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Na Coreia do Norte há uma guerra em curso. Se Kim Jong-un não deu ainda uso a armamento nuclear para conflitos bélicos com outras nações, o líder norte-coreano vai apurando a mira apontando-a cada vez mais aos seus próprios cidadãos.

A guerra é, por ora, cultural, como dão conta meios como a estação britânica BBC, o jornal El Español, ou o jornal digital Daily NK, especializado na Coreia do Norte. E o inimigo é o “pensamento reacionário” que o regime norte-coreano vislumbra nas opções estéticas e intelectuais dos jovens, que vão dos cortes de cabelo ao vestuário, ao uso de palavrões em idiomas estrangeiros, ou ao visionamento de filmes que não sejam feitos, produzidos ou aprovados internamente.

Depois da aprovação de uma lei (em dezembro do ano passado) que pune severamente todos os que forem apanhados na posse de filmes estrangeiros, com roupas de marcas internacionais ou a proferirem palavras em calão noutro idioma, o regime de Kim Jong-un aperta agora a malha e incentiva à vigilância e monitorização da juventude.

Segundo relata o jornal digital Daily NK, os meios de comunicação estatais da Coreia do Norte revelaram na sexta-feira passada uma carta escrita por Kim Jong-un que apela à juventude partidária do seu partido — a “Liga da Juventude Patriótica Socialista”, que terá o seu décimo encontro em congresso esta quinta-feira  — para que esteja atenta a comportamentos “individualistas, desagradáveis e antissocialistas” dos jovens.

Entre as recomendações deixadas pelo líder norte-coreano à juventude do seu partido está a monitorização atenta do “discurso, penteados e trajes dos jovens” e de “atividades anormais ou mudanças psicológicas” dissonantes do modelo comportamental recomendado no país.

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A monitorização dos gostos culturais e das opções estéticas e visuais dos jovens norte-coreanos não é nova. Como recorda o Business Insider, citando precisamente informações conseguidas pelo Daily NK (um jornal sediado na Coreia do Sul) junto da sua rede de informadores na Coreia do Norte, as autoridades do país estão desde o verão passado a intensificar a sua vigilância a sinais de comportamento desviante dos mais novos: nomeadamente “cabelos pintados, brincos, jeans [calças de ganga] e todo o tipo de roupa com inscrições estrangeiras”.

Em dezembro, vários meios de comunicação asiáticos, norte-americanos e europeus noticiaram uma nova lei norte-coreana contra o “pensamento reacionário”, que visava precisamente reduzir a influência de países externos que se estariam a infiltrar e a afetar a juventude da Coreia do Norte (de acordo com os temores do regime) no consumo cultural (de música e de filmes, desde logo) e até na linguagem e termos usados. As penas variavam consoante a “gravidade dos crimes”, segundo essas notícias, mas poderiam ir de multas pesadas até pena de prisão e, nos casos mais graves, pena de morte.

A vigilância do regime incide em especial na posse e visionamento de conteúdos audiovisuais de países como os Estados Unidos da América, o Japão e a Coreia do Sul — e a BBC escreve que quem for apanhado não apenas na posse destes materiais mas em flagrante delito, vendo-os, poderá ser sujeito a uma pena de 15 anos de desterro num campo de concentração de presos políticos e de guerra.

A explicação para a intensificação da repressão na Coreia do Norte poderá estar, de acordo com os analistas e especialistas na política norte-coreana citados pela BBC, nas dificuldades devido à Covid-19 que se vão intensificando, e que se poderão agudizar ainda mais na Coreia do Norte, e a uma crise social e económica que começa a sentir-se de forma mais premente no país.

Agora, a repressão vai ainda mais longe e procura responsabilizar todos os norte-coreanos por desvios comportamentais dos seus próximos: como explicou o chefe de redação do Daily NK, Lee Sang Yong, à BBC, “se um trabalhador for apanhado, o chefe da fábrica pode ser punido, e se uma criança for problemática, os pais também podem ser punidos”. Intensifica-se, assim, o encorajamento às denúncias e à vigilância entre norte-coreanos para sanear dissidentes. Até porque o regime concluiu que no país “pode-se formar um sentimento de resistência” às políticas repressivas de Kim Jong-un se for introduzido a outras culturas”.