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Perante a catadupa de resultados positivos naquela que deveria ser a penúltima ou a última ronda de testes antes da meia-final da Taça da Liga, realizados também por haver a suspeita de que os três casos positivos detetados na antecâmara da deslocação ao Dragão poderiam não ser únicos, Jorge Jesus não teve outra alternativa a não ser dividir os elementos aptos em dois grupos para fazer com eles o último treino antes do encontro com o Sp. Braga – e quando saiu do Seixal, por apresentar alguns sintomas, ainda fez um novo teste para garantir que continuava negativo, como acabou por acontecer. Os jogadores, esses, começaram a sair do Centro de Estágio por volta das 13h, como se fosse mais um dia normal. Que não era, tudo menos isso. E não houve conferência nem estágio.

Mesmo fora do próprio quintal, continua a ser um Horta a ditar as leis (a crónica do Sp. Braga-Benfica)

Ao anunciar em comunicado oficial a existência de 17 casos detetados desde sábado, a que se juntavam mais três que vinham da ronda de testes de quinta-feira, os encarnados ainda se colocaram nas mãos das autoridades de saúde, no sentido de poder haver um isolamento de todos os elementos não infetados no grupo mas, perante a ausência de uma resposta, anunciaram ao final da tarde que iriam marcar presença em Leiria. Com uma boa notícia na manhã seguinte, com duas más notícias na manhã seguinte: Everton, que estava em isolamento, podia ir a jogo frente ao Sp. Braga mas Otamendi e Nuno Tavares, também eles infetados, estavam de fora.

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Desta forma, a lista de convocados acabou por ser quase matemática, com os 20 jogadores aptos a irem para a ficha de jogo num dia que começou com a equipa a concentrar-se no Seixal, a seguir em dois autocarros (como tem vindo a acontecer desde o início da pandemia) para a Batalha, onde almoçou e esteve em estágio até à hora da partida para o Estádio Magalhães Pessoa. No aquecimento, alguns elementos que trabalham com outras equipas no Benfica Campus estiveram também no relvado mas, mais tarde, e além dos suplentes, estiveram apenas no banco principal ao lado de Jorge Jesus quatro “resistentes” da equipa principal: Rui Costa (vice e administrador da SAD), Félix Guerreiro (delegado), Ricardo Antunes (médico) e Cláudio Correia (fisioterapeuta).

A certa altura da segunda parte, e numa das imagens curiosas ao longo do encontro frente ao Sp. Braga, o próprio Samaris chegou a sair do seu banco para ir ver as indicações que Jesus dava a Chiquinho, que se preparava para entrar para o lugar de Taarabt, e deu alguns conselhos ao treinador principal, num papel que em condições normais seria de João de Deus, um dos muitos elementos da equipa técnica infetados com Covid-19. No final, os encarnados não conseguiram evitar a derrota. E Jesus perdeu pela primeira vez no final dos 90 minutos um jogo a contar para a Taça da Liga, prova que conquistou por seis ocasiões entre Benfica (cinco) e Sporting (uma).

Numa vitória que valeu ao Sp. Braga pela primeira vez na história uma série de três vitórias consecutivas contra os encarnados, nem mesmo o antigo treinador do Flamengo, rei das Taças da Liga, conseguiu inverter uma trajetória iniciada em dezembro de 2018, altura em que o Benfica somou a última vitória na prova – a partir daí leva um total de quatro empates e uma derrota no final dos 90 minutos. Em paralelo, e com mais dois golos sofridos, o Benfica elevou a média de golos sofridos por jogo para 1,11, algo que não acontecia há três anos com Rui Vitória.

“A semana foi muito complicada. 26 casos… Não só jogadores mas também toda a estrutura da equipa do Benfica. Não é só ficares infetado, é o ambiente, teres que estar isolado quando vais treinar… Isto é complicado, o Sp. Braga jogou com a equipa que tem vindo a jogar, tirando o Paulinho, que começou no banco. A única coisa que podemos lamentar é do jogo. Podíamos ter feito algo defensivamente melhor para podermos sair com a vitória. Tem sido difícil ver os que ficam de fora. Num dia fiz três testes, felizmente foram negativos, não sinto nada, sinto-me bem. Mas ando ali no meio de todos, isto vai tocar a todos… Sou o único da equipa técnica que ainda não foi infetado, espero não ser”, comentou Jesus no final, numa realidade que já tinha vivido sem tantos infetados no Brasil, onde fez 16 testes só até meio de junho quando estava a treinar o Flamengo.

Jesus, um pai de uma família “que tem de estar separada” que fez três testes num dia e acabou orgulhoso dos que jogaram