O secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, instou esta quarta-feira doadores e instituições financeiras internacionais a cumprirem os seus compromissos de financiamento para o Paquistão, após as graves inundações que submergiram um terço do país em 2022.

Numa reunião informal da Assembleia Geral da ONU para analisar o resultado dos compromissos assumidos pela comunidade internacional para apoiar as famílias afetadas pelas cheias no Paquistão, Guterres recordou que as monções do ano passado fizeram cerca de 1.700 de mortos, oito milhões de deslocados e afetaram 33 milhões de pessoas.

Mais de 1.200 mortos nas inundações no Paquistão

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“Jamais esquecerei a devastação devida ao clima que vi. Vidas, casas, meios de subsistência, escolas, hospitais — tudo destruído”, disse o líder da ONU, que visitou a região afetada em setembro de 2022.

“Mais de oito milhões de pessoas em zonas afetadas pelas cheias não têm acesso a água potável. Milhões dependem da ajuda humanitária. Mais de dois milhões de casas, 30 mil escolas e duas mil instalações de saúde foram danificadas ou destruídas — e a reconstrução apenas começou“, lamentou.

Além disso, a economia do Paquistão foi também duramente afetada, com a inflação dos preços dos alimentos a aproximar-se dos 40%, as inundações a devastarem a agricultura, a fazerem os preços gerais aumentar e a reduzir os rendimentos das famílias. “Mais oito milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza; e outros milhões foram forçados a deslocar-se em busca de trabalho”, assinalou o secretário-geral.

Apesar de informar que o Plano de Resposta às Inundações, que pedia 816 milhões de dólares (776,7 milhões de euros) para o Paquistão, estar agora financiado em 69%, Guterres indicou que o país ainda espera grande parte do financiamento que foi prometido em janeiro numa conferência internacional.

“Foram prometidos milhares de milhões — mas a grande maioria foi em empréstimos. O Paquistão ainda está à espera de grande parte do financiamento e os atrasos estão a minar os esforços das pessoas para reconstruir as suas vidas”, disse.

“Apelo aos doadores e às instituições financeiras internacionais para que o mais rapidamente possível cumpram os seus compromissos e coloquem sobre a mesa o dinheiro que prometeram“, instou o chefe das Nações Unidas.

Guterres, que tem no combate às alterações climáticas uma das prioridades do seu mandato, observou ainda que o Paquistão é responsável por menos de 1% dos gases com efeito de estufa, mas a sua população tem 15 vezes mais probabilidades de morrer devido aos impactos relacionados com o clima do que os cidadãos de outros países.

O Paquistão é uma vítima dupla: do caos climático e do nosso sistema financeiro global desatualizado e injusto que impede os países de rendimentos médios de aceder aos recursos tão necessários para investir na adaptação e na resiliência”, afirmou, perante o corpo diplomático presente da reunião.

“Há muito que alerto que o caos climático está a bater à porta de todos. Hoje [em dia], está a derrubar essa porta, desde a Líbia até ao Corno de África, China, Canadá e mais além”, disse. Guterres classificou o Paquistão como “uma crónica do caos climático anunciada” e afirmou que “não há nada de natural num desastre desta escala”.

O ex-primeiro-ministro português voltou a criticar os sistemas energéticos baseados em combustíveis fósseis e considerou “imperativa” uma mudança para energias renováveis.

“O Paquistão é um teste decisivo para a justiça climática. A responsabilidade é clara. (…) Os países que mais contribuíram para o aquecimento global devem contribuir mais para corrigir os danos que este causou. Começando no Paquistão”, concluiu.

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