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“Pareceu-me um penálti óbvio, não me pareceu uma boa decisão do Andre Marriner no lance do [Sadio] Mané. Virei-me para o quarto árbitro, perguntei se iam ver o lance no VAR e respondeu-me que não havia qualquer falta. O Manchester United teve mais penáltis a favor nos últimos dois anos do que eu desde que cheguei a Inglaterra, há cinco anos e meio. Não se se a culpa é minha ou como é que isso é possível… Mas não quero que isso seja uma desculpa para aquilo que aconteceu hoje…”. Depois da derrota frente ao Southampton que permitiu aos red devils subirem ao primeiro lugar da Premier League ao vencerem pela margem mínima o jogo que tinham em atraso com o Burnley, Jürgen Klopp não quis desculpabilizar o desaire pela arbitragem mas deixou o “toque” para contas que teriam de ser preparadas de forma prévia e que visavam também o lançamento do próximo jogo, com a receção ao Manchester United em Anfield num clássico entre as duas formações com mais títulos. 

Pogba foi o devil que colocou o Manchester United na liderança 1.221 dias depois antes do clássico com os reds em Liverpool

Na altura, ninguém respondeu. E quando alguém o fez, foi de novo o suspeito do costume que ainda não fez um ano sequer em Old Trafford: Bruno Fernandes. “As pessoas podem dizer o que quiserem. Para mim e para a equipa, o importante é continuar a fazer as coisas certas e, quando tivermos um penálti, marcarmos. Não ouço o que dizem e, honestamente, não quero saber. Não estou preocupado com o que os outros dizem. Joguei em Portugal e, quando jogas no Sporting, no Benfica ou no FC Porto, estão sempre a falar desse tipo de coisas. Umas vezes para pressionar os árbitros, outras vezes só para fazer barulho na imprensa. Para mim, o mais importante de um penálti é pegar na bola e fazer o meu trabalho”, destacou, ao mesmo tempo que utilizou os três últimos castigos máximos falhados por Sterling no Manchester City para dizer que “marcar não é tão fácil como parece”.

O português surgia mais uma vez em destaque na antecâmara do jogo grande da jornada onde se ia discutir o topo da Premier League, numa semana em que fez história também por ter sido o primeiro a ganhar em quatro ocasiões o prémio de Melhor Jogador do Mês, neste caso relativamente a dezembro onde marcou três golos e fez ainda mais quatro assistências. “Foi um mês completo para mim, marcar e assistir para os companheiros é perfeito. Quero conseguir outros troféus e prémios mas estou muito feliz por fazer história. Liderança e título? Ainda é cedo para se começar a falar no Manchester United campeão…”, assumiu na altura da entrega do prémio. “Tem dons transcendentes, óbvios para todos, que conquistaram um lugar no caminho do futebol para o estrelato”, resumia este sábado o The New York Times, numa reportagem sobre a ascensão do internacional português.

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“É um jogador sensacional. Antes de assinar pelo Manchester United jogámos contra ele, quando estava no Sporting, num torneio nos EUA. Naquele jogo já foi possível ver que fazia a diferença e é isso que está a mostrar agora. Está adaptado e é um jogador muito influente. Sei que as pessoas falam muitos dos seus golos, que é muito importante mas está ligado a outras situações. Não o conheço suficientemente bem para julgá-lo mas também parece um líder”, assumiu Klopp. “É um grande jogador e um amigo fora de campo, um tipo com quem nos damos muito bem. Os números dele são grandes, faz muitos golos e assistências. Está a ajudar-nos muito e ali do meio-campo para frente sabemos que ele comanda. Esperamos que ele continue na melhor fase. E vai lutar pelo título de melhor do mundo, hein? Se formos campeões, com certeza”, vaticinou o companheiro Fred.

O destaque era o do costume mas nem só do português seria feita a história deste jogo pelo Manchester United. Nos últimos encontros optou por uma estrutura assimétrica do meio-campo para a frente com Rashford mais na direita e Pogba como um falso médio esquerdo a jogar muitas vezes por dentro para dar liberdade de subida ao lateral Luke Shaw; esta tarde, Solskjaer quis surpreender e colocou Martial mais na esquerda, Pogba como falso ala na direita e Rashford em terrenos mais centrais. Do outro lado o Liverpool, depois de apostar em Rhys Williams no centro da defesa na goleada ao Aston Villa, voltou a colocar em campo uma equipa sem centrais como na derrota com o Southampton, tendo Henderson e Fabinho atrás, Thiago e Wijnaldum à sua frente, Shaquiri no apoio ao tridente ofensivo com Mané, Salah e Firmino e dois laterais ofensivos, Alexander-Arnold e Robertson. Aliás, em determinadas alturas, os reds desenhavam uma estrutura de 2x3x2x3, quando Wijnaldum subia mais.

Isso foi sinónimo de mais bola, de maior controlo e de um jogo passado sobretudo no meio-campo adversário mas nem por isso sinónimo de oportunidades. Robertson, Shaquiri e Salah tiveram remates que saíram por cima e ao lado mas David de Gea não fez qualquer defesa à semelhança de Allison, que apanhou o maior susto num livre direto de Bruno Fernandes que saiu a rasar o poste (34′) entre outras saídas com algum perigo sobretudo a partir da meia hora mas que nunca colocaram Rashford e Martial em zona de remate. Menos unidades defensivas não foram significado de melhor jogo ofensivo e o intervalo chegou sem golos num clássico intenso mas demasiado preso às circunstâncias táticas preparadas para o duelo sem que o individual conseguisse desequilibrar.

No segundo tempo, o Manchester United conseguiu mais vezes encontrar espaços para sair em transição, teve mais Bruno Fernandes e Pogba no jogo e viu o Liverpool com menor capacidade para manter a pressão na frente que foi fazendo em alguns momentos da primeira parte. Problema? Era um jogo sem balizas. E as únicas exceções até aos 20 minutos finais foram um remate de meia distância do português para defesa difícil mas segura de Alisson (65′) e um cabeceamento fraco e à figura de Pogba após canto (70′). Nem assim Klopp mexeu (Curtis Jones foi a primeira alteração aos 75′), com Solskjaer a lançar Cavani no lugar de Martial e a dar outra capacidade no ataque com e sem bola, que valeu a melhor oportunidade até aí no encontro no seguimento de um lance coletivo bem construído onde Rashford deixou para o cruzamento de Luka Shaw na esquerda, Bruno Fernandes desviou na área mas Alisson conseguiu defender com o pé (74′). O encontro entrava na fase de todas as decisões.

Thiago Alcântara, que fazia a estreia em Anfield mas ainda sem fazer a diferença como nos melhores momentos, ainda fez o primeiro remate enquadrado para defesa de David de Gea mas foram os visitantes não só a mostrar uma grande solidez defensiva, com Fred e McTominay a terem um papel determinante à frente dos centrais, mas também a irem à procura de algo mais do que o empate, com Pogba a ter nos pés mais uma oportunidade flagrante para inaugurar o marcador sozinho na área mas com Alisson a desviar por instinto para canto (84′). Seria essa a última chance do jogo, com Bruno Fernandes a sair contrariado e a protestar aos 89′ para dar lugar a Greenwood antes de um período de descontos sem incidências e que manteve o nulo que beneficiou mais o Manchester United, líder isolado da prova com mais três pontos do que o campeão Liverpool.