“Há qualquer coisa no céu” é uma das frases mais ouvidas, mais batidas, mais barbudas do cinema de ficção científica (FC), departamento de filmes de OVNIS e invasões extraterrestres. É dita várias vezes ao longo de “The Vast of Night”, primeira realização de Andrew Patterson (Amazon Prime Video), mas em vez de nos fazer rir, arrepia-nos. É que, com o seu orçamento liliputiano, a sua mão-cheia de atores e o seu argumento que segue à risca o manual dos filmes de série B dos anos 50, “The Vast of Night” é a melhor, mais absorvente e inquietante fita “low fi” do género destes últimos anos, enquadrada como se fosse um episódio de uma série de televisão fictícia, “Paradox Theater”, remetendo para “The Twilight Zone” e o seu ilimitado universo fantástico.

[Veja o “trailer” de “The Vast of Night:]

Estamos mesmo no fim da década de 50 e é uma noite de Verão em Cayuga, no Novo México, uma daquelas cidadezinhas americanas em que toda a gente se conhece e quando a equipa de basquete do liceu joga, praticamente toda a gente está no liceu a ver a partida. Dois dos poucos que não estão, são os jovens Everett (Jake Horowitz) e Sarah (Sierra McCormick). Ele porque é DJ da minúscula rádio local, ela porque tem um “part-time” como telefonista. Everett usa óculos à Buddy Holly para parecer muito “cool”, Sarah prefere uma armação “asa de morcego” que lhe dá um ar prematuro de adulta. E são ambos fanáticos de ciência, de eletrónica e de mecânica.

Numa das mais deliciosas sequências de “The Vast of Night”, Everett e Sarah vão a caminho dos seus respetivos trabalhos, enquanto a rapariga descreve entusiasmada ao amigo os artigos sobre tecnologia do futuro que leu na revista “Modern Mechanics”: carros que andam sem condutor, comboios subterrâneos que ligam Nova Iorque a São Francisco numa hora e, maravilha das maravilhas, “um ecrã de televisão em miniatura que cabe no bolso e com o qual podemos falar com os nossos amigos em Roma ou Nova Iorque”. E enquanto o aparelho não é criado, Everett e Sarah extasiam-se e divertem-se com o gravador portátil que ele acaba de comprar, como dois adolescentes de hoje o fariam com um iPhone do último modelo.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

[Veja uma entrevista com os dois actores:]

Chegada à central telefónica, Sarah começa a receber chamadas em que se ouve apenas um estranho som, que faz logo ouvir a Everett, na estação de rádio, para que ele o identifique. Nada feito. Everett põe-o no ar e apela aos ouvintes que o ajudem a perceber que ruído é aquele. Entretanto, Sarah é contactada por uma mulher aflita que viu algo nos céus, e o carro de um casal que persegue uma “coisa” no céu noturno pára à porta da central. Everett recebe então uma chamada de Billy, um antigo militar que reconheceu o som e relata a secreta estranha missão de que certa noite foi incumbido. A que se segue o telefonema de uma senhora idosa cujo filho pequeno, foi, há muitos anos, levado por aquilo que ela chama “o povo dos céus”.

Em “The Vast of Night”, Andrew Patterson deleita-se com a tecnologia analógica da época (telefones de fio, gravadores de fita, discos de vinil, rádio de alcance local), usando-a para ajudar a estabelecer a atmosfera ominosa do filme. E investe na sugestão perturbante e na moinha de ansiedade, instala um “suspense” contínuo e deixa no ar um leque de possibilidades sobre o que estará por trás do misterioso som e dos avistamentos celestes (um ataque soviético? uma invasão alienígena? ou um mero caso de pânico colectivo?), graças a um cuidadosíssimo trabalho com o som e a música, e a um estilo visual que privilegia longos e serpenteantes “travellings” (um deles rodado com a câmara montada num “kart” guiado por um rapaz da vila texana onde a fita foi rodada).

[Veja uma sequência do filme:]

Revelar mais sobre o que acontece a seguir em “The Vast of Night”, na vila e à dupla de jovens, curiosos e irrequietos heróis, é estragar o filme para quem o vai ver. Diga-se apenas que, quando chega a altura de Everett e Sarah perceberem finalmente qual a origem das forças que causaram toda a ansiedade naquela noite estival em Cayuga, ficamos a desejar que Andrew Patterson tivesse continuado a insistir na sugestão e na alusão, em vez da revelação que faz. Ela acaba por ser a única coisa supérflua desta inventiva, espevitada e intensa fita de ficção científica em escala reduzida e versão analógica.

“The Vast of Night” está disponível na Amazon Prime