O primeiro tweet do grupo parlamentar do PS foi publicado na quinta-feira à noite. Baseava-se em dados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) para mostrar que, naquele momento, Portugal estava acima da média europeia na vacinação contra a Covid-19 por cada 100 habitantes: 3,44 pessoas vacinadas em Portugal, em comparação com as 3,21 da União Europeia — e, portanto, também acima de países como a Alemanha, França, Suécia, Holanda e Bélgica. Tudo certo. O problema foi o gráfico escolhido para ilustrar essa realidade (usado, também, pelos gestores da conta oficial do partido). E o facto de ter sido trocado horas mais tarde. “Assim, ficou mais claro”, diz ao Observador fonte do grupo parlamentar socialista, sem explicar se a mudança se deveu às críticas nas redes sociais.

No tweet original, duas barras verticais, lado a lado, comparavam a realidade nacional com a realidade europeia. Apesar da diferença de apenas 23 décimas, Portugal surgia com uma barra cerca de cinco vezes maior que a da União Europeia (como mostra a figura seguinte). Outro detalhe: o eixo vertical do gráfico começa no valor “3” e termina no “3,46”.

As publicações de ambas as contas do PS — a do grupo parlamentar e a do partido — estiveram visíveis, pelo menos, até ao início da manhã desta sexta-feira. E não passaram despercebida aos seguidores das contas dos socialistas no Twitter, dando lugar a vários comentários sobre a forma como era destacada a prestação nacional, apesar de curta diferença face à média da União Europeia.

O politólogo Pedro Magalhães foi um dos seguidores a assinalar a desproporção entre as duas barras verticais, depois de ser alertado para o tweet.

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“Um clássico, nunca passa de moda”, comentou o investigador do Instituto Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. À imagem do gráfico, Pedro Magalhães juntou outros dois exemplos internacionais para ilustrar que se trata de uma prática regular. Num caso, o gráfico reporta-se à carga fiscal na era Bush na Casa Branca; no outro caso, surge a ilustração do resultado das eleições na Venezuela que opuseram Nicolas Maduro a Henrique Capriles, em 2013.

Outros seguidores também notaram a discrepância apresentada pelo PS.

Mas houve também quem assinalasse que o ‘truque’ não é exclusivo de quem gere as redes sociais do PS.

“Gráfico do PSD”, regista um utilizador do Twitter que cola um gráfico do tempo em que Passos Coelho liderava os sociais-democratas. Nesse caso, uma diferença de duas décimas entre a “previsão do Governo” e o “crescimento do 3º trimestre de 2016” foi apresentada com uma barra três vezes menor que a da previsão inicial.

Mas os tweets tiveram uma vida útil curta. Publicados na noite de quinta-feira, ‘desapareceram’ das contas do PS na sexta-feira de manhã. Ao Observador, a assessoria do grupo parlamentar socialista explica que o partido decidiu “melhorar mensagem” e, por isso, trocou a representação gráfica inicial. Na segunda versão, “o gráfico ficou mais claro”, diz a mesma fonte, sugerindo que a alteração nada teve a ver com as reações nas redes sociais.

Na conta do PS não voltaram a surgir quaisquer gráficos sobre o progresso da vacinação contra a Covid-19 em Portugal. Já o grupo parlamentar optou por abdicar dos gráficos e apresentar apenas os números.

Na nova formulação — que se mantinha visível esta sexta-feira ao início da tarde —, também desapareceu o trecho do texto em que se comparava a vacinação em Portugal com a de vários países da União Europeia. Em vez disso, refere-se que “se os laboratórios entregarem as vacinas a tempo e horas”, Portugal atingirá “70% de imunidade comunitária no fim do verão, tal como consta do plano nacional de vacinação”.

Quanto aos dados, as informações disponíveis no início do mês de fevereiro indicavam que Portugal estava entre os países mais atrasados no processo de vacinação da primeira dose contra a Covid-19, no contexto da União Europeia.