“Viva la Libertad, carajo!” Foi citando o Presidente argentino, Javier Milei, que o ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Saar, revelou na rede social X o ataque desta segunda-feira à prisão iraniana de Evin, em Teerão — um estabelecimento dedicado maioritariamente a quem se opõem ao regime de Teerão, incluindo académicos e jornalistas estrangeiros usados para trocas com países do Ocidente.

“Avisámos o Irão vezes sem conta: parem de atacar civis! Eles continuaram, inclusive esta manhã”, denunciou o ministro no X.

Já o ministro da Defesa, Israel Katz, tinha afirmado na mesma rede social que o país tinha atacado “órgãos de repressão do governo” iraniano, entre os quais a prisão.

O ataque foi confirmado também pela agência oficial do sistema judicial Mizan Online. “Durante o último ataque do regime sionista a Teerão, os projéteis atingiram infelizmente a prisão de Evin, causando danos em algumas secções”, revelou a agência. O filho do opositor iraniano Abolfazl Ghadyani revelou igualmente nas redes sociais que “todas as janelas estão estilhaçadas” e o hospital do estabelecimento ficou “parcialmente danificado”.

À France 24, uma antiga prisioneira que mantém ligações dentro de Evin, contou que a ala feminina ficou “severamente danificada“, mas sem quaisquer feridos graves.

Tortura e abuso sexual a mulheres

A prisão de Evin foi aberta em 1971, ainda durante o reino do Xá Mohammed Reza Pahlavi, altura em que o estabelecimento se tornou conhecido pelas “condições horríveis” em que eram mantidos os presos políticos que contestavam o regime do monarca.

Depois da Revolução Islâmica e a chegada do atual regime, a prisão passou então a prender aqueles que estavam ligados à monarquia deposta e os opositores ao novo governo do país, tendo continuado a ser palco de situações de tortura, crueldade e abusos contra prisioneiros, segundo a Amnistia Internacional.

Em 1988, de acordo com a Human Rights Watch, Evin foi um dos principais pontos do massacre de prisioneiros políticos, onde milhares terão sido mortos pelo regime, diz a organização.

O estabelecimento é conhecido hoje pelas condições em que os prisioneiros são mantidos. Nasim, uma cabeleireira que detida nos protestos que se seguiram à morte de Mahsa Amini, em 2022, contou à BBC que foi mantida numa solitária durante quatro meses em Evin, só tendo acesso aos interrogadores que a questionavam “dez a 12 horas por dia“.

Até janeiro deste ano, a jornalista italiana Cecilia Sala era uma das presidiárias na ala feminina de Evin, mas saiu após uma troca de prisioneiros que permitiu libertar iraniano Mohammad Abedini — a operação deveu-se a uma manobra diplomática da primeira-ministra italiana, Georgia Meloni.

No início do ano, Sala relatou as condições em que estava detida numa chamada com a família. Segundo a jornalista, citada pela agência ANSA, não havia colchão nem almofadas na sua cela, sendo obriganda a dormir com dois cobertores em pleno inverno. As luzes estavam sempre acesas e nem os guardas que a mantinham presa podia ver. A comida era-lhe entregue num buraco na cela.

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Narges Mohammadi, ativista vencedora do Prémio Nobel da Paz em 2023, cumpre uma pena de prisão — a quinta — em Evin. No ano anterior, denunciou uma cultura de situações de abuso sexual dos guardas prisionais às mulheres que tinham sido presas nos protestos de Amini, incluindo uma ativista que terá tido as suas mãos e pés amarrados.

“Não revelar estes crimes contribuiria para a continuação da aplicação destes métodos repressivos contra as mulheres“, contou então a opositora e defensora dos direitos das mulheres.

Em outubro de 2022, um incêndio na prisão provocado por uma luta causou a morte de oito prisioneiros, de acordo com as autoridades citadas pela Reuters.

Hedayatollah Farzadi, diretor da prisão, foi também um dos visados por sanções europeias em abril deste ano, num pacote direcionado a vários membros do ramo judicial iraniano, face ao crescimento das  “graves violações dos direitos humanos no Irão“, assim como de execuções no ano passado, lê-se no comunicado do Conselho Europeu.

Quem são os estrangeiros ainda presos em Evin?

Atualmente, noticia o New York Times, “milhares de prisioneiros” estão presos no estabelecimento, incluindo “destacados políticos da oposição, ativistas políticos e ambientais, advogados, jornalistas e estudantes”.

Para além destes, a prisão é também o local onde são mantidos vários cidadãos estrangeiros, incluindo os franceses Cécile Kohler e Jacques Paris, conta a televisão France 24. A irmã de Cécile, Noélie Kohler, criticou o ataque, chamando-lhe “o pior que podia acontecer”

“Este ataque é completamente irresponsável. Cecile, Jacques e todos os prisioneiros correm perigo de vida”, acrescentou.

O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean Noel Barrot, partilha a opinião, ao considerar que os bombardeamentos ao estabelecimento são “inaceitáveis” por colocarem em risco os franceses ali presos.

“O ataque à prisão de Evin, em Teerão, colocou em perigo os nossos cidadãos, Cécile Kohler e Jacques Paris, mantidos como reféns há três anos”, acrescentou na publicação.

Ahmadreza Jalali, académico com dupla nacionalidade iraniana e sueca, também é outro dos prisioneiros de Evin, onde esperava no corredor da morte até ser transferido depois do ataque, disse com a sua mulher, Vida Mehrannia, à France 24.