É difícil verificar factualmente se esta é uma experiência transversal a toda a gente que convive com pessoas mais velhas, mas mais difícil do que lhes explicar que não precisam de artigo nenhum quando dizem que só veem a bola quando joga o Portugal é metê-las a dizer Herzegovina. Bósnia ainda vá que não vá, agora Herzegovina… Quando lá acertam com a pronúncia vem a pergunta do porquê de sermos só um país a jogar contra duas equipas: a Bósnia e a Herzegovina.

Ainda bem que o que essas pessoas mais velhas têm para nos ensinar tem muito mais utilidade prática no dia a dia. “Então o treinador meteu um defesa quando a equipa estava a perder?”, “Estão na retranca, a estratégia deles é defender e depois aproveitarem o avançado que fica lá à mama“. As mais sábias palavras para descrever esta partida talvez fossem as que formam a tradicional expressão “Quem não marca sofre” (quem estiver habilitado que traduza para bósnio).

Lá para dentro do relvado do Estádio da Luz, o selecionador nacional, Roberto Martínez, espanhol de nascença, português de coração, gritava indicações com mais sotaque açoriano do que os atores de Rabo de Peixe. Tal como está escrito no guião da série, o jogo entre Portugal e Bósnia, de qualificação para o Euro 2024, parecia “dois para dois, balizas de cinco e não vale bujas“. Relativizado que está o consumo de droga na produção portuguesa que corre o mundo por estes dias, importa dizer que parecia uma alucinação ver o que Bernardo Silva fez para inaugurar o marcador, tal o pouco vício que a seleção vinha demonstrando para com a baliza e que foi uma constante num jogo que não foi avassalador para a equipa das quinas.

No onze inicial dos líderes do grupo J com seis pontos, estiveram três centrais e nenhum deles foi Pepe. António Silva foi titular no eixo defensivo. Palhinha e Bruno Fernandes fizeram dupla no meio-campo, deixando o ataque encarregue a Bernardo Silva, João Félix e Cristiano Ronaldo. A seleção nacional alinhou assim num 3x4x3 para fazer face a uma Bósnia em 3x5x2. Portugal tinha inferioridade numérica no miolo, obrigando a muitas movimentações, onde eram incluídos Bernardo Silva e João Félix, para confundir marcações individuais, sendo que o médio bósnio, Pjanic, juntava-se à primeira linha de pressão quando a equipa não tinha bola. Exceção ao carrossel português foi Palhinha que se manteve firme e estanque junto da defesa para impedir transições.

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Ficha de Jogo

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Portugal-Bósnia, 3-0

3.ª jornada do grupo J de qualificação para o Euro 2024

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro:  Davide Massa (Itália)

Portugal: Diogo Costa, João Cancelo, António Silva, Rúben Dias, Danilo, Raphael Guerreiro (Nélson Semedo, 78′), João Palhinha (Diogo Jota, 87′), Bruno Fernandes, Bernardo Silva (Otávio, 87′), João Félix (Rúben Neves, 62′) e Cristiano Ronaldo

Suplentes não utilizados: Rui Patrício, José Sá, Pepe, Ricardo Horta, Inácio, Rafael Leão, Dalot e Vitinha

Treinador: Roberto Martínez

Bósnia: Sehic, Ahmedhodzic, Sanicanin, Kolasinac (Gazibegovicm 78′), Barisic (Hamulic, 71′), Dedic, Cimirot, Hadziahmetovic (Tahirovic, 71′), Pjanic (Piric, 78′), Dzeko e Stefanovic

Suplentes não utilizados: Vasij, Milicevic, Menalo, Prevljak, Bibija, Kodro e Varesanovic

Treinador: Faruk Hadzibegic

Golos: Bernardo Silva (44′) e Bruno Fernandes (77′ e 90+3′)

Ação disciplinar: cartões amarelos a Pjanic (41′), Danilo (51′) e Tahirovic (84′)

Por muito que a seleção nacional tentasse forçar a entrada pelo meio, foi através do corredor que a equipa das quinas conseguiu criar perigo. João Cancelo cruzou para a área onde não faltavam soluções para finalizar. Cristiano Ronaldo acabou por ser brindado com a assistência do lateral. O jogador do Al Nassr concluiu o lance, mas o golo foi anulado por fora de jogo. 

Respondeu de imediato a Bósnia. Dois dos centrais portugueses, António Silva e Rúben Dias foram atraídos pelo portador da bola, enquanto que o terceiro, Danilo, esqueceu-se de marcar Dzeko. O avançado do Inter rematou por cima quando tinha condições para fazer melhor. Era o segundo sinal de grande perigo da Bósnia, uma vez que já antes Dedic tinha realizado um cruzamento traiçoeiro que obrigou Diogo Costa a aplicar-se.

João Félix tentou de longe, mas foi bem perto do guarda-redes que Bernardo Silva (44′) picou a bola para dar a vantagem à seleção portuguesa. Estava contrariada a lógica. A Bósnia era detentora das oportunidades mais perigosas, ao passo que Portugal foi a equipa que concretizou. “Sonho muito ganhar um Mundial ou um Europeu por Portugal. Vou trabalhar para conseguir isso”, disse o jogador do Manchester City esta semana. Pois bem, se ele quer o mundo deem-lho, porque um jogador destes vale esse preço.

Obrigado ao jovem que invadiu o relvado, foi ter com Ronaldo, lhe deu um abraço e lhe beijou as chuteiras por ter animado a segunda parte, colocando todo o Estádio da Luz a dizer “Siiii” mais vezes do que aquelas que tinha gritado golo até então.

A primeira substituição de Roberto Martínez foi conservadora. O técnico retirou Félix e lançou Rúben Neves, adiantando Bruno Fernandes. Teria sido uma boa altura para ver mais uma vez o que pode Gonçalo Ramos dar ao ataque da equipa não fosse o avançado do Benfica ter abandonado a concentração da equipa devido a lesão. Para este encontro, Martínez cortou ainda Toti Gomes e Renato Sanches por só poder ter 23 jogadores na ficha de jogo.

Bruno Fernandes tirou partido da posição de falso extremo e, depois da assistência toma lá que fez para Bernardo Silva no primeiro golo, também o jogador do Manchester United teve oportunidade de marcar e logo por duas vezes. Primeiro, aos 77′, respondendo de cabeça a um cruzamento de Rúben Neves e, depois, aos 90+3′, com uma trivela que entrou mesmo onde tinha que ser.

Martínez continuou a fazer mexidas, sendo que Otávio não se livrou de ouvir assobios da Luz quando entrou em campo. Portugal acabou por vencer e com o 3-0 final passou a somar nove pontos no grupo J de apuramento para o Euro 2024. Segue-se uma viagem até à Islândia na terça-feira.