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Depois de 28 anos a fazerem o mundo dançar, os Daft Punk acabaram

Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter puseram o mundo a dançar, vestidos de robôs e com as suas batidas eletrónicas. Agora, 28 anos depois de tudo ter começado, acabaram com os Daft Punk.

O mundo continuará a dançar com eles — e a abanar-se ao som da revolução que a dupla trouxe para o universo das batidas eletrónicas —, mas daqui em diante fá-lo-á recordando-os já como uma banda histórica, do passado: o duo francês Daft Punk deixou oficialmente de existir esta segunda-feira.

A notícia começou por ser dada de forma algo enigmática, levantando dúvidas, através de um vídeo de oito minutos publicado na conta oficial dos Daft Punk nas redes sociais com o título “Epílogo” — um excerto do filme de ficção científica Electroma, que o duo realizou e que versava sobre a busca de dois robôs por se tornarem humanos. Uma premissa que não era inocente à forma robótica como se apresentaram ao mundo.

A notícia do fim do grupo foi, porém, confirmada entretanto à publicação musical Pitchfork pela assessora de comunicação de Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter, dupla que o mundo conhecia até aqui pelo nome do projeto que os unia. Não foi no entanto dada qualquer explicação para os motivos do fim dos Daft Punk.

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Uma geração mais nova poderá conhecê-los apenas pela canção “Get Lucky”, feita com Nile Rodgers, dos Chic — um dos grandes arquitetos do funk e da disco — e com o cantor, rapper e produtor musical Pharrel Williams, tal a dimensão do êxito alcançado com esse single: uma canção que se espalhou pelo mundo inteiro como pólvora, que pôs jovens e menos jovens a dançar nas mesmas pistas, em casas, nos bares e em discotecas pelo planeta fora. Mas a história dos Daft Punk é bem mais longa, tendo sido polvilhada de sucesso desde os anos 90.

Bem vista a história, antes dos Daft Punk até existiram os Darlin’: a banda de rock independente que não se tornou memorável, que serviu só de preâmbulo ao que Homem-Christo e Bangalter fariam depois de começarem a brincar com sintetizadores e drum machines e decidirem que era altura dos Darlin’ passarem à história, que era com o nome Daft Punk que conquistariam o mundo. E em bom rigor tudo até começou antes, quando o duo se juntou pela primeira vez como colegas de escola secundária em Paris.

Os Darlin’, que os dois formariam com outro elemento chamado Laurent Brancowitz a pensar na canção com o mesmo nome dos Beach Boys de Brian Wilson, não durariam muito tempo. Mas ainda gravariam um mini-álbum na Duophonic Records, a editora fundada pelos franco-britânicos (bem mais relevantes, duradouros e inspirados do que os Darlin’) franco-britânicos Stereolab, tendo dado alguns concertos com essa formação.

Mas o que importa para esta história é os Daft Punk, o duo que apareceu na música de dança para não deixar pedra sobre pedra, misturando house e techno com ritmos da canção popular de disco, rock ou funk.

O primeiro grande ano a reter é este: 1997. O ano em que sai Homework, o primeiro dos quatro álbuns completos (ainda será preciso somar os singles soltos, os mini-álbuns, os concertos memoráveis) dos Daft Punk, o disco que mudaria a dança dos 90’s com “Da Funk”, “Burnin”, “Revolution 909” e, claro, “Around the World” — além de tantas outras que tornaram Homework um dos grandes álbuns de estreia da história.

Mas porque não voltar a fazer um flashback, recuar até 1994 e 1995, se a música dos Daft Punk foi também ela imprevisível, feita de aproveitamentos do passado para, qual construção em plasticina feita de materiais diferentes, se construir algo de realmente novo e singular?

Esses dois anos foram aqueles em que os Daft Punk, ainda sem as indumentárias robóticas, lançariam os singles “New Wave” e “Da Funk” (esse mesmo, o êxito de Homework) na editora Soma. E Stuart McMillan, o homem que os conheceu em 1993 — quatro anos antes da generalidade das pessoas — e que estava por trás da editora, recordaria em 2017 ao Observador as primeiras impressões do duo, a “música fantástica” que ali descobriu, os primeiros singles que começaram por vender duas mil cópias mas uns meses depois andavam a ser tocados por DJs como Richie Hawtin e chamaram a atenção de uma editora multinacional, a Virgin. E recordaria uma parelha capaz de fazer música pop “perfeita, dançável e viciante” mas que se tornara nos últimos anos “um grupo só de estúdio” até por não fazerem “música de dança foleira e previsível” como a que McMillan diz ser hoje mainstream nos concertos e festivais.

Foram já o entusiasmo e a expectativa que os Daft Punk geraram nos fãs de música de dança que os levaram até à editora Virgin, que os impeliram ao álbum de estreia Homework. Mas foi com esse disco que uma grande massa de ouvintes de música, nem todos eles dados às batidas eletrónicas, se confrontaram com o duo francês, enterrando o eurodance mais simples e escorregadio nos baús da história e maravilhando-se com os telediscos (de Spike Jonze, de Michel Gondry, de Roman Coppola…).

O disco seguinte, Discovery, editado há 20 anos (em março de 2001), caiu mais tarde como uma bomba, surpreendendo fãs devotos e fazendo alguns críticos começarem por torcer o nariz antes de se aperceberem que as canções eram na verdade estupenda pop dançante, capaz de contagiar quase todos os que a ouviam. Como poderia um álbum com “One More Time” (feita com o DJ, produtor musical e cantor norte-americano Romanthony), “Digital Love” ou “Harder, Better, Faster, Stronger” não agitar as ancas?

Os anos de Discovery foram também os anos em que apareceu o cenário robótico — aproveitando certamente um novo século e o embalo da estética visual autómata, mistura de homem e máquina, que os alemães Kraftwerk celebrizaram muito antes, mas fazendo tudo de modo diferente, brilhante, com efeitos LED cheios de pompa.

Foi já depois dos cenários robóticos e de um disco de 2005 que tinha o título Human After All (“Humano Apesar de Tudo”, tradução nossa) e incluía canções como “Robot Rock”, “Technologic” ou “The Prime Time Of Your Life”, que os Daft Punk passaram em Portugal, numa edição do Festival Sudoeste em 2006 que teve ainda os Prodigy e Afrika Bambaataa (entre outros).

Não voltariam a tocar no país, também porque também a quantidade de concertos e digressões internacionais que faziam foi sempre inferior à da maioria dos grupos maiores da música pop mundial — na entrevista de 2017 com o Observador, o homem que editou os primeiros singles dos Daft Punk diria que eles estavam bem fechados no estúdio, “como os Beatles” quando se refugiaram da histeria dos concertos.

Digressões internacionais à medida da dimensão e popularidade da sua música, aliás, fizeram apenas duas: a Daftendirektour, no ano em que editaram o primeiro álbum (1997) e a Alive 2006/2007.

Os Daft Punk com The Weeknd na cerimónia de entrega dos prémios Grammy, em 2017

Getty Images for NARAS

Em 2013, o duo francês lançaria o seu último álbum completo de temas originais antes da dissolução do grupo: Random Access Memories que teve o dedo do guitarrista Nile Rodgers, dos Chic, e que incluía canções como, é claro, “Get Lucky”, mas também a portentosa “Lose Yourself to Dance” (em que Pharrel Williams também canta), “Doin’ It Right”, com Panda Bear, “Give Life Back To Music”, “Giorgio by Moroder” e “Instant Crush”, com Julian Casablancas.

Ninguém imaginava por essa altura que Random Access Memories seria o último álbum de originais dos Daft Punk — salvo qualquer regresso futuro à moda dos LCD Soundsystem, que também se dissolveram para mais tarde regressar. Mas se a despedida for mesmo esta, está tudo certo com o legado inatacável dos dois homens que mudaram a eletrónica francesa e a agigantaram até patamares da pop mainstream, que ajudaram a implementar o chamado french touch (dando a impressão que nenhum povo dançava como aquele) e que certamente teve influência para a afirmação posterior de projetos como o duo Cassius.

Apesar de aquele disco de 2013 ter sido o último de originais dos Daft Punk, o duo foi-se mantendo ativo em colaborações e pôs a sua impressão digital em dois sucessos planetários do cantor de R&B The Weeknd, “Starboy” e “I Feel It Coming”. Mas também o tema “Overnight”, dos Parcels, foi feito com a ajuda dos Daft Punk.

Individualmente, Guy-Manuel de Homem-Christo colaborou com Charlotte Gainsbourg num single que esta lançou em 2017, “Rest” (ajudou à composição), e Thomas Bangalter foi um dos produtores do disco Everything Now, dos Arcade Fire — tendo ainda sido creditado pela criação do tema título, em que colaborou ativamente.

Agora, em 2021, depois de nos últimos anos terem sido reiteradamente alimentados rumores de digressões (nos casos em que os rumores foram mais sérios, o grupo chegou a desmenti-los oficialmente), os Daft Punk anunciam que acabaram enquanto projeto musical em duo — o que não implica que não haja material antigo ainda a descobrir, canções clássicas por recordar, projetos novos para cada uma das duas metades dos Daft Punk, ossos para abanar ao som deste french touch revolucionário.

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