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Paulo Rangel deu esta noite a sua primeira entrevista como candidato a líder do PSD e já pôs em prática a oposição “mais dura”que promete a António Costa, que acusou de ter um Governo com “instintos controleiros” em áreas como a justiça ou a comunicação social. Em entrevista na TVI, também não poupou Rui Rio, que acusou ser diferente de si na forma como olha precisamente para essas áreas: a justiça, a liberdade de imprensa e o papel da comunicação social.

O candidato à liderança do PSD acredita que o PSD pode conseguir obter maioria absoluta em legislativas, seja sozinho, seja em coligação com IL e CDS e volta a afastar o Chega. Mesmo numa era pós-geringonça, acredita que pode conseguir que um seu futuro programa de Governo, mesmo que minoritário, seja viabilizado.

Continua cético quanto à hipótese de uma crise política, mas concorda com Rui Rio na parte em que o PSD deve chumbar o Orçamento do Estado para 2022, já que é um mau orçamento.

Rangel esteve ao ataque na primeira entrevista, que se divide em quatro grandes áreas: governação, crise política, diferenças para Rio e ataque a Costa.

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Governação. Rangel acredita que consegue 42/43% com IL e CDS e afasta Chega

Relativamente à sua estratégia para conseguir chegar a primeiro-ministro e conseguir viabilizar um programa de Governo, Rangel insiste que o PSD é um “partido de vocação maioritária” e que se unir o partido e fizer uma “oposição dura, veemente, mas responsável” e apresentar uma “alternativa de esperança” é possível “ser um partido maioritário”. Ainda assim acrescenta que “o PSD nunca esteve nem estará fechado a fazer acordos, seja com o CDS, um parceiro preferencial, seja eventualmente, se for caso disso, com a Iniciativa Liberal”. Questionado sobre se deixa de fora o Chega, Rangel respondeu de forma clara: “Certo”.

Paulo Rangel quer ir buscar votos ao centro, incluindo ao centro-esquerda, mas diz que também quer incluir o espaço do centro-direita à direita moderada, que Rui Rio ignorou. “O Governo do PSD nunca será feito com um partido radical”, admite o eurodeputado. O candidato à liderança do PSD diz que “Portugal já teve vários governos minoritários” e lembrou que “o primeiro Governo de Cavaco Silva, que foi de grande sucesso, teve 29%”. Ainda assim, Rangel diz que o centro-direita “tem todas as condições para uma maioria absoluta, com 42, 43%”, mas se isso não acontecer “há condições para governar em minoria” e, em eleições seguintes, conseguir essa maioria”.

Crise política. “Cenário altamente especulativo” e PSD deve votar contra “mau orçamento”

Paulo Rangel diz na entrevista que “o país não perceberia que existisse uma crise política” e que a mesma “não é desejável” que aconteça. No entanto, não é o PSD mas que o Governo tem de “negociar com os parceiros de esquerda”. O eurodeputado considera ainda “muito pouco provável uma crise política”, e diz que, mesmo que houvesse uma crise política, isso em nada alteraria a necessidade de o PSD continuar o seu curso de fazer uma clarificação interna”.

Rui Rio defendeu isso mesmo: que o PSD adiasse eleições para a eventualidade de o Orçamento do Estado não ser aprovado, serem convocadas eleições antecipadas e o partido ser chamado a ir a votos em breve. Para Rangel isso não faz sentido, já que as eleições diretas ocorrem a tempo de um novo líder se preparar para ir a votos. “Não há nenhum risco para o PSD de não ter uma liderança forte caso aconteçam eleições em fevereiro ou março”.

Quanto ao motivo da crise, aqui na mesma linha de Rui Rio, Rangel defende que “não compete ao PSD aprovar o Orçamento”, argumentando “o PSD é oposição e este orçamento é um mau orçamento”. Para Paulo Rangel, entre vários outros problemas que aponta ao documento estratégico, “o alívio fiscal é muito reduzido”.

As diferenças para Rio. Justiça, liberdade de imprensa e papel da comunicação social

Rangel fez a mais dura a crítica a Rui Rio quando falava naquilo que sempre o separou do atual presidente do PSD, mesmom quando estiveram no mesmo lado da barricada e o apoiou em 2019. “A diferenciação já existia antes: na questão da justiça e na questão da liberdade de imprensa e do papel da comunicação social, tivemos sempre posições bastante distantes“.

Quanto ao facto de ter apoiado Rio no passado, Rangel diz que não o fez em 2017, mas que o fez em 2019 porque acreditou que ia mesmo tentar unir o partido. Diz ainda não ter “nenhum estado de alma” quanto a uma recandidatura do presidente do PSD e faz questão de acrescentar que tem “respeito pessoal e político” pelo atual líder (que conhece há mais de 20 anos). É por isso que, perante “qualquer decisão que ele tome”, respeitará essa posição com “enorme recato”. “Se for candidato, disputarei as eleições com ele; se não for, não deixarei de respeitar essa decisão”, acrescenta.

Sobre ter sido o candidato às europeias de Rio, Rangel lembrou que foi candidato com Ferreira Leite, com Passos Coelho e com Rui Rio e que todos eles o escolheram porque é “leal, colaborador, que trabalha com todos os presidentes, mas livre”. E acrescentou que “não deixou de fazer as críticas em privado e nos órgãos nacionais” quando discordava deles.

Ainda nas diferenças entre ambos, Rangel refuta a acusação que se trata que “uma questão de tom de voz”e argumenta que “quando um líder resolve acabar com os debates quinzenais, não se trata tom de voz, mas de conceção de democracia e papel do Parlamento”. Depois diz mesmo que estava disposto para aceitar um meio-caminho entre os quinzenais, que defende, e o modelo atualmente em vigor: “Eu até aceitaria já, num compromisso, que os debates com o primeiro-ministro, com o formato que tinham, passassem para mensais”.

Ataque a Costa. Denúncia de “instintos controleiros” (e um gabinete na AR)

Paulo Rangel fez uma oposição cerrada a António Costa como deputado e líder parlamentar e foi o autor da expressão “claustrofobia democrática”, que utilizou para definir a pressão e a tentação de controlo da comunicação social por parte do Governo de José Sócrates. Agora, o candidato à liderança do PSD, faz uma adaptação para atacar o atual Governo, dizendo que o Governo de António Costa “tem instintos controleiros em toda a sociedade, procura dominar toda a sociedade de uma forma preocupante, seja nas áreas da comunicação social, nas áreas da justiça, seja no domínio da agenda”.

O ataque ao Governo PS tinha um objetivo: mostrar a necessidade dos debates quinzenais. Paulo Rangel lembrou que fez “dezenas de debates quinzenais” com José Sócrates e que foi assim que o PSD tirar a maioria ao então primeiro-ministro socialista.

No entanto, sobre o facto de não ser deputado, Rangel garante que vai ser “um presidente do partido muito presente no Parlamento, vou usar o meu gabinete, vou lá estar todas as semanas, vou reunir com todos os deputados e vou definir a estratégia com eles”.

Artigo atualizado com uma sistematização dos principais temas da entrevista às 00h27