É mais um capítulo numa guerra local que transborda as fronteiras do PS Braga. Se a escolha do candidato socialista pela capital de distrito, que recaiu sobre Hugo Pires, já tinha incendiado as estruturas e atingido a direção nacional, o conflito não terminou por aí. Agora, com as listas apresentadas, surge uma nova polémica: é que essas listas — que incluem novidades e uma espécie de ‘varridela’ nos nomes atuais do PS em Braga — nunca foram votadas.

A reclamação é feita por várias fontes que estiveram presentes na reunião de cinco horas em que as listas foram apresentadas já como facto consumado, esta segunda-feira, à concelhia de Braga. Foi nesse encontro que Hugo Pires, que é membro da Comissão Permanente do PS e vice-presidente da bancada parlamentar — tido como próximo de Ana Catarina Mendes — apresentou a lista de nomes para a Câmara Municipal e a Assembleia Municipal, mas sem os levar a votação.

O próprio candidato confirma esta informação ao Observador: “Os nomes não foram votados porque este é um processo dirigido pela direção nacional do PS”, justifica, acrescentando que dentro da reunião “ninguém pediu” que houvesse votação. No entanto, os estatutos do partido, no capítulo em que definem as competências das concelhias, indicam que é sua responsabilidade, por um lado, “desencadear e assegurar o cumprimento do processo de designação dos candidatos autárquicos municipais” e por outro “aprovar as restantes listas de candidatos aos órgãos autárquicos municipais do respetivo concelho”.

Ora, se parte da concelhia o acusa de atropelar os estatutos e critica a direção nacional por “ter de ir buscar candidatos a Lisboa”, Pires recorda que o conflito já vem de trás: “A concelhia não quis votar o meu nome e opôs-se a todo o processo”, explica. Ou seja, no entender do candidato, a origem do problema foi a oposição da concelhia à sua candidatura — a partir daí, a estrutura local, entende, pôs-se de fora… e deixou o processo nas mãos da direção do PS, próxima de Pires.

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Perante a ausência de votação dos nomes, um grupo de cerca de 30 militantes já tinha apresentado um pedido de reunião extraordinária que incluísse as “listas aos órgãos municipais” na ordem de trabalhos, sem sucesso.

Mas fora o problema formal de as listas não terem sido votadas, apesar de já terem sido oficializadas e divulgadas, há o conteúdo das mesmas: parte da revolta na concelhia surge a par de acusações a Pires por ter feito uma suposta “purga”. Com dois alvos: o atual líder da bancada do PS, Pedro Sousa, e a atual vereadora Liliana Pereira, ambos fora das listas às autárquicas marcadas para 26 de setembro.

No caso de Liliana Pereira chegou a haver convite — “um convite para rejeitar”, ironiza uma fonte local — para concorrer em sexto lugar (o PS tem atualmente três vereadores em Braga). A própria assume-o: “Posso confirmar que fui convidada a integrar lista à Câmara e Assembleia Municipal, mas declinei por entender que não estavam reunidas as condições necessárias para integrar a este projeto”, diz ao Observador.

No caso de Pedro Sousa o diferendo é antigo e conhecido: a sua exclusão das listas de deputados para as legislativas de 2019 — listas em que Hugo Pires foi incluído, e eleito — abriu uma guerra com a direção nacional do PS. Agora, há quem veja aqui uma sequela do conflito. A mesma acusação, aliás, que tinha sido feita no processo de indicação de Pires, escolhido pela direção nacional com base numa sondagem que o colocava à frente dos potenciais candidatos preferidos pelas estruturas locais — e que levou a concelhia a acusar a direção de promover um processo “nebuloso” de forma “unilateral” e “prepotente”.

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Nas listas anunciadas esta semana, encabeçadas por Pires, no caso da Câmara, e pela deputada Palmira Maciel, para a Assembleia Municipal, existe essa ‘varridela’, com uma ressalva: o presidente da concelhia, Artur Feio, que tinha sido um dos principais oponentes de Pires na fase inicial do processo, foi incluído na lista e vai em segundo lugar. Mais um aspeto criticado pelos apoiantes de Liliana Pereira, que lembram que o próprio PS aprovou há meses uma recomendação para que os dois primeiros nomes das listas sejam um homem e uma mulher, ou vice-versa, para garantir maior paridade.

De resto, a aposta recai em grande parte sobre independentes, que ocupam metade dos seis lugares cimeiros da lista. “É uma lista liderada por socialistas, mas uma lista de cidadania também”, explica Hugo Pires, destacando as candidaturas de Adolfo Macedo — o nome de baptismo de Adolfo Luxúria Canibal, conhecido por ser o vocalista dos Mão Morta — ou de Sílvia Sousa, professora na Universidade do Minho que trabalhou no gabinete de Vieira da Silva.

A Câmara é atualmente liderada pelo social-democrata Ricardo Rio, que volta a concorrer, em coligação com CDS, PPM e Aliança. As perspetivas, mesmo entre os socialistas, são de que volte a vencer a corrida, pelo que a maior guerra em Braga será mesmo dentro do próprio PS.