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Na rodagem do filme "Rust", uma arma na mão de Alec Baldwin não devia estar carregada. Mas estava. Disparou e um projétil atingiu Halyna Hutchin, diretora de fotografia

Getty Images for IMDb

Na rodagem do filme "Rust", uma arma na mão de Alec Baldwin não devia estar carregada. Mas estava. Disparou e um projétil atingiu Halyna Hutchin, diretora de fotografia

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Alec Baldwin. Uma overdose, sucesso depois dos 50 e um acidente mortal que pode mudar tudo

Quis ser presidente dos EUA, acabou na representação. A fama veio com escândalos, até que o século XXI lhe trouxe tranquilidade. Até que um disparo fatal numa rodagem gerou um novo e inesperado drama.

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No rancho de Bonanza Creek estava tudo pronto para mais uma cena. Alec Baldwin, o protagonista, tinha uma arma na mão — a sua personagem no western “Rust” é um fora da lei que regressa em auxílio do neto acusado de homicídio. Essa arma não devia estar carregada. Mas estava. Disparou e um projétil atingiu Halyna Hutchin, diretora de fotografia. Transportada de helicóptero para o hospital University of New Mexico, a mulher de 42 anos acabaria por morrer. O realizador, Joel Souza, ficou ferido. Está internado no Christus St Vincent Regional Medical Center em estado crítico, mas estável. Para já, as informações disponíveis não vão além disto.

Sabe-se que o incidente aconteceu às 13h50 locais (20h50 em Portugal) de quinta-feira, 21 de outubro, no set de filmagens situado perto da cidade de Santa Fé, Novo México (EUA). Alec Baldwin estaria a filmar ou a ensaiar uma cena. Numa declaração divulgada à imprensa, a Rust Movies Productions LLC falou em “acidente” e informou que as filmagens seriam “suspensas por tempo indeterminado”. Os esclarecimentos das autoridades foram vagos, mencionando apenas um projétil.

Ator Alec Baldwin matou diretora de fotografia do filme que estava a rodar e feriu o realizador ao disparar arma de adereço

Baldwin terá colaborado de imediato com a polícia. Não houve detenções, apesar de a investigação ainda estar a decorrer — será preciso apurar porque estava a arma carregada e quem eram os responsáveis por esses adereços. À saída da esquadra de Santa Fé foi fotografado por um jornal local enquanto, transtornado e em lágrimas, falava ao telefone com alguém

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William, Stephen, Alec e Daniel Baldwin: os quatro irmãos em 2010

FilmMagic

Quase sempre considerado imprevisível e volátil — até mais na sua vida pessoal do que profissional —, nenhum desses fatores parece ter estado em jogo neste episódio. Além de ser protagonista de “Rust”, Alec Baldwin era também um dos produtores. Era a segunda vez que trabalhava com Joel Souza, depois de em 2019 ter produzido outro filme dele, “Crown Vic”.

Ainda não é possível saber o impacto do drama na vida dos envolvidos e na indústria cinematográfica (este não é o primeiro caso do género, também o filho de Bruce Lee morreu da mesma forma), mas podemos perceber melhor como Alec Baldwin demorou a chegar à fase apaziguada que parecia estar a viver — depois de consumos de droga e álcool, de uma batalha por poderes parentais demasiado pública e do sucesso que só chegou realmente depois dos 50 anos.

Um pai duro que era o herói

É o segundo mais velho de uma família de seis irmãos, duas mulheres e quatro homens — estes últimos, Daniel, William e Stephen também são atores. Alexander Rae Baldwin III nasceu a 3 de abril de 1958 em Amityville, Nova Iorque. Cresceu em Nassau Shores, pertencente a Massapequa, em Long Island. A mãe era dona de casa, o pai professor de História e Estudos Sociais na escola secundária. O bairro onde viviam estava dividido. “A parte sul à beira-mar, junto à auto-estrada, tinha médicos e advogados. Depois, a norte do caminho de ferro, era uma classe trabalhadora: polícias, bombeiros, miúdos duros. Eu definitivamente vagueava entre esses dois mundos”, recordou à revista “The New Yorker” numa entrevista dada em 2008.

Passou a infância no meio de lutas. “Tinha três irmãos mais novos que me comprometiam com as coisas. Era: ‘O meu irmão Alec vai dar-te uma sova!’” Em casa idolatrava o pai, apesar de ele ser muito rígido. Era o filho que se identificava mais com ele mas cresceu preocupado. Na biografia que escreveu em 2017, Nevertheless, revelou que viu sempre os pais em dificuldades por causa de dívidas e despesas e que ficou obcecado com dinheiro. “Só pensava: tenho de ganhar dinheiro, tenho de ganhar dinheiro. Não quero ser como o meu pai”, pode ler-se na obra.

Queria ser presidente dos EUA, virou ator, entre álcool e cocaína

1976, o plano era claro: ia estudar Direito na Universidade George Washington, em Nova Iorque, e um dia seria presidente dos EUA. Trabalhava no conhecido Studio 54 para ganhar uns trocos extra. A sua tarefa era limpar mesas, lavar a loiça, repor os produtos em falta. Estava empenhado no curso de Ciência Política, mas, depois de perder a eleição para representar os alunos e de se separar da namorada de então, sentiu-se desmotivado e largou tudo. Mudou-se para a NYU e estudou no Lee Strasberg Theatre Institute. Menos de um ano depois, estava na televisão, na soap opera (o equivalente às nossas novelas) “The Doctors” (entre 1980 e 1982).

A ressaca era passada a jogar videojogos das nove às 11 da manhã num salão de jogos local. Depois ia dormir. “Não queria ver ninguém, não queria ter de lidar com ninguém”, explicou numa conversa com o autor Christopher Kennedy Lawford. Teve uma overdose, desconhecida da generalidade do público até ser abordada no livro "Nevertheless", e foi isso que o fez parar.

Em 1983 instalou-se em Los Angeles e a morte do pai, vítima de cancro, aconteceu exatamente no mesmo momento. Alec Baldwin chegou a admitir que desde aí perdeu o seu “lado solarengo”. “Foi um tempo solitário. Mudou-me e endureceu-me”, revelou em 2019 ao jornal The Guardian. Tinha 25 anos e estava a perder o controlo. “Conduzia sem destino, embriagado. [Foi assim] durante dois anos”, confessou.

“Esses dois anos em que vivi como um consumidor diário de drogas, um consumidor diário de álcool, para minha miséria, foi uma fase dura. Havia mesmo muita, muita dor ali”, disse numa entrevista dada ao programa “Good Morning America” em 2017:

A ressaca era passada a jogar videojogos das nove às 11 da manhã num salão de jogos local. Depois ia dormir. “Não queria ver ninguém, não queria ter de lidar com ninguém”, explicou numa conversa com o autor Christopher Kennedy Lawford. Teve uma overdose, desconhecida da generalidade do público até ser abordada no livro Nevertheless, e foi isso que o fez parar. Deixou de beber e mantém-se sóbrio desde essa altura. “Fui uma das poucas pessoas que tiveram sorte”, reconheceu no “Good Morning America”.

Sem talento para o cinema

No teatro estreou-se nem 1986, com “Loot”. Participou em aclamadas produções da Broadway, como “Um Elétrico Chamado Desejo” — que teve direito a uma versão televisiva também com ele —, “Macbeth” ou “Equus”.

“O Diário de Lulu”, de 1987, foi o primeiro crédito no cinema. Seguiram-se “Os Fantasmas Divertem-se”, “Esta Loira Mata-me”, “A Jurada”, “Pearl Harbor”, “O Aviador” ou “Amar… É Complicado!”. “Má Sorte”, de 2003, garantiu-lhe nomeações para os Óscares, Globos de Ouro e SAG. Ainda assim, acumulou uma data de fracassos de bilheteira e nunca foi o grande protagonista de nenhum blockbuster — chegou a dizer que, em “O Aviador”, olhava para Leonardo DiCaprio e pensava como seria bom estar no centro do filme, ser o filme.

Warner Bros. Studio Rededication - 1990

Kim Basinger e Alec Baldwin em 1990

WireImage

Em entrevista à “The New Yorker”, em 2008, confessou: “Não penso que tenha realmente talento para a atuação em filmes. Não sou mau mas não penso que tenha realmente talento para isso”.

Em televisão acumulou outros papéis que foram tornando a sua cara e nome conhecidos, embora nenhum de protagonista. “Friends”, “Nip/Tuck” estão no seu currículo. Até chegar Tina Fey, que conheceu em “Saturday Night Live”, um programa semanal que tem sempre um apresentador conhecido que participa em sketches e paródias sobre a atualidade.

A explosão na carreira depois dos 50

A comédia criada por Fey, “30 Rock”, deu-lhe o papel de Jack Donaghy, um executivo do mundo televisivo. Inicialmente não queria o papel mas, farto de acumular fracassos, aceitou. “Estava tão de rastos. Vieram ter comigo e perguntaram se eu queria fazer uma série. Eu nunca quis fazer uma série. Nunca”, explicou à revista The New Yorker. Fê-lo porque “precisava de um porto de abrigo para mergulhar durante um tempo”. Acabou por ser a decisão mais acertada da sua carreira.

Ganhou três Emmys, dois Globos de Ouro e sete Screen Actors Guild Awards, sendo o ator com mais SAG de sempre. Neste momento é possível vê-lo noutra série, desta vez dramática — “Dr. Death” está no catálogo da HBO.

Apresentou o “Saturday Night Live” 17 vezes, o maior número para uma só pessoa. Foi aí que satirizou Donald Trump durante a campanha presidencial de 2016. A imitação foi tão perspicaz que acumulou elogios, deu-lhe um Emmy e durou até à derrota de Trump em 2020.

A guerra pública com Kim Basinger

Quando passamos para o capítulo da vida privada, nem tudo são sucessos, pelo contrário. Em 1990 conheceu Kim Basinger nas filmagens de “Esta Loira Mata-me”. Casamento em agosto de 1993, uma filha em outubro de 1995, uma separação em dezembro de 2000 e o divórcio assinado em 2002. E foi tudo pacífico? Claro que não. Foi tudo caótico.

Num voicemail deixado à filha, então com 11 anos, Alec chamava-lhe “rude e irrefletida porquinha”. Baldwin pediu desculpa, disse que tinha cometido um erro, mas o mal estava feito. O choque e as críticas estavam por todo o lado.

Basinger queria uma vida em bolha, isolada do mundo — continua a ser raro ver a atriz em público —, Baldwin não pretendia afastar-se da família e dos amigos. Os irmãos chegaram a pensar fazer uma intervenção para alertar Alec para a toxicidade daquela relação, mas esperaram que Baldwin entendesse por ele próprio. Após dez anos de relação, Basinger pegou na filha e trocou Long Island por Los Angeles. Baldwin queria estar presente na vida de Ireland. Segundo ele, gastou mais de um milhão de dólares em advogados e tribunais, teve de arranjar uma casa na Califórnia para estar perto da filha, mas o que ficou na memória de todos foi uma conversa telefónica de 2007 que foi espalhada por essa Internet fora, cortesia do site “TMZ”:

Num voicemail deixado à filha, então com 11 anos, Alec chamava-lhe “rude e irrefletida porquinha”. Baldwin pediu desculpa, disse que tinha cometido um erro, mas o mal estava feito. O choque e as críticas estavam por todo o lado. Dois anos depois, numa entrevista à revista Playboy, admitiu que tinha pensado em suicídio por causa da repercussão das suas palavras. “Falei com muitos profissionais que me ajudaram. Se me suicidasse, [o lado da Kim Basinger] teria considerado isso uma vitória. Destruir-me era o objetivo deles.”

Despediu o agente, que era o mesmo de Basinger; ofereceu-se para deixar “30 Rock”, coisa que a produção não aceitou; e escreveu um livro, A Promise to Ourselves [Uma Promessa a Nós Mesmos], dirigido a pais divorciados e sobre alienação parental.

Outra vez pai (vezes seis)

Em 2011 estava no pico da fama — “30 Rock” aproximava-se do fim e tinha ganho tudo o que havia para ganhar — mas Alec Baldwin sentia-se mais sozinho do que nunca. Quando viu Hilaria Thomas num restaurante, a paixão foi imediata. Ele tinha 53 anos, a instrutora de ioga 27.

“Estava ávido de ser pai novamente. E [desta vez] queria conhecer estas pessoas. Queria ver o desenvolvimento humano em tempo real… Queria uma família”, explicou numa entrevista ao The Guardian em 2019.

Casaram no ano seguinte e desde então já tiveram seis filhos (quatro rapazes e duas raparigas) juntos. Tal como o renascimento tardio na carreira — primeiro “30 Rock”, aos 50 anos; depois a imitação de Trump aos 60 —, Alec Baldwin teve uma segunda oportunidade no amor depois dos 50. E não perdeu tempo. “A minha mulher e eu somos como colecionadores. Só que colecionamos os nossos próprios filhos”, brincou.

Alec Baldwin e Tina Fey em "30 Rock"

A família divide-se entre um apartamento no bairro nova-iorquino de Greenwich Village e uma casa nos Hamptons. A relação com Ireland também melhorou. A agora atriz e modelo de 25 anos é presença habitual nas publicações de Alec Baldwin no Instagram e até foi ela que deu início a um roast feito ao pai. Ainda assim, no programa “Good Morning America”, Alec Baldwin explicou porque é que o voicemail causou danos irreparáveis. “Continua a ser-nos atirado à cara todos os dias. […] Está sempre a ser aproveitado por outros e isso afetou a minha filha de forma permanente”:

Incidentes — take 1

Em dezembro de 2011, estava tão entretido a jogar no telemóvel que achou que não tinha de desligar o aparelho quando as assistentes de bordo de um voo da American Airlines, prestes a levantar voo de Los Angeles, lhe disseram que estava na altura. De acordo com um comunicado da companhia aérea, “o passageiro foi extremamente rude para os funcionários, chamando-lhes nomes impróprios e usando linguagem ofensiva”. Teve de ser escoltado para fora do avião. Mais tarde pediu desculpa aos outros passageiros pelo transtorno causado.

O episódio foi tema de piadas em anúncios publicitários e num sketch feito pelo próprio no programa “Saturday Night Live” e a empresa responsável pelo jogo que tinha no telefone, “Words With Friends”, até fez um tweet com a mensagem “Let Alec Play (deixem o Alec jogar)”.

Incidentes — take 2

Três dias antes de se confirmar o impeachment de Bill Clinton (depois do escândalo com Monica Lewinsky), em dezembro de 1998, Baldwin esteve no “Late Night with Conan O’Brien” e, mais uma vez, falou demasiado. “Se estivéssemos noutro país, apedrejavamos o Henry Hyde [republicano que estava a liderar o processo de impeachment] até à morte e íamos às casas deles matar as mulheres e os filhos. Matávamos as famílias deles pelo que estão a fazer a este país”, disse. Tiveram de se seguir desculpas, obviamente. A produção alegou que era suposto ser uma piada mas o episódio nunca mais passou na televisão.

Apesar de tudo isso, aos 63 anos, Alec Baldwin não se cansa de dizer que ultimamente tem tido muita sorte na sua vida pessoal e que, se tivesse de abdicar da carreira, o faria sem hesitar. Para ser um pai presente, escolhe cuidadosamente os projetos nos quais se envolve.

Incidentes — takes 3, 4 e até ao infinito e mais além

A lista continua. Nos anos 80 teve uma altercação com um homem que empurrou a sua namorada da altura na rua. Em outubro de 1995 foi detido depois de agredir um fotógrafo que estava a filmar o regresso a casa da família. Kim Basinger acabara de ser mãe, Ireland Baldwin tinha três dias. Em 2006, durante os ensaios da peça “Entertaining Mr. Sloane”, enervado por o ar condicionado do Roundabout Theatre não estar a funcionar, deu um murro numa parede. Uma colega, Jan Maxwell, disse ter temido pela sua integridade física e despediu-se. Durante o longo processo judicial que o opôs a KIm Basinger, chegou a ter de frequentar um curso para aprender a controlar a raiva. Em 2014 foi parado na Quinta Avenida, em Nova Iorque, por estar a andar de bicicleta no sentido errado. Discutiu com o polícia e foi levado para a esquadra. Uma altercação com outro condutor por causa de um lugar de estacionamento foi parar aos tribunais em 2019.

Apesar de tudo isso, aos 63 anos, Alec Baldwin não se cansa de dizer que ultimamente tem tido muita sorte na sua vida pessoal e que, se tivesse de abdicar da carreira, o faria sem hesitar. Para ser um pai presente, escolhe cuidadosamente os projetos nos quais se envolve — além de ter dado voz ao “Boss Baby”, uma personagem infantil a pensar nos filhos. “Rust” estava atualmente a afastá-lo da rotina familiar mas era um projeto que lhe dizia muito por ser também produzido por ele, através da produtora El Dorado. Na história é Harland Rust, um fora da lei que ajuda o neto que mal conhece depois deste matar acidentalmente um rancheiro — uma coincidência infeliz com o que acabou por acontecer na vida real a Halyna Hutchins. Alec Baldwin é Harland Rust ou era. Neste momento é impossível saber se o western alguma vez será retomado.

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