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Título: Anos de chumbo e outros contos
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 192

A crítica a um volume de contos traz sempre rasteira. É difícil balizar um todo que se compõe de partes que não têm a obrigatoriedade de se entrecruzarem. Neste volume, recentemente publicado pela Companhia das Letras, vemos a estreia do romancista Chico Buarque enquanto contista. O estilo não supreende quem já estiver habituado ao das narrativas longas, mas Buarque continua a marcar pontos, desta vez pela capacidade de concisão. Nestes textos curtos, não há espinhas.

Ao todo, estão aqui oito narrativas curtas: “Meu Tio”, sobre uma criança prostituída com a complacência dos pais; “O Passaporte”, sobre a vingança de um artista; “Os Primos de Campos”, sobre violência policial; “Cida”, sobre uma mulher sem casa; “Copacabana”, sobre… Copacabana; “Para Clarice Lispector”, com candura, sobre a idolatria de um poeta; “O Sítio”, sobre um casal que se engata durante a pandemia; e Anos de Chumbo, que dá título ao livro, sobre a vida de uma família durante a ditadura. Os temas são díspares e o que os une é o pano de fundo: o Rio de Janeiro. Neste compêndio, Chico Buarque mostra a sua versatilidade e repete os méritos que já lhe conhecíamos como romancista: domina a língua, permite que seja o cenário a marcar o estilo, prefere a naturalidade aos voos de linguagem, vai ao osso, observa, descreve em pinceladas.

Logo nas primeiras frases, mete o leitor em cena. A prosa é enxuta, e a linguagem também é enxuta, sempre com propósito literário. Nos textos, tudo é funcional e tudo é estética, o que faz de Chico Buarque uma das vozes mais interessantes em língua portuguesa da coetaneidade, e não se fala aqui de afinação ou decibéis. Mesmo sem a música, Buarque seria um artista completo.

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Sem pré-aviso, o autor alterna entre o poético e o cómico. Dentro da candura, existe um drama. Uma situação quotidiana, que aparenta não ter grandes camadas, culmina na prostituição de uma criança. Chico Buarque não ensina, mostra, e o escabroso aparece com a naturalidade com que existe. O impacto, para o leitor, é o de ter aterrado na acção, sem explicações prévias, sem contextualização, e é a acção que contextualiza. As ilações, por isso, são tiradas em cima do que existe, já que o autor não perde tempo a explicar ou a ensinar. Em vez de apontar o caminho, entrega o mapa.

Assim, as pequenas histórias são mais do que histórias para entreter. Ao encarar-se a perversão, a instrumentalização, a luta quotidiana do Rio de Janeiro, encara-se também a condição humana. Outros autores brasileiros, que usam esta cidade e outras, caem no erro de explicar e debater, tratar o romance/conto como crónica ou tese, mas a literatura existe como literatura, não como meio para um fim, é mais pergunta do que resposta, e interessa mostrar a condição humana para expandir a humanidade.

Ao mesmo tempo, em Anos de Chumbo, existe uma surpresa que soa sempre a coisa fresca. Buarque, nisto, é ímpar: usa como periférico o que tantas vezes aparece como essencial, chutando o fio da acção para outras coisas, deixando o leitor perante o quadro maior o tempo todo. Quando os pais de uma criança permitem que esta se prostitua com o tio miliciano, quando uma criança, abandonada pelo pai, vive a morte de um primo pelo crime, quando uma criança paralítica, filha de um torturador dos anos 70, se diverte a imaginar batalhas com soldados de chumbo, temos o quadro geral, porque o vemos de fora, como leitores, com a noção de que as personagens existem sem percepção de que os traços gerais da sua existência a solo são um escândalo.

Como contista, Chico Buarque é rigoroso. Usa a língua de forma fresca, vai em frente e vai aos cantos. Como quem não quer a coisa, em pequenos mosaicos, revela a tragédia. E os mosaicos transformam-se, assim, em caleidoscópios.