Luís Marques Mendes entende que o PCP “tem uma posição inacreditável” no debate sobre a intervenção da Rússia contra a Ucrânia. “Recusa-se a perceber que há um único agressor nesta guerra e que esse agressor deve ser severamente punido”, argumenta.

No seu habitual espaço de comentário, na SIC, o antigo líder social-democrata acusou os comunistas de continuarem, pelo menos de forma indireta, a “dar cobertura política a um regime corrupto, oligárquico, que persegue os seus opositores e que na sua TV oficial apresenta esta guerra como um caso militar de rotina”.

Ainda no plano doméstico, Marques Mendes tentou antecipar os efeitos do conflito em Portugal. “Não haverá cortes no abastecimento energético. Não dependemos, como outros países europeus, do gás russo”, começou por dizer.

Todavia, o social-democrata reconheceu que a “recuperação económica em curso pode abrandar” e que “vai haver uma subida generalizada dos preços”, em particular “no custo da energia, nos transportes e nos bens alimentares. “Se houver subida das taxas de juro, a situação agravar-se-á um pouco mais”, antecipou.

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Marques Mendes acrescentou também que deve “haver uma revisão do quadro macroeconómico do Orçamento do Estado para 2022”. “Teremos certamente um crescimento mais moderado do PIB, em consequência sobretudo do abrandamento no crescimento das exportações.”

“Mas Portugal tem nestes momentos duas folgas: primeiro, o défice de 2021 vai ficar entre 2,9% ou 3% do PIB; depois, as despesas com a pandemia vão baixar – só nos últimos dois anos os apoios sociais ascenderam a 7 mil milhões de euros. Em 2022, será diferente”, sublinhou.

“Ocidente não começou bem”

O comentador apontou também o dedo ao Ocidente, em particular às instituições europeias, acusando-o de ter hesitado muito antes de arrepiar caminho. “Não começou bem. m poucos dias já tivemos três “pacotes” de sanções. Isto dá uma ideia de hesitação, sobretudo para quem dizia há mês e meio que tinha tudo previsto”, lamentou.

No entanto, Marques Mendes reconhece que as sanções entretanto adotadas, em particular a retirada de bancos russos do sistema SWIFT, “são realmente duras e vão diretas ao que realmente ‘dói’: aos oligarcas e à banca russa”.

Parte dessa impreparação da Europa para lidar com a ameaça russa, notou o comentador, reflete-se na excessiva dependência do gás de Moscovo.  “É uma dependência assustadora. Nos últimos anos, em vez de diversificarem os seus fornecedores de energia, a Alemanha e outros países europeus agravaram esta dependência. O novo gasoduto Nord Stream 2 é a prova provada dessa irresponsabilidade estratégica. Decidida por um ex-chanceler Alemão que, a seguir, foi trabalhar para os russos. Irresponsabilidade e promiscuidade”, criticou Marques Mendes.

Em contrapartida, o antigo líder do PSD avançou que a Comissão Europeia deve em breve “incentivar as interconexões entre a Península Ibérica e França para levar gás até à Europa Central vindo de outros países que não a Rússia”, o que servirá para “diversificar o fornecimento de energia” e, no caso português, vai “dar maior importância ao Porto de Sines, que teria um investimento para reforçar a sua capacidade de armazenamento; e fazer aumentar as nossas exportações de energia”.

Cimeira Rússia/Ucrânia. “As expectativas são muito baixas”

Sobre o encontro entre representantes russos e ucranianos, agendado para esta segunda-feira, Marques Mendes não escondeu o ceticismo. “Ninguém acredita em resultados. Só que também ninguém quer ficar com o ónus de dizer não ao diálogo. As próprias delegações não deverão ter um nível muito elevado. As expectativas são muito baixas”, lamentou.

Ainda assim, o comentador vê no envolvimento do primeiro-ministro israelita pode ajudar de alguma forma a desbloquear a situação.  “Mais depressa uma iniciativa de Israel pode produzir algum resultado do que este encontro. O primeiro-ministro de Israel tem boas relações quer com os EUA, quer com a Rússia, quer com a Ucrânia”, recordou.

“A Rússia está em perda. Até pode ganhar esta guerra mas, para já, está a perdê-la. A intenção era a de já hoje ter tomado Kiev e ter nomeado um governo fantoche na Ucrânia. Nada disso aconteceu nem se sabe se e quando pode acontecer. E tem tido mais baixas do que se pensava.”