudo para atacar Marcelo Rebelo de Sousa, André Ventura e a extrema-direita. Foi a vez de José Manuel Pureza defender a “Marisa de quem nos lembramos” quando se ouve falar de refugiados, cuidadores informais, da contrafação de medicamento, de ambientalismo ou feminismo. “Pensamos na Marisa e é nos direitos de todos e de todas, ao longo da vida toda, incluindo o seu fim, que nos lembramos”, elogia o dirigente do Bloco de Esquerda.

Nuno André Ferreira/Lusa

Pureza recorda as primeira palavras de Marisa Matias no dia da candidatura a Belém, no sítio onde “tinha de ser”, no Largo do Carmo. “A candidata contra o medo”, recorda. “É isso mesmo, a Marisa é uma lutadora das lutas todas contra o medo” e logo nestas eleições que, diz, são sobre a “determinação de enfrentar os medos mais atávicos e mudar o país com critérios de justiça”.

Não há dúvidas para o bloquista sobre o mais importante nestas presidenciais: “A força que vai ter quem não tem medo de enfrentar os medos impostos pelos de sempre”. É o mote para o desenrolar de críticas, com o dedo apontado a Marcelo Rebelo de Sousa que diz ser um “porta-voz” que diz ter “medo de enfrentar a banca, o patronato, os grupos privados na saúde”.

“Quem deserta desta campanha para escancaradamente apoiar Marcelo Rebelo de Sousa faz desses medos o seu programa”, alerta. Mas havia mais críticas para o Presidente da República que Pureza diz ser “politicamente o que é” e como mostrou em casos como o Banif, o Novo Banco, nas leis de trabalho da troika ou na ameaça de veto da Lei de Bases da Saúde. “O país não conta com Marcelo Rebelo de Sousa para nenhuma das mudanças de fundo no trabalho, na saúde e ou na regulação do sistema financeiro de que precisamos para sermos um país justo”, frisando que “ninguém tem dúvidas de que esta é a linha do segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa”.

Além de ser a candidata “destes medos”, Marisa é também a candidata contra os “medos da intimidação boçal e rasca”. As palavras eram para André Ventura. “Essa boçalidade e rasquice são farronca que esconde o medo quase infantil que o candidato do fascismo tem das mulheres, da sua liberdade e da sua autonomia Quem se amedronta com o candidato do fascismo faz-lhe um imenso favor. Visivelmente, Marisa amedronta candidato do fascismo. Ainda bem.”

Pureza recusa o medo, pega no batom, pinta os lábios de vermelho em nome do movimento contra o fascismo, num exercício de “frontalidade contra o medo”: “Nós não temos medo!”

Marisa visitou pedreira de onde saiu pedra que Soeiro levou à Convenção bloquista

“Finalmente”, Marisa Matias foi conhecer o monte de Peroselo de onde José Soeiro levou uma pedra para uma Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, em Lisboa. Hoje sem máquinas a trabalhar e sem barulho porque é sábado, dia de folga. José Teixeira, um dos protagonistas desta luta por direitos na reforma antecipada em profissão de desgaste rápido, lembra-se bem desse momento. “É daqui aquela pedra.” Marisa já se tinha encontrado com os trabalhadores em Penafiel e Bruxelas e vem cá na campanha para mostrar que as leis precisam de sair do papel. A lei que devolve os direitos aos pedreiros sobre a reforma antecipada foi aprovada, mas na prática a maioria dos pedreiros continua na mesma situação. “Não se admite”, desabafa, “de vez em quando sai um e é como dar um rebuçado a uma criança”. Em 2020, dos 10 pedidos na freguesia apenas um viu luz verde.

António Sousa Nogueira é um dos pedreiros que tentou a sorte e o único que conseguiu. Foi penalizado pelos antigos descontos (e pela falta de informação sobre antigos empregadores) e vai receber 413 euros de reforma. Se não fosse penalizado o valor subia para “perto de 500 euros”, o que acabou por não acontecer. O pedreiro tem 40 anos de descontos na área e a Segurança Social justifica que muitos destes anos foram de “descontos baixos” e que a penalização por causa do fator de sustentabilidade não ficou de fora. Há possibilidade de um recalculo se a lei mudar e José Soeiro alerta que “vai ter sempre de meter papéis”.

As “exigências são muitas” e o processo “vai demorando” porque enquanto não vier “dinheiro está do lado do Estado”, diz José Teixeira. Marisa Matias vai mais longe e fala numa “interpretação maldosa da lei”, enquanto José Soeiro explica que está prevista a declaração sob compromisso de honra para que os descontos abranjam todos os trabalhos e depois “não aceitam”. “Se têm dúvidas venham cá”, atira um dos trabalhadores, ao que o deputado do Bloco acrescenta que se peçam testemunhas, pessoas que trabalharam juntas durante todos estes anos. O compromisso de honra é “uma figura da lei”, está previsto nesta lei.

Marisa Matias insiste que “a lei não pode estar apenas no papel, tem de ser cumprida” e no caso das profissões de resgate rápido mantém-se um “corte inaceitável” relativo ao fator de sustentabilidade e há “atrasos no processamento dos pedidos de reforma”. Pelo caminho, os pedreiros enfrentam ainda problemas por recorrerem ao compromisso de honra, pelo facto de muitas das empresas já não existirem, mas muitas vezes sem sucesso.

“As leis e conquistas têm de ser traduzidas nas vidas das pessoas.” Aqui há um ponto em comum com os cuidadores informais, diz Marisa Matias, após dois pedreiros darem exemplos de que familiares que ainda não conseguiram subsídios apesar de viverem num dos municípios em que há projetos-piloto, Penafiel. No Orçamento do Estado estão previstos 30 milhões de euros e, segundo o Público, até ao final de novembro não foram gastos nem 1%.

“Com tanta gente a precisar desse apoio e que tem direito a esse apoio, não foi por falta da verba orçamentada, foi por não cumprimento do que está na lei não ter chegado às pessoas”, alerta.

Além de assegurar que é “fundamental” por parte do Presidente da República “fazer valer os direitos de quem trabalha” e “exercer a sua influência” para que direitos sejam reconhecidos. Mas há criticas também ao Governo porque a lei, apesar de estar aprovada, tem “bloqueios” e para que isso não aconteça tem de haver “orientações claras”.

À saída da pedreira, e questionada sobre a possibilidade de união das esquerdas, depois de Ana Gomes ter insistido na ideia, Marisa Matias fugiu ao assunto. Na sexta-feira de manhã, já depois de Marisa Matias ter garantido que não desistia, e em resposta ao apelo de Rui Tavares, a socialista escreveu que não será por si que “a esquerda não converge antes das eleições”.

E se o voto no dia das eleições é que conta, a um dia dos votos antecipados, Marisa Matias tem visto nas ruas “uma vontade enorme das pessoas o seu direito de voto”, principalmente tendo em conta “a quantidade de pessoas que resolveu inscrever-se para votar no voto antecipado, que demonstraram ter essa vontade”.