Serão umas madrugadoras 5h30 da manhã no Japão (21h30 em Lisboa) quando João Vieira arrancar para os 50km marcha, nos quais será o único representante português. O objetivo, bem olímpico, é fazer melhor do que nas prestações anteriores nesta distância, visto não ter terminado a prova em Londres2012 e Rio2016. E, mesmo aos 45 anos, o sonho da medalha nunca acaba.

João Vieira participa em Tóquio nos quintos Jogos Olímpicos da carreira, com os melhores resultados a surgirem em Atenas 2004, quando foi 10.º nos 20 km marcha, e Londres 2012, quando foi 11.º na mesma distância. Em 2012 e 2016 inscreveu-se nos 20 e 50km, já a pensar em mais participações na prova mais longa.

Um salto que foi triplo para Portugal: mais medalhas numa edição, pódio em três modalidades e quinto ouro olímpico do atletismo

O português ainda não correu a distância este ano, visto que o tempo que o qualificou para os Jogos foi conseguido ainda em 2019, na Taça da Europa de marcha, na Lituânia, onde alcançou o bronze. Foi também em 2019 que João Vieira conseguiu o resultado mais importante da carreira, ao ser vice-campeão do mundo de 50 km marcha, em Doha, no Qatar. Este resultado fez com que, segundo a IAAF, organismo que tutela o atletismo europeu, Vieira se tornasse o atleta mais velho a ser medalhado.

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17th IAAF World Athletics Championships Doha 2019 - Day Two

João Vieira tornou-se vice-campeão do mundo nos 50km marcha em Doha, em 2019

Mas não se julgue que Vieira fez uma vez um bom lugar e acabou a conversa. Não, há mais, muito mais. Além dos mais de 50 títulos nacionais, que fazem dele um recordista em Portugal, o marchador nascido em Portimão, mas que foi em criança para Rio Maior, já foi medalha de prata no Europeu de Barcelona, em 2010, e bronze no Europeu de Gotemburgo, ambas nos 20km.

João Vieira chega agora aos Jogos Olímpicos de Tóquio com a experiência de mais de trinta anos de atletismo. Mas foi antes, em 1984, que surgiu o bichinho dos Olímpicos, quando viu Carlos Lopes a ganhar o ouro em Los Angeles.

Tornou-se um sonho ser um atleta de alta competição. Aos 11 anos, um clube de Rio Maior convidou-me para integrar a equipa de atletismo. Fui com o meu irmão gémeo Sérgio [competiu no Rio 2016]. Existiam competições jovens a nível nacional e todos os distritos tinham atletas nas várias disciplinas, mas não existiam nenhuns na marcha vindos de Santarém. Então, eu e o meu irmão começámos nas corridas de marcha para entrar na equipa. Tivemos sucesso e conseguimos competir internacionalmente”, disse o atleta português de 45 anos, numa entrevista ao Diário de Notícias.

O atleta do Sporting é, desde 2016, treinado pela mulher Vera Santos, que também representou Portugal na marcha a nível internacional. Em 2020, numa entrevista ao Sapo Desporto, explicou: “Ela sabe pelo que passa um atleta da marcha. Eu sabia que, com a ajuda dela, algumas situações seriam mais fáceis e, então, ela tornou-se minha treinadora. Ela planeia os meus treinos e a época, isso trouxe-me resultados. As coisas são fáceis porque somos uma equipa capaz de lidar com as situações. Ela compreende as minhas dificuldades e puxa-me para cima para eu as ultrapassar.”

Agraciado com um Prémio Stromp pelo Sporting, João Vieira afirmou recentemente à Renascença que o objetivo passa mesmo por “fazer o melhor possível”. Isto até porque se trata de uma despedida. De João Vieira? Não, isso nem o próprio sabe. É, certamente, uma despedida da modalidade em Jogos Olímpicos. Vão cair os 50km marcha do programa olímpico, uma prova que já vinha dos anos 30.

“Nunca terminei uma prova de 50 km nos Jogos Olímpicos e vai ser a última competição. Quero fazer o melhor que esteja ao meu alcance naquele dia. Porque isto, em competições internacionais e 50km, não é só treinar bem e ter as condições todas para treinar. É preciso que, naquele dia, o atleta acorde bem disposto e que as coisas saiam todas. E, também, um pouco de sorte”, explicou, acrescentando, sem muita surpresa, que ganhar uma medalha seria “a cereja no topo do bolo”.

Não que a idade faça o atleta, mas atribui-lhe certamente algumas características, nem que seja pela experiência. Assim, João Vieira diz que o seu trunfo é ser “um atleta mais conservador, mais de defesa e que não se desgasta tanto ao início. Neste caso, numa competição dura como esta vai ser, pode ser bastante importante para a segunda parte”.

Tudo começou ao ver Carlos Lopes. Essa história, sabemos como terminou: em 1984, o maratonista foi o primeiro a entrar no Estádio Olímpico de Los Angeles e a marca dos 42,3km. Com essa vitória, veio também a primeira medalha olímpica de ouro para Portugal. Para esta sexta-feira, João Vieira não promete nada. Garante apenas que vai dar o melhor.