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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A noite eleitoral vista do sofá /premium

Hugo van der Ding ficou a noite de domingo inteira a olhar para as televisões. Começou no red carpet das eleições e acabou nos discursos dos eleitos. É a análise que faltava às Europeias.

As eleições europeias de 2019 bateram um recorde de participação em toda a Europa. Em toda? Em toda não! Em toda, menos em Portugal, quiçá por termos melhores praias que, por exemplo, a Holanda, onde o mar é gelado e acastanhado pelas algas, ou a Áustria, que nem praias tem, coitada.

É sabido que ninguém em Portugal quer saber das eleições europeias para nada. E este ano ainda menos, que Conan Osiris não estava a concurso. Mas não deixa de ser um grande espetáculo de televisão. Os três canais generalistas, e os seus congéneres de notícias, cobriram o evento, naturalmente, juntando toda a prata da casa, todos os comentadores de serviço e até alguns comentadores que hoje, por ser domingo, não estavam de serviço, mas vão na mesma. Isto para informar os portugueses, minuto a minuto, dos resultados de uma eleição de que, como recordei no início, ninguém quer saber. Mas fazem mal. Escolher os deputados que nos representarão no Parlamento Europeu é a melhor maneira de escolher as pessoas que não queremos ver na política nacional.

Por exemplo, ao eleger Marinho e Pinto como eurodeputado em 2014, os portugueses garantiram que não teriam de vê-lo no Você na TV todas as manhãs, comentando assuntos vários, regra geral crimes de faca e alguidar. Que são os melhores crimes, diga-se de passagem.

Quem foi votar hoje em Paulo Rangel, manda ao PSD um sinal claro de que não quer no Parlamento português deputados com a voz do Pato Donald. Que vá para Bruxelas, parece dizer o eleitorado.

Uma coisa é querer que as políticas europeias se lixem, outra é poder aproveitar a oportunidade de mandar para longe da vista, longe do coração, a cara enfadonha de Paulo Marques, ou Pedro Mendes, ou lá como se chama o cabeça de lista do PS. Ou, por outro lado, o penteado anacrónico de Nuno Melo.

O Bloco de Esquerda e o PCP têm geralmente resultados piores nestas eleições, porque insistem em concorrer com pessoas giras, que dão menos vontade de mandar lá para fora, como é o caso de Marisa Matias e de João Ferreira, cada um no seu género. Pese embora o PCP, seja qual for o resultado, ganhar sempre, como se sabe.
Nos micro-partidos, seja como for, ninguém vota mesmo.

Red carpet

Nestas coisas, ao contrário de outras noites de prémios mais interessantes como os Óscares, os MTV Awards, os Grammy, os Emmy, os Globos de Ouro, o Festival da Eurovisão ou as galas do A Tua Cara Não Me É Estranha, o red carpet começa logo de manhã bem cedo. Metade do glamour vai logo ao ar, que de manhã toda a gente tem sempre pior aspeto, alguns ainda com as marcas da almofada na cara, como foi o caso de Marinho e Pinto, ainda que tenha sido o que mais tarde votou (perto das onze).

Aqui fica, um a um, o que cada líder e candidato levou para as várias secções de voto: os sapatos, os cabelos, os acessórios. E claro, a pergunta que bailava na boca de cada jornalista, de cada membro da mesa de voto: Quem é que está a usar? (A tradução portuguesa do célebre “Who are you wearing?”).

Presidente da República

Sua Excelência, o Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, o mais alto magistrado da Nação, ou talvez o segundo mais alto, que creio que Ferro Rodrigues ainda tem uns bons oito ou nove centímetros a mais que Marcelo, votou logo de manhã cedo em Celorico de Basto. Não adoro que o Presidente tenha ido votar às berças, mas eu sou um confesso sulista, elitista e liberal, como chamava em 1995 Luís Filipe Menezes aos habitantes da capital do seu país. Mas pronto, antes Celorico de Basto do que Celorico da Beira, que soa ainda pior. Estou a brincar.

Depois dos dez anos do consulado de Cavaco Silva na Presidência da República, em que assistíamos nestes dias de eleição a uma verdadeira passagem de modelos da Maconde, marca de que Cavaco foi embaixador, Marcelo é uma lufada de ar fresco. Não é que tenha arriscado muito, não foi propriamente de vestido de noite, ou de transparências, nem vestido de índio, mas isto também não é a Gala do Met. Para esta red carpet, Marcelo elegeu, um fato escuro, simples mas bom, de alfaiate, o único que não foi de pronto-a-vestir. Acompanhou o fato com uma camisa azul, um must destas eleições. Foi também o único que levava gravata, azul cueca com bolinhas brancas, um piscar de olhos à própria bandeira da Europa, mas estilizada. Para a pré-gala, Marcelo foi depois almoçar ao Banco Alimentar contra a Fome. Parece um contrassenso, mas a vida é feita destas coisas. Que melhor maneira de combater a fome do que almoçar ou jantar? Marcelo sempre a liderar pelo exemplo.

Estrelas: ★★★★

PS

O primeiro-ministro António Costa votou em Lisboa, mais precisamente em Benfica, numa escola qualquer. Para não variar, mostrou mais uma versão do seu habitual estilo abandalhado-chic. Trazia um fato cinzento muito escuro, quase preto, estilo Man in Black, mas sem gravata. O casaco do fato estava bastante amassado, dando a ideia de que o terá atirado para cima do banco do carro e depois, esquecendo-se, se terá sentado em cima dele na viagem até à sua secção de voto. A camisa era branca, sem uma ramagem que fosse. Saudades do tempo em que os líderes socialistas não dispensavam as gravatas Armani, os casacos Tom Ford, os sapatos Prada e os botões-de-punho Cartier, como nos habituou José Sócrates. Mas, como o atual primeiro-ministro tem de comprar a sua própria roupa, ao contrário de Sócrates que o fazia através de dinheiro desviado e lavado por um amigo, é natural que Costa não possa arriscar tanto.

Para o seu pré-gala, Costa anuncia que irá “tratar de tarefas domésticas”. Credo, para isso, mais valia ter ido votar a Celorico de Basto.

Estrelas: ★★

Já o cabeça de lista do PS, Pedro Marques, escolheu para cumprir o dever de voto a cidade, ou vila, ou aldeia, sei lá, de Alcochete. Perdeu, no entanto, por preguiça, ou ignorância, ou as duas coisas (não me admirava nada), a oportunidade de ir vestido de campino. Teria sido um rasgo de espírito que não se lhe viu durante a campanha. O candidato mais aborrecido e até um pouco nhonhó, ou panhó, destas eleições levou uma camisa azul sem botões no colarinho e umas calças de ganga. Sexy sem ser vulgar, deve ter pensado ele. Cheguei a achar que não trazia cinto, o que lhe teria dado um toque de irreverência e de originalidade. Tudo o que lhe faltou, portanto. Mas trazia cinto, muito discreto, quase da cor das calças. Como ele próprio.

Estrelas: ★★

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

PSD

O líder dos sociais-democratas, Rui Rio, votou naturalmente no Porto, mais precisamente na freguesia de Massarelos. Foi o único que trouxe o cabelo como se usa nestas coisas, puxado para trás, num estilo a que os especialistas em hairstyle chamam “lambido por uma vaca”. Também arriscou mais no fato. Quebrou a monotonia dos fatos escuros, trazendo calças escuras, camisa branca, mas um blazer cinzento-azulado, desportivo, com cotoveleiras e um lenço escuro na lapela. Lapela essa onde trazia também guardada uma caneta, numa clara homenagem às Pequenas e Médias Empresas, nomeadamente aos merceeiros. Só lhe fica bem. A seguir, no seu pré-gala, diz-nos que irá para um hotel no Porto, “sem qualquer significado especial”. Pelo menos, não foi para Celorico nenhum.

Estrelas: ★★★★

O cabeça de lista do PSD, Paulo Rangel, também votou na sua cidade natal, a Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto. Mas, num toque de humor, fê-lo numa coisa chamada Escola Básica da Pasteleira. Um nome divertido, que tive de voltar atrás com a box para ver se seria mesmo verdade. Era. Rangel, que nos últimos anos perdeu algum peso e exibe hoje uma forma física invejável, surgiu na Pasteleira de calças bege, casaco escuro e camisa azul desmaiado. É uma fórmula que, como fica sempre mal, acaba por ficar sempre bem. Confesso que contava vê-lo de camisola de alças e calções de licra, que já que se malha no ginásio, que se mostre o que se tem.

O seu pré-gala será no mesmo hotel no Porto “sem qualquer significado especial” onde está Rui Rio.

Estrelas: ★★

BE

Nestas coisas, é sempre das mulheres que esperamos o maior arrojo. Pois nada. Catarina Martins, a coordenadora do Bloco, que é como eles chamam ao presidente, que “presidente” tem sempre um toque mais burguês, votou em Vila Nova de Gaia. Por acaso, não sabia que ela era de lá. Não parece nada. Bom, mas o Marcelo também não parece nada de Celorico de Basto, e a verdade é que é.

Quem esperava ver Catarina de vestido de gala, comprido, de racha até meio da perna, e generoso decote, comprado por cinco euros nas lojas de roupa em segunda mão Humana, teve uma enorme desilusão (que foi o meu caso). Não descarto a hipótese de que a roupa fosse em segunda mão, mas trouxe umas calças de ganga, um top preto, e um casaco de um subtil cor-de-rosa. Uma espécie de pot-pourri de moda Geringonça: as calças de ganga a lembrar a classe operária do PCP, o top preto e moderno a representar a matriz mais urbana do Bloco e o blazer cor-de-rosa, a cor do Partido Socialista, como se sabe. Rematou o conjunto com colar de pedra verde, lembrando que na Geringonça há também Heloísa Apolónia dos Verdes. O corte de cabelo era péssimo, mas madeixas estavam bem feitas. Para o pré-gala seguirá para Lisboa.

Estrelas: ★★★

A segunda mulher a pisar a red carpet desta noite eleitoral foi a cabeça de lista do Bloco de Esquerda, Marisa Matias que, ao contrário da sua líder, perdão, da sua coordenadora, resolveu dar mais atenção ao cabelo do que propriamente ao look. Votou em Coimbra, na freguesia de Santo António dos Olivais. Ficámos a saber que é a freguesia mais populosa da cidade de Coimbra, uma informação completamente inútil. Ficaram assim representadas as três maiores cidades nacionais: Lisboa, Porto e Coimbra. Ainda que Coimbra o seja meramente na cabeça dos conimbricenses, agora que já não vive lá ninguém e que a Universidade perdeu grande parte da sua importância. Desconfio que mora menos gente em Coimbra do que em Celorico de Basto. Mas tradições são tradições. Voltando a Marisa: ao cabelo liso impecável juntou um top preto com riscados a branco, como se o tivesse salpicado de lixívia, ou se tivesse estado com ele a pintar uma parede da sede do Bloco. Por falar em pintar, foi com um simples creme de dia e um vago baton rosa que a cabeça de lista do Bloco chegou à mesa de voto.

Para o pré-gala, seguirá também para Lisboa, como Catarina Martins. Deverá chegar primeiro, que vai de Coimbra enquanto Catarina sai de Vila Nova de Gaia, ou seja, ainda tem mais uma hora de meia de caminho.

Estrelas: ★★★★

Nenhuma das televisões nacionais (as internacionais não vi, mas suponho que ainda menos) se deu ao trabalho de ir espreitar onde votaram (e o que levavam vestido) os líderes e os candidatos do PCTP/MRPP, do PNR, do Nós, cidadãos!, do PTP, da Iniciativa Liberal, do MAS, do PURP, do Basta, ou do LIVRE. Se calhar, iam todos giríssimos, e para nada.

CDU

Como é tradição ainda do tempo em que, na clandestinidade, lutavam contra a ditadura em Portugal, o líder e o cabeça de lista do PCP aproveitaram a red carpet para homenagear os trabalhadores portugueses, tendo vindo vestidos, respetivamente, de criado de mesa e de motorista da Carris.

Jerónimo de Sousa votou no Grupo Desportivo de Pirescoxe (sic!), em Santa Iria da Azóia. Foi já a tomar a bica que aceitou falar aos jornalistas. Falou-se mais das eleições do que de moda, o que foi pena. Ainda assim, falou mais da Europa nestes breves trinta segundos do que todos os candidatos juntos ao longo de toda a campanha eleitoral. Curioso, vindo do partido que finge que é europeísta. De Sousa exibiu, enquanto beberricava a bica escaldada, umas calças pretas sem vinco, camisa branca de mangas arregaçadas. E mais nada. Não precisa de mais. O seu pré-gala será passado na mesma taberna, onde irá assistir à cerimónia na televisão coletiva. Sim, que isto de ter televisão em casa é coisa de fascistas.

Estrelas: ★★★

Sejamos francos: o cabeça de lista dos comunistas, João Ferreira, até podia ir dentro de um saco de batatas de serapilheira que estaria sempre bem. Mas não nos deu esse gosto. Levou calças azuis escuras e camisa azul clara, de mangas também arregaçadas, como o seu camarada Jerónimo. Votou em Lisboa, na burguesa freguesia do Lumiar. Se isto continua assim, qualquer dia deixam de convidar uma delegação da Coreia do Norte para a Festa do Avante. Não quis dizer onde vai ser o seu pré-gala, ou não lho perguntaram, mas arrisco que será na sede do partido, no Hotel Vitória à Avenida da Liberdade.

Estrelas: ★★★★★

CDS-PP

A líder do Partido Popular, Assunção Cristas, foi a grande desilusão desta red carpet. A mulher que já nos mostrou looks tão diversos como um vestido de kiwis ou umas calças de ganga e botas para visitar bairros de barracas, ou “bairros sociais” como se diz fora das reuniões do PP, escolheu para o dia das eleições um visual trágico, quase das barracas: calças de ganga brancas e um top azul marinho de decote grande mas subido. Eu esperava, pelo menos, que trouxesse um fato de marinheiro às riscas azuis e um lenço encarnado ao pescoço, como se usava nos anos 90, época em que pararam, em termos de moda, os eleitores deste partido. Ora se os homens do PP continuam a ser fiéis às calças beges, às camisas azuis, aos casacos estilo yacht club de botões dourados com âncoras, e aos sapatos de vela com berloques, não se percebe porque não fazem o mesmo as mulheres. Uma traição ao eleitorado que saiu cara à líder do PP. Votou em Lisboa, em Miraflores. Isto, claro, para quem acha que Miraflores é em Lisboa. Não é o meu caso. Sou daquelas pessoas que já acham que as Avenidas Novas ficam nas berças. Lisboa é a Baixa, o Chiado, e vá, Alfama e Mouraria, assim mais em típico. O resto é subúrbios. Facto curioso, Assunção foi a única que distribuiu beijinhos aos membros da mesa de voto. À saída, deu também dois beijinhos a um apoiante do PP, que a deixou pendurada, pois devia achar, mal, que Cristas dava só um.

Estrelas: ★★

Foi o cabeça de lista do PP, Nuno Melo, que acabou por fazer jus à moda do partido: calças cinzentas com vinco (apesar de o dia quente ter permitido umas calças encarnadas), uma camisa branca e o sempiterno casaco escuro de botões dourados. Não deu para ver se os botões teriam âncoras ou não, mas vamos acreditar que sim. Para rematar o conjunto, que os anos 90 não se fazem só de roupa, mas também de cabelos, Melo surgiu em Famalicão, onde votou, com um impecável penteado à f*da-se, como se chamava nos anos 90, a época dourada dos resultados eleitorais do CDS/PP.

Também não consegui saber onde irá assistir ao esperado momento da revelação dos resultados. Talvez em Famalicão. Enfim, cada um é para o que nasce.

Estrelas: ★★★

Por questões de fair play, incluo aqui também os pequenos partidos. Se saltarem esta parte, ninguém se importa, a verdade é essa.

Aliança

Pedro Santana Lopes, ou não votou, o que não me admirava nada, que é domingo, ou nenhuma televisão se deu ao trabalho de o ir filmar. Ou isso, ou chegou ao local de voto de helicóptero do INEM, entrando pelo telhado e ninguém deu por ele. Tenho pena, que o gostaria de o ver com uma badana na cabeça.

Estrelas: N/A

Já o cabeça de lista, Paulo Sande, votou no civilizado bairro lisboeta da Lapa. Mas disse que era a primeira vez que lá votava, o que me deixa a pulga atrás da orelha de que seja novo no bairro, o que é uma coisa que na Lapa é visto como bastante possidónio. Levou fato azul escuro e camisa branca, mas nada de mangas arregaçadas, que seria! Não sei onde vai assistir ao resto da gala, provavelmente na sede de campanha. Se é que o Aliança tem sede de campanha.

Estrelas: ★★★

PAN

Ninguém esperava, naturalmente que o líder do PAN, André Silva, fosse votar com uma estola de raposa ao pescoço, ou de casaco de vison, ou de sapatos de crocodilo. Os bichos não são acessórios. Não percebi onde votou, mas sei dizer que levava um polo preto só de um botão, aberto. Também não deu para ver as calças, mas seriam provavelmente de algodão ou linho. Sim, que os animais são nossos amigos, mas queremos mais é que as plantas se lixem, não é? Achei mal. A sua pré-gala, desvendou, será passada na praia, a apanhar sol e relaxar. E, eventualmente, a fazer uma manifestação contra a exploração de petróleo no Algarve.

Estrelas: ★★★★

O cabeça de lista, Francisco Guerreiro, votou na solarenga vila de Cascais. Escolheu umas calças azuis, e uma camisa de um cor-de-rosa desmaiado. Depois de votar, desvendou que a sua pré-gala será passada numa feira vegetariana em Cascais. Que pachorra…

Estou a brincar! Adoro comida vegetariana. Quer dizer, por acaso não adoro, mas também não odeio.

Estrelas: ★★★★

PDR

O líder, cabeça de lista, único militante e provavelmente único votante do PDR, Marinho e Pinto, votou em Coimbra. O ex-bastonário-tornado-político, que achava um escândalo o seu próprio ordenado de eurodeputado, não arriscou muito: levou calças em bege, camisa branca, casaco azul-escuro. No bolso do casaco levava uns óculos de ver ao perto que, reparei, não usou para votar. Esperemos que não se tenha enganado no quadradinho do boletim de voto, ou lá se foi o único voto do PDR.

Estrelas: ★★★

Os outros

Nenhuma das televisões nacionais (as internacionais não vi, mas suponho que ainda menos) se deu ao trabalho de ir espreitar onde votaram (e o que levavam vestido) os líderes e os candidatos do PCTP/MRPP, do PNR, do Nós, cidadãos!, do PTP, da Iniciativa Liberal, do MAS, do PURP, do Basta, ou do LIVRE. Se calhar, iam todos giríssimos, e para nada. Ficou o país a perder.

Estrelas: ?

Menções especiais

Uma nota especial para Ana Sofia Antunes, a secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência. Foi celebrar as primeiras eleições em Portugal com boletins de voto em braille, uma evolução que todos saudamos. De vestido leve às flores, a secretária de Estado, a primeira pessoa cega a ocupar um cargo governativo no nosso país, foi, de longe, a política mais bem vestida deste dia.

O que diz bastante dos looks dos candidatos. Julgo eu.

Estrelas: ★★★★★

A grande gala

Com a red carpet despachada, aguardamos ansiosamente pela gala propriamente dita. O momento alto da noite: conhecermos os 21 eurodeputados portugueses, dos 751 que tem o Parlamento Europeu. Ou seja, os emigrantes portugueses mais bem-sucedidos lá fora.

As eleições europeias têm uma importância suprema: é das instituições europeias que vem entre 60 a 80% da legislação que é aplicada nos vários países. Só por isto se percebe que seria ainda mais importante votar nestas eleições do que nas legislativas, onde se escolhem os políticos que se limitam a executar as ordens europeias, ou nas autárquicas, onde se elegem os políticos que aproveitarão o poder local para roubar dinheiro, geralmente através de subornos para a aprovação de obras públicas.

Mas parece que nem os portugueses em geral querem saber disso para nada. Que grandes labregos!

As primeiras projeções são dadas às sete horas certas, quando encerram as urnas de voto. Mas, por uma questão de educação e de simpatia, espera-se que sejam sete da tarde em todo o território nacional. Assim, os dez milhões de pessoas que vivem no continente esperam mais uma hora por aquelas 130 pessoas que vivem na Região Autónoma dos Açores, espalhadas por uma série de calhaus no meio do mar e que vivem atrasados uma hora, seguramente pela dificuldade de lá chegar a tempo a hora certa.

Estou a brincar, os Açores são a região mais bonita de Portugal, e não conheço nenhum açoriano que não seja uma pessoa fantástica. Nem sempre consigo apanhar tudo o que estão a dizer, que o sotaque em algumas ilhas roça os limites do absurdo, mas apanho uns 70% e, extrapolando para os outros 30%, creio poder afirmar que na sua generalidade dizem coisas bem engraçadas.

Também já acima enxovalhei outras regiões do país, por isso penso que ninguém ficará chateado. Deixarei de fora a Região Autónoma da Madeira, que já tem problemas que cheguem.

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

A grande vencedora da noite, já o sabemos todos, será sempre a abstenção, que se estimava já, a meio da tarde, ser superior aos 70%.

Já se sabe que os bêbedos e os drogados, por ser domingo, costumam abster-se para ficar a curtir a ressaca. Ou, então, vão diretamente da discoteca para a secção de voto, e acabam por votar nulo, sem querer. Ou em branco. Ou em branca.

Mas desta feita, também pessoas que até têm um estilo de vida mais ou menos saudável terão preferido ir para a praia. Se houvesse gente com dois dedos de testa na Comissão Nacional de Eleições, montavam-se as mesas de voto à entrada da praia. E, para chamar ainda mais gente, dava-se uma bola de Berlim a cada votante. Às vezes, fico a pensar que sou a única pessoa em Portugal com ideias geniais, sinceramente. E já dizem os ingleses: é difícil voar alto como uma águia quando se está rodeado de perus. Enfim…

Vamos então espreitar como cada canal de televisão (dos três maiores) conduziu a emissão. Ninguém vota, mas toda a gente quer ver quem ganhou.

RTP / RTP 3

Para a Grande Noite Eleitoral, a RTP escolheu como apresentador principal José Rodrigues dos Santos, o escritor, não o antigo Presidente de Angola, que tem um nome igual ou, pelo menos, muito parecido, mas que agora não me ocorre. Pessoalmente, teria preferido ver Filomena Cautela e Inês Lopes Gonçalves, mas eles é que sabem. Depois não se queixem de que mudou toda a gente para a concorrência. Brinco. Nestas coisas, espera-se sempre do serviço público de televisão que seja mais sóbrio e comedido que os outros. Afinal de contas, isto não é o Quem Quer Casar Com o Eurodeputado. Mas também não dá para cair no soporífero e, para isso, contou-se com o dinamismo e eficiência de João Adelino de Faria, sempre irrepreensível. A seu lado, teve por vezes Bernardo Pires de Lima, comentando as sondagens das votações internacionais. Mas, para mim, quem mais brilhou na estação pública, foi Ana Lourenço, a jornalista preferida de toda a gente. Podia ter estado o tempo todo a dar receitas de bacalhau ou de coleções de caixas de fósforos, que seriam sempre dos momentos mais interessantes da noite. É para quem pode, não é para quem quer. Esteve acompanhada por Pedro Norton e Pedro Adão e Silva. Fica a lição de que não é preciso uma pilha de gente a comentar, e sempre fica mais em conta, que somos nós que pagamos aquilo tudo. Foi uma emissão serena, sem escandaleiras. Mas, como o que eu gosto é de uma boa escandaleira, darei apenas quatro estrelas.

Estrelas: ★★★★

SIC / SIC NOTÍCIAS

Como sempre nestas coisas, é com os pesos pesados que se fazem as grandes cerimónias. Foi, portanto, Rodrigo Guedes de Carvalho, Clara de Sousa e Bento Rodrigues quem, de pé, nos acompanharam ao longo da noite eleitoral. O cenário era assim a atirar ao americano, tipo CNN. Gostei. Tinham uma pilha de enviados em direto das sedes de campanha. Mas também era o que faltava que não tivessem, não é? Para comentar, lá tivemos de gramar com Luís Marques Mendes. Estou a brincar, não tenho nada contra Luís Marques Mendes. Estou a brincar, acho Luís Marques Mendes uma seca. Francisco Louçã e José Miguel Júdice (apanhado a limpar a boca a um lencinho de mão logo a abrir a emissão), também se juntaram ao painel. Bento Rodrigues, num dos seus já famosos travellings, foi ter com Pedro Magalhães, especialista em sondagens, com Ricardo Costa, especialista em política nacional, e com José Gomes Ferreira, especialista em tudo, desde economia doméstica a solas de galochas. Ana Gomes também comentou, mas sentada sozinha numa mesa, coitada. Mais do que os resultados nacionais, a eurodeputada socialista comentou os resultados internacionais. Suponho que era nestes momentos que os portugueses, que não querem saber disso para nada, infelizmente, aproveitavam para ir fazer um xixi. Bernardo Ferrão e João Vieira Pereira também foram. Não fazer xixi, mas sim comentar, naturalmente.

Em termos de humor, destaque especial para Rodrigo Guedes de Carvalho quando, anunciando a sondagem que dava o PAN com a mesma percentagem de votos que o PP, não resistiu a dizer que o tema “dará PAN para mangas”. Não resistiu também, ao ligar para o direto do Porto na sede de campanha dos PSD a comentar “vamos lá, por este Rio… bom, abaixo”. É por isto que toda a gente adora Guedes de Carvalho. Também adorei o facto de a SIC ser o único canal que mostrou os operadores de câmara, assim em voos picados de cima, como se faz lá fora. Não acrescenta nada, mas fica tudo muito mais dinâmico. Ganhou o prémio da emissão mais divertida das três.

Estrelas: ★★★★

E foi no habitual Hotel Altis em Lisboa que se cantou vitória. Costa e Marques apareceram juntos. Falou primeiro Marques, todo contente da vida. Não esboçou um largo sorriso porque, sem bater mais no ceguinho, já se sabe que não consegue. Mas lá que estava bem contente, lá isso estava. 

TVI / TVI 24

A TVI, agora sem Cristina Ferreira, foi buscar José Alberto Carvalho para abrilhantar a sua gala eleitoral. Quer dizer, não foi buscar que ele de certeza que já lá estava, não é? Para comentar os resultados, escolheu Manuela Ferreira Leite (que me pareceu constipada, provavelmente porque os dias estão quentes mas as noites ainda frias e há dias em que a gente acaba por se esquecer de levar um casaco de malha e depois apanha uma pontada de ar), Fernando Rosas, Fernando Medina e Telmo Correia. A versão Xanax de uma emissão de televisão. Noutro estúdio, sentado à secretária e não a cirandar de pé como José Alberto, comanda a emissão Pedro Pinto, acompanhado por Constança Cunha e Sá e Miguel Sousa Tavares. Com os zappings que tive de fazer para acompanhar as três emissões, não cheguei a ouvir nenhum dos dois. Peço-lhes por isso desculpa.

Nos diretos especiais, destaco o momento em que a enviada da TVI perguntou a António Costa se os bons resultados seriam “graças a ti”. Emendou imediatamente para “graças a si”. Mas eu apanho logo estas coisas e depois rio muito. E, por falar em graças, uma parte da emissão, antes do anúncio dos resultados oficiais, esteve a cargo de Ricardo Araújo Pereira. Creio não me enganar se disser que é a primeira vez que uma noite eleitoral tem um espaço de comédia. Pelo menos, de comédia voluntária, que as cacholas e os discursos de derrota dos candidatos com resultados piores também costumam ser um prato. Só que sem querer, acho eu. Só por isso, já levam mais uma estrela.

Estrelas: ★★★★

Os resultados

Aqui fica o que mais interessa, os resultados. Para além da elevada abstenção, já esperada, permitam-me comentar que a extrema-direita, ao contrário do que aconteceu noutros países, não teve qualquer expressão nos resultados eleitorais. É verdade que ajuda o facto de os líderes da extrema-direita portuguesa terem ficado a dois dedinhos apenas do atraso mental clínico, mas é sempre razão para dar os parabéns aos portugueses por não caírem nessa esparrela.

Os poucos portugueses que se deram à estucha de ir votar escolheram, para nos representar na principal instituição europeia:
ABSTENÇÃO: 68,6%
PS: 33,4% (9 deputados)
PSD: 21,9% (6 deputados)
BE: 9,8% (2 deputados)
CDU: 6,9% (1 deputado)
CDS-PP: 6,2% (1 deputado)
PAN: 5,1% (1 deputado)

E escolheram para não nos representar:
ALIANÇA: 1,9%
LIVRE: 1,8%
BASTA: 1,5%
NÓS, CIDADÃOS: 1%
INICIATIVA LIBERAL: 0,9%
PCTP/MRPP: 0,8%
PNR: 0,5%
PDR: 0,5%
PURP: 0,4%

Os discursos dos eleitos

Vamos então acompanhar os principais discursos dos protagonistas da noite, cuja tónica principal esperava-se que fosse, claro, o elevado valor da abstenção. É o momento de comédia de stand up da noite: os candidatos que, ao longo da campanha preferiram centrar-se em temas tão fraturantes como audições parlamentares a comendadores burgessos, viagens de helicóptero sobrevoando zonas ardidas e cataplanas cozinhadas em programas de televisão, em vez de falar da Europa, do Brexit, dos refugiados, da subida da extrema-direita, e de outros temas menores, queixam-se agora de que ninguém foi votar. Hilariante.

PS

O Partido Socialista foi o grande vencedor da noite. Ou seja, as poucas pessoas que votaram, foi no PS que puseram maioritariamente a cruzinha. E foi no habitual Hotel Altis em Lisboa que se cantou vitória. Costa e Marques apareceram juntos. Falou primeiro Marques, todo contente da vida. Não esboçou um largo sorriso porque, sem bater mais no ceguinho, já se sabe que não consegue. Mas lá que estava bem contente, lá isso estava. Agradeceu sobretudo ao PS. E menos às pessoas que votaram nele. Mas o discurso não foi mau. Bom, como ganhou, seria difícil estragar o discurso, penso.

Também Costa estava radiante. E é quando está radiante que Costa brilha mais. Não se esqueceu de falar aos portugueses que não votaram, prometendo conseguir provar-lhes, em futuras ocasiões, a importância da Europa. O público presente no Altis estava contente, sem estar histérico. Pareciam estar todos em família. Bom, e se calhar estavam mesmo. Depois ficou a falar horas e desisti de ver.

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

PSD

Foi no Hotel Sheraton do Porto que o PSD comentou o melão que sofreu nestas Europeias. É verdade que ficou em segundo. Mas, para os dois partidos tradicionais do arco da governação (expressão que me lembra sempre os Santos Populares), ficar em segundo é o mesmo que ficar em último.

Paulo Rangel falou antes ainda do fecho dos resultados oficiais. Vinha de olhos chorosos, pareceu-me. Deu os parabéns aos rivais socialistas. E reconheceu o falhanço dos dois objetivos: ganhar as eleições ou, caso não fosse possível, eleger, pelo menos, mais deputados. Aproveitou também para dar umas traulitadas em Costa, a quem culpou por ter centrado o tom da campanha em questões nacionais. Mas não falou da cataplana.

Falou depois Rui Rio, debaixo de gritos de “PSD! PSD! PSD!” do público. Até vinha animado, tendo em conta o desastre dos resultados. Agradeceu ao deputado Carlos Coelho, que fará as malas e voltará de Bruxelas, posto que não se conseguiu reeleger. Não sei quem seja, mas fiquei com pena dele. Depois agradeceu a mais uma pilha de gente antes de abordar o tema mais quente: a derrota eleitoral. Ah, afinal não. Falou bastante da abstenção, das campanhas em geral, mas não chegou a falar da derrota propriamente dita. Ou, se referiu, foi tão en passant que não apanhei…

Estou a brincar, disse que tinha três objetivos: subir muitíssimo, subir muito, e subir. Admitiu que não cumpriu nenhum deles. O público presente na sala continuou sempre animado, gritando o nome do partido e fazendo o V de vitória com dois dedos. Não percebi a que vitória de refeririam. A do Sporting, talvez?

BE

A sede de campanha do Bloco foi o Teatro Thalia, em Lisboa, que por acaso é um sítio bem giro, e foi lá que o partido celebrou ter-se consolidado como terceira força política nacional, e por ter juntado mais um colega a Marisa Matias. Foi por isso bastante sorridente que Marisa Matias se dirigiu ao país. Falou do clima, dos salários, das pensões e dos direitos das pessoas. Os temas que, segundo ela, mais interessam aos portugueses. É verdade, sobretudo as alterações climáticas. Estou a ser irónico, ninguém quer saber disso para nada. É pena, e um dia lixamo-nos todos. Na assistência, Catarina Martins bateu bastantes palmas. Mais tarde, quando falou, agradeceu o apoio de toda a gente que participou na campanha. Disse que não tinham cá agências de marketing e o caraças (o caraças é meu, não dela) e que fizeram tudo sozinhos. Imaginem então se tivessem, pareceu insinuar. Como uma das vencedoras da noite, estava bastante animada. Olha, assim também eu.

CDU

Foi ansiosos para saber como é que, para os comunistas, a CDU tinha sido a verdadeira vencedora da noite, como em todas as eleições, que fomos até à sede do partido, na Avenida da Liberdade. Não percebi bem o que disse João Ferreira. Mas creio que percebeu que os resultados não foram bons. Disse que era preciso reforçar a CDU. Pois, se calhar é melhor. Falou também numa campanha de medo feita pela comunicação social sobre os apoios do PCP a alguns regimes internacionais. Suponho que se referisse à Venezuela. Ou à Coreia do Norte. Como estes apoios não são mentira, em vez de “campanha de medo” mais certo seria falar de “tiro no pé”. Não?

Bem mais tarde, falou Jerónimo de Sousa. Não me pareceu muito chateado, mas nele é difícil perceber. Teria dado um bom jogador de poker. Não deixou de falar em derrota, mas do povo em geral. Quem perdeu, não foi o partido, foi o país, explicou. Assim sendo, resta-nos, claro, dar os parabéns a Jerónimo que, mesmo descendo em votos, não teve nada a ver com isso.

CDS-PP

Ligação em direto para a sede do PP no Largo do Caldas em Lisboa. Juntos, Cristas e Melo, sorridentes. Mas aquilo lá por dentro, só Deus sabe. Cristas deu os parabéns a todos os partidos. Assumiu depois que ficou aquém do objetivo de eleger mais um deputado pelo PP.

Já Nuno Melo, que consegue voltar para Bruxelas, citou Hemingway, e acrescentou que quem perdeu com a não eleição de Pedro Mota Soares não foi o CDS, mas sim Portugal. Quer dizer, não foi essa a citação de Hemingway, que acho que o escritor americano nem fazia ideia de quem seria Pedro Mota Soares. Pedro Mota Soares, respondendo ao elogio de Nuno Melo, deu-lhe uma chapada na cara, mas daquelas de amigos. Melo admitiu ainda ser o único responsável pelos maus resultados do partido. Olha, mas foi eleito, que é o que interessa. Digo eu.

PAN

Foi em Lisboa que André Silva e Francisco Guerreiro celebraram a primeira eleição de um eurodeputado. Era giro ter sido um pastor alemão, ou um hamster, ou até mesmo uma galinha-da-índia, mas não, foi mesmo Francisco Guerreiro. Estavam muito felizes, os ambientalistas portugueses. Falou André Silva, que avisou que o PAN não é uma moda, que veio para ficar. Quando ia Francisco Guerreiro a falar, cortaram a emissão, e voltaram para o estúdio, coitado. Mas deve ter falado de pessoas, de animais e de natureza. Ai, de certezinha!

Final

Enfim, uma noite animada, cheia de estrelas, que não envergonhou ninguém. Não foi pior, por exemplo, que a final da Eurovisão.

Pior, pior ficou a Europa em geral, com a subida dos partidos extremistas. O que é sempre péssima notícia, como a História já o demonstrou várias vezes.

Um dia, lixar-nos-emos à séria. Depois não digam que não vos avisei.

Quanto aos portugueses: parabéns aos vencedores e uma palmadinha nas costas aos que perderam. Daqui a pouco há mais.

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