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O comediante italiano e fundador do partido político Movimento Cinco Estrelas, Beppe Grillo, publicou esta segunda-feira no seu site um vídeo em que se insurge contra as notícias dos meios de comunicação social italianos que referem que o seu filho, Ciro, é suspeito de ter violado em grupo uma rapariga.

O vídeo, em que Beppe Grillo bate na mesa e grita inflamado e zangado, tem como legenda “jornalistas ou juízes?”. Na descrição da publicação o fundador do movimento populista italiano refere: “O meu filho aparece em todos os jornais como um violador em série, tal como outros três rapazes. Quero uma explicação sobre porque é que um grupo de violadores em série, incluindo o meu filho, não foram detidos”.

Ciro Grillo estará a ser investigado pelas autoridades, de acordo com os meios de comunicação italianos, na sequência de uma denúncia de uma rapariga de 19 anos, que alega ter sido violada em grupo no verão de 2019, na zona de Porto Cervo, na ilha da Sardenha. Do grupo faziam parte quatro rapazes e amigos, segundo a queixosa, um dos quais Ciro. De acordo com a queixa, a rapariga garante que um dos rapazes a forçou a ter relações sexuais enquanto os outros assistiram, sem participarem.

O caso ainda estará a ser investigado e alvo de inquérito e Ciro Grillo não foi, por ora, constituído arguido — apesar dos meios de comunicação do país referirem que tal poderá acontecer nos próximos dias. O que já aconteceu foi os quatro visados serem ouvidos, com os seus advogados de defesa presentes, por procuradores e investigadores em Tempio Pausania, na Sardenha. Os quatro declararam ser inocentes.

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Durante o vídeo, que tem pouco mais de um minuto de duração, Beppe Grillo grita e indigna-se: “Porque é que não os prenderam logo? A lei diz que os violadores são presos, interrogados ou colocados em prisão domiciliária. Deixaram-nos em liberdade dois anos, porque não os prenderam imediatamente? Eu próprio teria levado os quatro para a prisão e dava-lhes uma sova. Não aconteceu porque se aperceberam que nada disto é verdade, que não houve nenhuma violação. Uma pessoa [a denunciante] é violada de manhã, à tarde vai fazer kitesurf e só oito dias depois é que faz a queixa? Não parece estranho? Pois bem, é. Se não prenderam o meu filho, prendam-me a mim”, clama.

O humorista e político italiano grita ainda, já vermelho de fúria, que “existe um vídeo” que mostra que “há consentimento” e onde se vê “um grupo que ri, jovens de 19 anos que se estavam a divertir” e que se trata de “quatro idiotas, não quatro violadores”. A informação foi corroborada pela mãe de Ciro Grillo mas os pais da vítima, citados pela imprensa italiana, discordam de forma contundente da análise às imagens feita por Beppe Grillo — e criticam o político por desvalorizar a dor da família e da alegada vítima e por a ridicularizar no vídeo.

O vídeo de Beppe Grillo está a gerar polémica até no próprio partido que fundou. Se a parlamentar e vice-presidente do Senado italiano Paola Taverna reagiu manifestando alguma solidariedade com o correligionário — referiu compreendê-lo “enquanto mãe” e “não conseguir imaginar” o que ele estará a sentir, ainda que pedindo que o assunto seja resolvido “sem especulações” e “em tribunais”, não em “talk-shows” —, a também deputada do Movimento Cinco Estrelas Federica Daga foi mais crítica.

Em entrevista ao jornal italiano La Repubblica, Federica Daga opôs-se à insinuação de Beppe Grilo de que o facto da rapariga só ter denunciado a violação oito dias depois torna a queixa inverosímil: “Como podes dizer que a violência não é violência se for denunciada oito dias depois? Fui espancada e perseguida por um homem e só o consegui denunciar seis meses depois daquele pesadelo”.