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JOÃO PORFÍRIO

JOÃO PORFÍRIO

Catarina Furtado: "Há muita solidão neste meio" /premium

Foi a cara de uma nova era da televisão nacional e é agora uma das apresentadoras do Festival da Eurovisão. Numa entrevista de vida, Catarina Furtado fala do trabalho, da família e de assédio sexual.

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Hoje, em vez de uma Catarina Furtado apresentadora de televisão, podíamos ter uma coreógrafa. Aos 45 anos e com mais de 25 de carreira, Catarina não nega aquele que foi o seu primeiro grande sonho: a dança. O curso de jornalismo foi só a alternativa que lhe pareceu melhor, depois de uma lesão lhe ter fechado a porta para os palcos. Passou pela rádio e chegou à televisão com 19 anos. Até aí, nunca as câmaras e as luzes dos estúdios a tinham seduzido, mesmo sendo filha de um jornalista da RTP. Foi precisamente na estação pública que começou, no Top +. Na SIC, foi o rosto mais icónico de uma nova era da televisão em Portugal. Chuva de Estrelas, Caça ao Tesouro e o primeiro programa da MTV em Portugal foram sucessos esmagadores.

Entretanto, a RTP voltou a bater-lhe à porta. Em 2003, apresentou a primeira edição da Operação Triunfo, a consolidação de um percurso que hoje resume, com graça, num “doutoramento em programas de talentos”. Em 2000, tornou-se Embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População, cargo que já a levou ao Sudão do Sul, à Índia, ao Haiti, a Timor, a Cabo Verde ou a São Tomé.

A par da televisão e dos Direitos Humanos, Catarina Furtado desenvolveu-se também como atriz. Em 1990, teve uma curta aparição no filme de Manoel de Oliveira Non, ou a Vã Glória de Mandar. Em 1996, mudou-se para Londres. Durante três anos, estudou na London International School of Acting e no Actor’s Studio. Entrou em peças de teatro, em séries de televisão e em curtas e longas-metragens.

Em 2005, Jorge Sampaio tornou-a Comendadora da Ordem do Mérito. No mesmo ano, casou com o ator João Reis, com quem tem dois filhos. Em 2015, lançou o livro O que vejo e não esqueço, onde relata dezenas de momentos que viveu durante as suas viagens humanitárias. Há seis anos, criou a sua própria ONG, a Corações com Coroa, contagiada pelos valores de intervenção social que já faziam parte do seu trabalho com as Nações Unidas. Depois de, no início dos anos 90, ter sido a primeira cara de uma nova geração de figuras televisivas, há três meses foi também a primeira figura pública portuguesa a denunciar um caso de assédio sexual na primeira pessoa.

A partir da próxima semana, Catarina Furtado será uma das quatro anfitriãs da primeira edição do Festival da Eurovisão da Canção em Portugal, ao lado de Daniela Ruah, Sílvia Alberto e Filomena Cautela.

Onde é que estaria hoje se aquela lesão lombar nunca tivesse acontecido?
É uma boa pergunta. Muito provavelmente, estaria a coreografar ainda, a dançar. Sim, apesar de os bailarinos, tal como os atletas, se reformarem cedo, acredito que estaria ainda a coreografar. Era realmente o meu grande sonho, ser coreógrafa. Quando a televisão entrou era uma coisa pela qual não tinha nenhum fascínio, conhecia minimamente através do meu pai. Mas o meu plano B era escrever, por isso fui para jornalismo. Depois, quer dizer, tinha a formação do conservatório, que não era só de dança e que me deu muitas luzes de teatro, nomeadamente com o João Mota, portanto, também havia ali aquela semente. E hoje em Portugal, felizmente, já não é assim, mas no meu tempo — que é uma boa expressão, não é? — as pessoas tinham que se decidir por carreiras fechadas, ou seja, se era jornalista era jornalista, se era atriz era atriz, se era apresentadora era apresentadora. Não havia esta coisa que é o multi talent, de as pessoas poderem fazer várias coisas. Rompi um bocado isso, queria tanto fazer várias coisas, sendo que aos 19 e 20 anos a pessoa não tem noção exatamente do que vai ser. Mas sim, hoje seria coreógrafa.

Na Escola de Dança do Conservatório, sem data © Fotografia cedida por Catarina Furtado

Mas na altura teve essa sensação, de que estava a romper com algo?
Na altura, não. Tive a sensação de que as pessoas me estavam, de alguma forma, a amarrar. Queria fazer muitas coisas, não sabia se tinha jeito ou não para fazê-las, mas queria tentar. E porque é que me haviam de encaixar numa gaveta de bailarina ou de apresentadora? Porque é que não podia ser também escritora. Foi quando fui tirar o curso para Londres. Tinha a noção de que as pessoas estavam a limitar-me numa altura em que ainda tinha tanto por descobrir. Mas isso só me fez ir à procura.

Acha que foi vítima daquele preconceito de que quem quer fazer muita coisa é porque não faz nada bem?
Havia o preconceito da pessoa que não estava decidida, isso sim. Quando se tem 19 anos, quer dizer… Ainda bem que não estava. Para mim era muito óbvio que não podia, imaginemos, cozinhar sem aprender a cozinhar, não podia representar sem aprender a representar. Não me punha a fazer coisas para as quais eu não tinha tido uma preparação. Na altura, foi o que pensei: tenho estes sonhos todos, vou estudar para perceber que teclas é que irei depois tocar.

E quando e como é que percebeu que toda a sua carreira ia gravitar em torno da televisão?
Não fui eu que percebi, foram as pessoas que me viram de fora. Quando achava que o passo seguinte era ser jornalista, já que não ia ser bailarina, fiz um casting. Estava na rádio como jornalista, eu e o Nuno Markl, que é outro caso. Éramos os dois jornalistas e os dois fazíamos várias coisas ao mesmo tempo. Ele desenhava e fazia caricaturas, eu fazia umas pirouettes, e estávamos os dois ali ainda a tentar perceber o que iam ser as nossas vidas. Fui convidada pela Margarida Pinto Correia para fazer um casting para um programa, o Top +. Nessa altura pensei: ‘Vou fazer só por experiência, porque eu quero é ser jornalista e quem sabe um dia ainda vou para a coreografia outra vez’. Mas aí as pessoas viram-me, entre elas, a Maria Elisa, que estava a lançar a SIC na área da programação. Ela viu-me e disse que queria que fosse para a SIC e que achava que tinha jeito para apresentar. Aquilo acabou por ser desafiante. Acho sempre que tudo, desde que tenha qualquer coisa a ver comigo, é um desafio. Mais depressa digo que sim do que digo que não, mas já disse mais nãos do que sins na vida. Faz sentido? Pensei: ‘Então vamos para a SIC’. Depois disso, foi aliciante estrear a MTV em Portugal. Não havia. Fui a Londres na altura para fazer uma mini formação. Até hoje, consegui sempre não fazer nenhum projeto de que não gostasse e isso é um grande feito. Por isso é que digo que os meus nãos são importantes, são porque não vou fazer aquilo bem e não tem nenhuma arrogância.

"Mais do que deslumbramento, tive medo que alguém conduzisse a minha vida, e quando digo alguém falo do próprio meio. Isso assustou-me muito quando era mais nova."

Mas acha que, nessa altura, houve um grande consenso quanto ao seu potencial como apresentadora ou simplesmente conseguiu impressionar as pessoas certas?
Nem sei muito bem porque não tinha muita consciência disso. Sabia que havia pouca gente nova. Hoje, é o contrário. Hoje, vemos imensa gente nova e com muito talento, miúdas com 19 ou 20 anos que já são protagonistas de novelas, apresentadoras de televisão, que já são cantoras e já se afirmam. Naquela altura não. Havia um tempo para as coisas e antes de mim então muito mais. Quem dominava os ecrãs eram os grandes apresentadores, o Carlos Cruz, o Fialho Gouveia, todas essas pessoas. Gente nova, não havia. Senti que fui uma espécie de lufada de ar fresco, mas também que toda a gente achava que já sabia o que é que ia ser e o que é que ia fazer. Mas eu não. Não havia cursos, só fiz mais tarde na SIC um curso enquanto pivô de informação. O Júlio Isidro é um extraordinário comunicador e ele nunca teve teleponto. É essa a minha escola, mas uma escola onde uma pessoa nova era vista… ‘Espera aí’. ‘Olha ela tão novinha, tão espontânea’ — lembro-me de dizerem isso. Senti algum receio de que me rotulassem antes de eu própria saber exatamente o que queria fazer.

"Acho que há muita solidão neste meio. [...] A exposição é tão grande, expomo-nos tanto que se não tivermos um reservatório nosso, uma despensa só nossa, onde temos a nossa vitamina, temos tudo cá fora. E não faz sentido nenhum."

Acha que isso aconteceu?
Aconteceu um bocado. Aconteceu porque talvez achassem que ia fazer o mesmo tipo de programas para o resto da vida. Mas tinha muito mais coisas para explorar. Mesmo assim, acabei por fazer programas com crianças, acabei por fazer documentários, aliás, hoje faço os meus próprios documentários e escrevo. Naquela altura, era como se estivesse mais ou menos definido.

Mas desiludiu alguém?
Acho que não. Em todos os sítios por onde passei, fiquei só com boas memórias das pessoas. E saí sempre a bem. Saí da SIC a bem. Hoje, entro naquela casa, convidam-me imensas vezes para ir a programas, lancei o meu livro há dois anos e a estação convidou-me imediatamente para ir falar dele. E isso é mais importante do que tudo o resto. Para mim, o que conta são as passagens, o processo até ao final. Pegando neste exemplo [Eurovisão], é evidente que quero muito que as semifinais e a final corram lindamente e que nós, as apresentadoras, tenhamos uma ovação da equipa a dizer: ‘Estiveram muito bem’. Mas este processo todo é muito interessante — como é que lidamos com as pessoas todas, o que fica disto tudo. ‘O que é que fica?’ é sempre a pergunta que faço. Para mim, o que interessa são mesmo as pessoas.

Aos 6 anos, com o pai, o jornalista Joaquim Furtado © Fotografia cedida por Catarina Furtado

Comparando aquela época em que a televisão era feita pelos grandes apresentadores e locutores com os dias de hoje, não acha que passámos do 8 para o 80, com algumas ascensões imediatas e precoces?
Sinto que a peneira irá fazer a triagem e que daqui a uns tempos estaremos os dois a falar e a concluir que aquela pessoa ficou e que aquela que fez tanto fogo de artifício afinal já cá não está. É natural que isso aconteça. Acho que é muito mais fácil hoje as pessoas lançarem-se porque também há muito mais meios. Não se esqueça que quando comecei com o Top + não havia a SIC nem a TVI e que fui chamada para a SIC pela Maria Elisa quando a SIC se estreou. Rádios havia pouquíssimas. Quando fiz o curso de jornalismo não havia a possibilidade sequer de ir para nenhuma televisão e rádios eram para aí duas. O resto era só jornais. Eu e o Nuno fomos os únicos a ir para rádio, o resto foi tudo para imprensa escrita. Se calhar, achávamos que tínhamos mais para dar, não sabíamos muito bem o quê. Mas como há tanto meio hoje em dia e, fazendo um paralelismo com os programas de talentos nos quais sou, provavelmente, a maior doutorada, a verdade é que um miúdo que não chega sequer à final do The Voice pode lançar o seu disco no YouTube. Temos ali miúdos que, quando chegam ao programa, já têm não sei quantas visualizações, já vão fãs com cartazes. E nós a vê-los pela primeira vez. É um paradigma completamente diferente. Naquela altura, nunca ninguém tinha visto a Sara Tavares. Agora não, já se estrearam no YouTube, já são seguidos e só então chegam à televisão, é o processo ao contrário. Agora, quem fica, não sabemos. A televisão já não é o maior sonho de todas as pessoas que querem fama ou sucesso. Naquela altura era a televisão, mas já não é preciso passar por ela e isso muda tudo.

“Com a peneira, só fica quem tem realmente talento”

Por falar em programas de talentos, não acha que são demais para um mercado da dimensão do nosso?
Quando penso nisso, chego sempre a essa conclusão. E, tenho que ser sincera, acho sempre isso, de cada vez que vou para uma nova edição do The Voice. Mas a verdade é que sou sempre surpreendida. No meio daquela gente toda que se lança, há uns que ficam mesmo, há outros que não ficam. É a tal peneira. E, com a peneira, só fica quem tem realmente talento.

Com Sara Tavares, na final da primeira série de Chuva de Estrelas, com Sara Tavares

Não há injustiças?
É capaz de haver. Quando falo de talento, falo de uma série de coisas: de carisma, de uma capacidade para comunicar, da imagem, de um chico-espertismo, de alguém que tenha uma equipa que o consiga posicionar e promover. Claro que há injustiças, até porque conheço muitos miúdos que têm imenso talento, mas que não têm a capacidade de furar, de seguir os seus sonhos, que não se juntam às pessoas que podem ajudar. É assim em todo o mundo. Temos muitos exemplos de miúdos que ficaram em segundos e em terceiros lugares, ou que nem passaram sequer até à final, e que hoje vendem. A Carolina Deslandes não ganhou nenhum talent show, mas a Carolina escreve e isso faz logo dela uma dona de si própria, e depois utiliza as redes sociais, enfim. Acho que é preciso ter este talento, um talento para se mostrar. Quanto é que dura? Não sei.

Um talento que quando começou a sua carreira não era necessário. Podia-se ser mais ingénuo nessa altura?
Sim, podia. Basta olhar para os reality shows, para o Big Brother, que começou há 20 anos, precisamente. Portugal também mudou, ainda que com um bocadinho de delay em relação ao resto do mundo, mas está em sintonia. Os concorrentes iam ingenuamente. Iam à procura de sucesso, de exposição e de algum dinheiro, mas hoje em dia os concorrentes deste tipo de programa são muito wised, muito experientes, sabem perfeitamente para o que vão. Sabem perfeitamente o que hão-de mostrar para ficarem mais ou menos tempo. Ingenuidade é que não há mesmo, o que é uma pena, porque gosto. Acho que a ingenuidade nos fica bem. Através da ingenuidade conseguem-se resultados muito bonitos.

João Porfírio/Observador

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Conseguiu permanecer ingénua durante muito tempo?
Acho que ainda sou um bocadinho, por acaso. Gosto de me pôr à prova e para me pôr à prova tenho necessariamente de me disponibilizar para isso. Sou uma pessoa que me disponibilizo, mesmo. Acho que depois com a vida se vai aprendendo, não é? Este meio, e não vou dizer nenhuma originalidade, é um meio de muitos egos e temos de saber exatamente onde é que moramos e o que é realmente importante para nós, se é o sucesso daquele programa, se é o público a bater palmas ou se é a nossa sanidade mental, aquilo que nós somos. Porque a televisão fecha um dia, há um botão off, e quando esse botão aparece temos que estar bem rijos naquilo que é a nossa passagem por aqui. Tenho isso muito bem assente.

Estamos num país pequeno, com um meio televisivo à escala. Ainda assim, existem muitas divas?
Acho que temos pessoas que não têm bem noção de que vamos todos para o mesmo sítio. Sim, há. Mas faz parte e não será Portugal o único país. Encontro-me muitas vezes com outras estrelas de outros países e percebo que isso não é de todo uma característica nossa. Há pessoas que vivem acima do seu próprio chão. Acho que há muita solidão neste meio. Já me cruzei com algumas pessoas que sinto que… A exposição é tão grande, expomo-nos tanto que se não tivermos um reservatório nosso, uma despensa só nossa, onde temos a nossa vitamina, temos tudo cá fora. E não faz sentido nenhum. Temos de ter cá dentro essa reserva, para irmos buscá-la para depois entregarmos ao público. Só faz sentido assim, porque se estamos sempre a entregar estamos em défice constante, há um desequilíbrio. Quando me dizem que sou muito resguardada, apesar de ter esta exposição toda há tantos anos, digo que não conseguiria ser de outra forma. É a minha maneira de ser e é assim que consigo dar e voltar, dar e voltar. E dou com toda a verdade. Se há coisa que adoro é cumprimentar as pessoas, estar com as pessoas, sou sempre aquela que sai mais tarde, que dá beijinhos, acho isso tudo maravilhoso. Eu e o Presidente Marcelo podemos competir os dois. ‘Ah a parte da exposição é que é um bocadinho chata, quando o público vem ter connosco…’ — Desculpa? Então, tu trabalhas para o público! Não é nada chato, dou beijinhos, sou a primeira, às vezes, a ir falar quando a pessoa está a olhar, desmancho logo ali o gelo. As pessoas viram-me crescer, então as mais velhas. Várias vezes, fico extremamente emocionada porque as pessoas vêm ter comigo — ‘Ah, minha menina’ –, porque se lembram do Caça ao Tesouro quando eu tinha 20 anos.

"Falei [do assédio sexual] de uma forma muito consciente, porque acho que qualquer mulher tem autoridade para o fazer, mulheres conhecidas e mulheres anónimas."

Pegando na metáfora que usou, a sua despensa esteve sempre cheia?
Não, mas também nunca esteve vazia. Provavelmente, é daí que vem o meu equilíbrio. Sei muito bem aquilo que me faz feliz. Irei sempre lutar para isso, nunca irei ficar de braços cruzados à espera que isso venha ter comigo. Chego ao final do dia e sei sempre quais são os meus objetivos. Houve alturas em que não estava tão cheia como está agora, que está numa ótima fase. Talvez por ainda não ter alcançado uma série de conquistas, nomeadamente ter os meus filhos, é óbvio, e esta maturidade que vem com a idade. A idade, se tivermos um percurso do qual nos orgulhamos e as pessoas certas ao nosso lado, é um posto de maturidade. Sou muito maternal e a maturidade ainda aguçou mais isso. Passo a vida a querer adotar e a tratar de toda a gente e isso às vezes é um bocadinho cansativo. A minha filha já diz: ‘Ó mãe, menos’.

Em algum momento deste percurso mediático se deslumbrou?
Não sou a melhor pessoa para responder, sinceramente. É o olhar dos outros que nos diz isso. Às vezes, a pessoa está completamente deslumbrada e não nota. Mas nunca tive essa impressão. Mais do que deslumbramento, tive medo que alguém conduzisse a minha vida, e quando digo alguém falo do próprio meio. Isso assustou-me muito quando era mais nova. Aquela ideia de ‘tu és boa para fazer isto’ é assustadora, quando alguém tem uma vontade muito grande de aprender.

Quando percebeu isso houve uma libertação, ficou mais alerta?
Acho que ficamos mais seguros quando, de facto, nos propomos a aprender mais. Foi o que fiz, procurei conhecimento. O saber mais dá-nos segurança. Hoje, muita gente diz imensas coisas, fala imensa coisa, sabe imensa coisa, mas é um saber muito superficial.

E hoje, considera que é bem paga para o trabalho que faz?
Acho que sim. Acho que as pessoas não têm noção de que os nossos colegas lá de fora ganham muito mais do que os portugueses, mas muito mais. Basta ir aqui ao lado a Espanha. Mas considero-me, para o meu mercado, muito bem.

Também passou pelo cinema e pelo teatro. Foi a tentativa de construir uma segunda carreira que até se poderia ter sobreposto à televisão?
É paralela. No ano passado, fiz uma peça de teatro no Casino Lisboa, Os Dias Realistas. Já percebi que das duas uma: ou me despeço da função de apresentadora para me dedicar a 100%, ou então vou andar sempre nesta coisa meio desequilibrada que é fazer mais apresentação do que representação. No entanto, é algo que surge sempre como uma red light: ‘Agora precisas de representar’. Fisicamente, sinto vontade de representar e colmato essa saudade participando em algumas séries de televisão, em peças de teatro ou em cinema, mas menos. Por acaso, fiz agora as Linhas de Sangue, mas sei que, para fazer mais e com mais consistência, teria que deixar a apresentação. Este ano, por exemplo: tenho a Eurovisão, logo a seguir parto para As Sete Maravilhas de Portugal e logo a seguir tenho o The Voice. Quer dizer, não há peça de teatro que consiga conciliar com isto. No ano passado, tive de fazer uma pausa para poder fazer a peça. Há sempre mais coisas da RTP, com quem tenho contrato, por isso, a representação acaba sempre por ser mais secundária. Mas está cá, sinto-me atriz também, é só a questão de o dia ter 24 horas e não 36.

"E é preciso fazer o homem ver que se calhar este papel social que lhe foi atribuído desde sempre e que pratica de forma automática, porque vem de trás e porque os homens sempre fizeram isso, tem de ser questionado."

“Tenho autoridade para falar”

Há dois meses, falou publicamente e na primeira pessoa sobre um episódio de assédio sexual.
Falei de uma forma muito consciente, porque acho que qualquer mulher tem autoridade para o fazer, mulheres conhecidas e mulheres anónimas. A questão é que a maior parte das mulheres anónimas, muitas vezes, têm receio de o fazer. Tenho autoridade para falar, não só porque, sendo figura pública, tenho o microfone à minha frente, mas sobretudo porque são 18 anos a trabalhar com as Nações Unidas em questões que têm a ver com a igualdade de género, com a discriminação de género e com a violência com base no género e porque há seis anos que tenho uma associação que tem atendimento gratuito nestas áreas. Eu, as minhas técnicas, as minhas psicólogas, a minha assistente social e as minhas advogadas recebemos diariamente casos onde estas questões, e quando falamos de assédio sexual estamos a falar de uma discriminação e de uma violência perante uma mulher, estão permanentemente lá. Portanto, dada a minha experiência e o facto de, através da associação, acolher pessoas que, muitas vezes, não têm o poder de dizer em voz alta porque têm medo, tinha a obrigação de o fazer.

Porquê falar nesta altura?
Agora, coincidiu obviamente com um movimento internacional. Porquê? Porque este movimento tem que ser reforçado por todas nós e por todos nós, porque há homens que, felizmente, também estão solidários com a questão e também eles querem que este momento seja de reflexão e, sobretudo, de prevenção. Aquilo que me parece é que o movimento é generalizado e assim ele ganha uma força extra que servirá acima de tudo para prevenir. E é preciso fazer o homem ver que se calhar este papel social que lhe foi atribuído desde sempre e que pratica de forma automática, porque vem de trás e porque os homens sempre fizeram isso, tem de ser questionado. Não é acusatório. As pessoas perguntam-me porque é que não digo os nomes. Eu sou a última pessoa a gostar de apontar o dedo, não tenho esse perfil. Agora, aponto o dedo à situação que genericamente acontece e que acontece, sobretudo, em meios em que as mulheres têm muito pouco poder. Em meios em que as mulheres têm dificuldade em continuar com os seus empregos e têm medo de os perder, têm uma casa às costas, uma família às costas. E eles não sabem ouvir um não. Um homem que não esteja habituado a ouvir esse não ignora, perpetua-se este comportamento e este comportamento não pode acontecer, porque está na lei e está na Carta dos Direitos Humanos, é uma violação dos Direitos Humanos. É uma oportunidade única para homens e mulheres olharem para as coisas de outra forma. E eu só falo desta questão enquanto abuso de poder, quando um homem está hierarquicamente acima da mulher que assedia sexualmente e o contrário também, quando a mulher está acima do homem que assedia, que também acontece, atenção. Quando se utiliza o cargo hierárquico, a função de diretor ou diretora para manipular.

Foi o que lhe aconteceu.
Sim, eram meus diretores. Se calhar, hoje, com esta awareness, já não o fariam. Isto tem que ser pela positiva. Se calhar a pessoa que há 20 anos o fez, com este movimento todo, hoje achará um disparate fazer isto a uma miúda. Mas estava lá, vem de trás. Porque é que ainda há tantas casas em que a mulher faz o almoço para o marido e faz o jantar para o marido e nada é questionado porque foi assim durante não sei quanto tempo? Assim como há muitos homens que, infelizmente, não estão a exercer os seus direitos enquanto pais porque a sociedade impõe que quem traz o dinheiro para casa é o marido e se o marido tirar a licença de paternidade, ‘ai que coisa tão estranha’. Se calhar é gozado pelos outros homens lá do trabalho — ‘O quê, tu é que vais ficar em casa a dar biberão?’. E porque não? Ele também sente esse peso. É tempo para todos nós questionarmos os nossos papéis sociais, para aliviarmos o homem, para aliviarmos a mulher e conciliarmos tudo.

Referiu que os mesmos homens que assediaram mulheres há 20 anos, hoje poderiam já não o fazer. Acha que a mudança de mentalidades pode ser assim tão rápida?
Sou super positiva e acho que nunca devemos perder uma oportunidade de dizer qualquer coisa. Hoje que o meu filho tem 10 anos, acha que não falo sobre isto? Se ele entende? Não sei, mas alguma coisa há-de ficar lá. Acredito imenso no poder que todos temos para mudar as deformações sociais, e há muitas. Há muito preconceito, há muita discriminação, ainda com base na orientação sexual. Como é possível? E eu trabalho num meio que é aparentemente aberto, numa cidade que é aparentemente aberta, e quantas vezes vejo amigos meus a serem discriminados pela sua orientação sexual. E as pessoas dizem que isso já não há. Não há? Há. Quanto mais falarmos, melhor. Não podemos deixar de falar, então aproveito todas as situações. Há um caso muito interessante, nestas minhas lutas e nestas minhas causas, que é a mutilação genital feminina, uma causa que abracei com as Nações Unidas há para aí dez anos. Quando comecei, lembro-me perfeitamente de uma entrevista ao Expresso em que o jornalista ficou: ‘Mutilação genital feminina? A Catarina vai falar disso?’. Hoje, felizmente, fazem-se reportagens sobre a mutilação genital feminina. Não estou a dizer que fui eu, estou a dizer que fui uma das que não deixou de falar mesmo que as pessoas achassem aquilo estranho. A verdade é que à conta de Portugal, dos deputados dos vários partidos, comigo também a ajudar e com uma série de pessoas muito empenhadas nesta causa, há muito poucos anos, a lei na Guiné-Bissau mudou. Foi fruto da pressão portuguesa. Quando pensamos que se calhar só na próxima geração, não, foi há três ou quatro anos, à conta de uma petição, de advocacy, de Portugal, que começou a tomar consciência e a pôr nos jornais e a trazer pessoas a daremos seus testemunhos e a dizerem que a mutilação genital feminina é uma violação dos Direitos Humanos e a lei mudou. Neste momento, é proibido na Guiné-Bissau. Se me perguntar se ainda se faz, certamente no país inteiro ainda se faz, mas digo-lhe, porque estive lá há pouco tempo, que em determinadas localidades já não se faz porque as pessoas já têm medo de ir para a prisão e já há consciência de que aquilo faz mal ao corpo e de que é uma coisa terrível. Acredito imenso. Não acredito é no medo. E ainda em relação à questão do assédio sexual, faz-me muita confusão que homens e mulheres, em vez de se unirem nesta causa, que toda a gente sabe que existe, desconfiem das mulheres que vêm dizer ‘eu fui assediada’. A primeira coisa que as pessoas fazem é dizer: ‘Ah, não foi nada’. Seja eu, uma estrela de Hollywood ou uma anónima, porque é que haveríamos de estar a mentir? Isto dá fama, isto dá o quê? Em vez de desconfiarmos, em primeiro lugar, devemos ser solidários.

"Faz-me muita confusão que homens e mulheres, em vez de se unirem nesta causa, que toda a gente sabe que existe, desconfiem das mulheres que vêm dizer 'eu fui assediada’."

Muitos desvalorizam os próprios atos de violência, basta ler os comentários a uma dessas notícias para perceber.
Ler isso até faz mal à saúde. Mas ao desvalorizar, a pessoa não está a acreditar naquela testemunha. Agora, imaginemos uma pessoa não famosa, ainda é pior. Se uma senhora tem a coragem de dizer: ‘Eu fui assediada pelo meu patrão e agora tenho medo de ser despedida mas estou a dizer isto’, temos é que aplaudir e estar ao lado dela e arranjar meios, porque é isto que acontece com estes movimentos, é que depois há meios para penalizar, há leis, há a consciência das próprias empresas. Se vamos desconfiar da pobre senhora que teve a coragem imensa de contar, então nem sequer vamos poder olhar para nós.

© João Porfírio/Observador

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Assiste no dia-a-dia a situações fruto das desigualdades de género, mesmo que não sejam assédio sexual?
Imenso. Por exemplo, na nossa associação, recebemos mulheres que, anonimamente, nos contam que foram a entrevistas de trabalho onde a primeira coisa que lhes perguntaram, o que é proibido por lei, foi quando é que pensavam engravidar. E a mulher, se tiver desesperada à procura de trabalho, o que é que diz? E se tinha imensos planos de engravidar dali a seis meses? Ou se até já estava grávida? Já apareceram mulheres lá que tiveram de mentir — ‘E agora, vou fazer um contrato e daqui a uns tempos eles vão descobrir’. É terrível. E estamos a falar de uma gravidez num país que ainda se diz com uma baixa demografia, não é? Isto acontece e acontece com empresas ditas amigas da igualdade de género. Nós, enquanto associação, damos conselhos às senhoras e agimos pela via legal. As pessoas podem pensar que tenho a carreira feita, que me corre bem a vida e que falo do alto do meu conforto e há muita gente que pensa que não pode porque está em desvantagem do ponto de vista social ou mesmo financeiro, mas por isso é que existem estas associações, as pessoas nunca devem deixar de procurar ajuda.

Como é que reagiria hoje ao episódio de assédio sexual de há 20 anos?
É evidente que hoje tenho argumentação, ferramentas, auto-estima e tenho a capacidade de dizer não. E se a pessoa não ouvisse o não eu tinha maneira de o fazer ouvir em voz alta. O que mais desejo é que todas as mulheres possam ter exatamente isto. Custa-me imenso ver muita coisa que ainda existe em Portugal.

Também lhe deve custar ver que o machismo é transversal a homens e mulheres.
É, mas isso é fruto de um passado terrível em que o papel da mulher foi esse, sem nenhum tipo de apoio e a quem nunca ninguém disse que ser mulher pode ser muito diferente. Não culpo os homens, nem culpo as mulheres, apesar de muitas vezes se dizer que elas até se criticam mais a elas próprios do que os homens. É possível que seja, mas também não acho estranho. Está enraizado. As mulheres habituaram-se a sofrer. Andam com a casa às costas, são aquelas que engolem em prol de toda uma família e habituaram-se tanto a esse silêncio que não sabem viver de outra maneira. É preciso desconstruir estes papéis para bem dos homens e das mulheres. E passa muito pela educação que damos aos nossos filhos também.

“O ego está a tomar conta de tudo”

Sempre se manteve relativamente discreta na sua exposição mediática. Foi sempre uma rapariga bem comportada ou simplesmente soube manter todos os excessos na esfera privada?
Não sei bem o que mal comportada quer dizer, se é drogas, se o que é. Todos cometemos os nossos excessos e quem não comete um dia há-de cometer porque isso vem sempre bater à porta. O que é um excesso para mim pode não ser um excesso para outra pessoa, é subjetivo. Tem a ver com seguirmos o que nos faz falta ou aquilo que nos desperta curiosidade e tem necessariamente a ver com questões químicas nossas, por isso é que há pessoas que ficam mais viciadas em droga, por exemplo. Isso está provado, há pessoas que têm mais propensão para a adição, outras não. Sou bastante controlada. Experimentei aquilo que tinha que experimentar, o que me despertava curiosidade. Há coisas que não tenho curiosidade nenhuma e não é por medo, é porque não tenho mesmo curiosidade. Estou numa pista de dança e sou capaz de ser a última a sair, a que mais saltou, e que, por exemplo, não consumiu droga. Não estou a dizer que o meu amigo ou a minha amiga que consumiu é terrível, não sou moralista, de todo. A vida ensinou-me isso, por ter visto tanto e por ter ido a tantos sítios, e quanto mais vejo, mais tolerante estou, mais tenho capacidade de encaixe.

Aos 5 anos, com a tia, Teresa, e com a irmã, Marta © Fotografia cedida por Catarina Furtado

Mas houve alguma fase em que tenha vivido isso mais intensamente?
Não, namorei um bocadinho mais. Sim, nos vintes namorei mais. Também a história dos namoros é muito engraçada. Se calhar, quem sabe de astrologia terá uma leitura disto, porque sempre tive muito gosto em que as coisas tenham sempre um grande significado, sou muito de significados — aquela pessoa, naquela altura, e foi assim e porque é que foi assim. É difícil para mim viver en passant.

Normalmente, qual é a primeira coisa a despertar-lhe o interesse em alguém?
Não há mesmo uma regra, já gostei de pessoas tão diferentes. Hoje, com mais maturidade, também é diferente. Acho que tem mesmo de ser uma pessoa generosa. Hoje, a generosidade para mim é fundamental. Generoso na sua profissão, na forma como se liga aos outros, a empatia. Não perco muito tempo com pessoas que não tenham esse chip.

E consegue perceber rapidamente?
Não, não se consegue logo. Ainda dura um bocadinho, que há muita gente que faz um grande teatro e depois no final não é bem assim.

Como embaixadora da ONU, já esteve em sítios com fortes carências ao nível da intervenção humanitária e dos Direitos Humanos. Em algum momento se sentiu fragilizada com o choque com essas realidades?
Claro que sim, em várias situações. Há 18 anos que trabalho na área da saúde materna, infantil e neonatal. Trabalhar esta área em países onde falta soro, onde uma mulher grávida cheia de saúde morre no parto ou vê morrer o seu bebé porque se demorou mais tempo, é devastador para qualquer pessoa. E não é por ver mais vezes que deixo de sentir. Obviamente, esses são os momentos que não posso mostrar na câmara, mas que estão cá. Partilhei muitos deles no meu livro, O que vejo e não esqueço, e fi-lo porque tenho a certeza de que se as pessoas presenciassem o momento em que uma mulher morre a dar à luz por falta de condições básicas seriam um bocadinho melhores umas para as outras e de que os egos estariam um bocadinho mais domesticados. O ego está a tomar conta de tudo. Tecnologicamente, estamos a evoluir, mas há momentos em que temos comportamentos humanos da pré-história.

Que tipo de momentos?
Uma das coisas que me está a preocupar imenso, e trabalhamos nisso na Corações com Coroa, é a violência no namoro. Está a aumentar. Isto não é bizarro? Quer dizer, estamos evoluidíssimos em termos tecnológicos e, de repente, a violência no namoro, uma coisa básica, está a aumentar em Portugal, e não só. Há qualquer coisa que não está a correr bem. Por outro lado, há uma certa esperança. Vimos agora, na América, miúdos de 13 e 14 anos a manifestarem-se e a fazerem atos de cidadania. Mas temos de estar muito atentos. Acho que a nossa única solução para isto tudo é sermos mais humanos uns com os outros, mais solidários. Não vejo outra forma, parece uma coisa assim cor-de-rosa, mas acredito que se formos mais atentos uns com os outros, melhoramos a condição de vida, a nossa e a dos outros. Se não estivermos tão centrados na nossa carreira, nas nossas conquistas, se tivermos uma visão mais holística, todos vamos conquistar mais.

"Trabalhar esta área em países onde falta soro, onde uma mulher grávida cheia de saúde morre no parto ou vê morrer o seu bebé porque se demorou mais tempo, é devastador para qualquer pessoa. E não é por ver mais vezes que deixo de sentir."

Depois de contactar de perto com essas realidades, como é que é voltar ao conforto?
Nos primeiros tempos, e lembro-me da primeira viagem que fiz, foi a Moçambique, foi chocante e irritei-me comigo própria. Pensei: ‘Agora tenho de fazer uma espécie de reset e viver com menos’, aquelas coisas que são normais para quem empaticamente se cruzou com estas dificuldades e com outras pessoas a viverem em condições miseráveis. Mas depois, percebi logo que não, que é este o meu caminho, estou a fazê-lo de uma forma muito séria, super dedicada. Trabalho mesmo muito. Portanto, o que me cabe é, neste meu conforto de vida, não parar de trabalhar. É um conforto de vida mas se ficar em casa não acontece nada, não recebo. A minha missão é pôr ao serviço dos outros, sobretudo das outras — porque apoiar uma mulher é apoiar uma família, uma comunidade e um país — o meu pequeno poder de fazer documentários, de dar entrevistas, de angariar dinheiro, de fazer movimentos cívicos, de fazer a tal pressão junto dos políticos. Este é o meu poder. Sei que volto à minha casa, ao meu conforto, mas tenho muito trabalho pela frente.

Imagem da série documental Príncipes do Nada, da RTP

Mesmo como embaixadora das Nações Unidas, passa por momentos de impotência?
Sim, imensos. E sendo portuguesa ainda mais, embora tenha muito orgulho, ainda mais agora com um secretário-geral português. Mas a verdade é que esta função de ser embaixadora das Nações Unidas é uma função voluntária que começou há 18 anos e que ciclicamente tem sido renovada. Provavelmente sou o único caso nas Nações Unidas, tirando a Angelina Jolie. Só mostra que aquilo que me tenho proposto a fazer tem dado resultados e isso é dar entrevistas, ir às escolas, fazer documentários. É o que eu proponho às Nações Unidas de forma muito voluntária. Por outro lado, leio, leio, leio, estou cada vez mais capacitada para saber sobre o mundo. Agora, convenhamos, não falo para o mundo inteiro. Para o mundo português, sim. Mas há embaixadores que falam para muito mais gente, o impacto dessa ação é muito maior. Muitas vezes sinto-me impotente, mas quer dizer, aprendi a ser cada vez mais criativa na forma de fazer a minha advocacy. Como é que dou a conhecer o sofrimento desta pessoa? Hoje em dia tem que se fazer o pino. Estamos a falar de vidas de pessoas não ficarem adormecidas num post em que se mete um like e pronto. É o que está a acontecer com a Síria, por exemplo. Temos de ser mais criativos, arranjar soluções para isto, de facto, ter um impacto grande dentro do nosso coração.

Depois desses momentos em que se sente mais fragilizada, a estabilidade familiar é importante quando regressa a casa?
É fundamental. Não consigo dissociar a minha felicidade enquanto profissional da minha felicidade enquanto pessoa. Não me consigo imaginar muito feliz com muita audiência e chegar casa e encontrar tudo vazio e triste, ou não me dar bem com os meus pais. Acho que não conseguiria estar tão verdadeira no ecrã.

Ser mãe foi sempre um objetivo?
Sempre. E felizmente fui mãe quatro vezes, duas da barriga e duas do coração. Uma das mensagens que gostava de deixar é para as pessoas se separam e têm filhos: tenham cada vez mais a capacidade de gerir os conflitos de maneira a que as crianças não sejam as mais prejudicadas. O que se vê muito são jovens e depois adultos frustrados, raivosos, com incapacidade para terem relações. Muitas pessoas são fruto de divórcios terríveis. Sei porque tenho este meu exemplo de ter dois enteados de duas mães diferentes e de nos darmos todos lindamente. Investi imenso para me dar muito bem com as mães dos meus dois enteados e a verdade é que é tudo muito pacífico e que eles são duas pessoas maravilhosas. Os problemas fazem parte, mas não tenham este berço desconchavado.

Além da estabilidade familiar, há algum elemento espiritual que também seja importante para si?
Eu sou católica, embora muitas vezes zangadíssima, zangadíssima com a igreja. Zangadíssima! Mas, mais uma vez, fruto da experiência de andar no terreno nestes países todos, diria que há um lado espiritual que não é praticado em nenhuma espécie de ritual — nem sequer meditação faço — mas que é empírica, diria. Reajo às energias das pessoas, vou-me defendendo delas, inconscientemente, e sinto que, apesar de ser uma espécie de esponja — muito francamente e de forma muito cura, sinto uma boa energia e uma má energia –, também sinto que tenho um bom escudo. Se disser que esse escudo vem de uma razão espiritual em que acredito, é uma coisa minha. Acredito que as minhas avós estão lá sempre a proteger-me.

"Investi imenso para me dar muito bem com as mães dos meus dois enteados e a verdade é que é tudo muito pacífico e que eles são duas pessoas maravilhosas."

Em última análise, isso materializa-se numa ética pessoal e na sua preocupação em fazer o que considera certo.
Sim, sempre. Acredito tanto nisso. Todos nós temos um lado bom e um lado mau. Era fantástico que o Hitler tivesse direcionado todo aquele talento que tinha, aquele carisma e aquela inteligência incríveis, para o bem. O mundo que tínhamos hoje, era incrível. Não pôs, pôs para o lado mau. Mas acho que temos todos isso, não nascemos todos puros e maravilhosos, isso trabalha-se. Não digo que não houve momentos na minha carreira em que senti coisas menos boas, mas afasto-as automaticamente, faço esse exercício. Hoje, sinto cada vez menos coisas más. Por isso é que durmo bem, com a cabeça muito tranquila na minha almofada de caroços de cereja, são muito boas para o pescoço.

“Dou muitos beijos, faço muito amor”

A verdade é que a Catarina não envelhece. Talvez essa atitude também faça bem à pele.
Envelheço, é preciso dizer que envelheço, faz parte. Se calhar, aos olhos dos outros isso não é visível porque estou bem comigo. Depois, podemos juntar aqui alguns genes. Eu adoro viver, adoro estar cá, adoro pessoas. Acho que a maldade e os pensamentos negativos fazem mais rugas ainda.

Mas tem de haver mais algum segredo.
Não lhe sei dizer mais nada. Dou muitos beijos, faço muito amor. Há uma coisa: o meu bisavô era goês e os indianos também duram, duram, duram… Como de duas em duas horas, não faço exercício, só faço pilates de vez em quando, dancei durante muitos anos e acho que o meu corpo tem ainda essa memória. E lá está, aquilo dos excessos, sou contida.

Tem receio de envelhecer?
Não acho muita piada, para ser sincera. Não acho mesmo nenhuma piada. Mais uma vez, acho que é tudo muito mais cruel para uma mulher. O meu marido está com o cabelo e com a barba — ele é só pelos neste momento –, tudo branco. E as pessoas dizem-me: ‘Ah, o teu marido está tão charmoso’. Imaginemos eu toda branca — ‘Ai Catarina, envelheceu muito nos últimos tempos’. É ingrato para as mulheres. Super exigente. Não gosto de fazer nenhum statement por não fazer exercício, todos os dias penso que tenho de começar. Este ano comecei a fazer pilates, estou muito orgulhosa de mim própria. Mas acho que é importante as pessoas fazerem qualquer coisa, faz bem à cabeça.

Esse ‘qualquer coisa’ inclui cirurgia plástica?
Também vale, se a pessoa se sentir bem e desde que escolha bem o médico também. Ainda não fiz, mas não posso dizer que um dia não vou fazer. Isso é uma das coisas que se aprende com a idade. Se calhar, há 20 anos dizia: ‘Eu? Nem pensar. Uma cirurgia plástica? Nunca na vida’. Hoje já não acho. Se a ciência está a evoluir, nós temos que evoluir com ela se isso nos fizer bem. Mais uma vez, excessos não. E nós vemos muitas pessoas que vivem da imagem e que ficam escravas dessa imagem. É muito grave e isso não sou mesmo. Mesmo no que toca à roupa, não sou escrava de todo, nunca fui. Sempre quis muito mais provar através do meu profissionalismo do que pela parte física. Felizmente, tenho uma equipa que é a mesma há 250 anos e isso também é bom, sou daquelas que gosta de ter as mesmas pessoas por perto.

Já passou por duas idades marcantes, os 30 e os 40. Alguma delas a intimidou?
Aos 40 ouvi um sino, claro que sim. Mas temos a idade que quisermos. É claro que depois as pernas mostram, as rugas mostram, tudo mostra, mas não interessa. O que fiz foi converter essa idade numa coisa altamente positiva, foi quando decidi criar a minha ONG. Fiz uma mega festa dos 40 em que ninguém me podia oferecer um presente que não fosse preencher uma ficha de sócio da Corações Com Coroa. E assim celebrei a vida com muita alegria, potenciando o meu futuro de uma forma muito útil. Os meus primeiros sócios foram todos os convidados da minha festa de anos, que foi no meu liceu, no Passos Manuel.

João Porfírio/Observador

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Agora, a Eurovisão. Sente-se mais entusiasmada pelo peso que tem no currículo ou há uma relação emocional com o concurso?
É entusiasmo pelo currículo, tenho que ser sincera. Também não vou agora mentir a esta altura da minha vida, não é? Agora, era o que há bocado a Filomena estava a dizer, à medida que nós mergulhamos no ‘All Aboard’, começamos a achar mais graça, porque depois conhecemos os concorrentes, passamos a conhecer os fãs. Estávamos numa reunião há bocadinho e veio o correio da nossa produtora com uma caixa de chocolates de um fã da Bélgica com a canção toda da Isaura e da Cláudia Pascoal e acho que ele faz isto para todos os 43 países concorrentes. Há aqui um histerismo engraçado, ao mesmo tempo. Para mim, o desafiante é pôr isto tudo a andar, ver como é que isto tudo acontece, é funcionar bem com as minhas co-apresentadoras, é esta ideia de ser Portugal a receber um evento desta grandeza e de estar à altura. Isso para mim é fantástico.

Nunca pensou em fazer carreira fora do país?
Sim, quando tinha 20 e poucos anos e fui para Inglaterra estudar teatro e cinema. Estudei e fiz várias curtas-metragens, duas longas-metragens, ia aqueles castings todos, levava com sim, levava com não e aquilo para mim era maravilhoso porque ninguém sabia quem eu era. Esse trajeto foi fantástico. ‘Então e se fizesse carreira enquanto atriz aqui?’ — provavelmente faria sempre de marroquina, de indiana, de árabe, de mexicana ou de espanhola. Nessa altura pensei nisso, mas gosto imenso de Portugal e gosto muito da minha família e de estar perto dela. Nunca sonhei em ser conhecida lá fora. A única coisa que gostaria de fazer um dia era um filme em Bollywood, isso adorava.

O que é que nunca a veremos fazer em televisão?
Acho que nunca me vão ver fazer um reality show, destes assim. Ó Manuel Luís Goucha, um beijinho para ti, com muito amor e carinho, mas não me vejo, de todo. E as pessoas que o fazem e produzem, muitas delas até são pessoas de quem gosto imenso e com quem trabalho noutros programas. Em Portugal é assim, as pessoas trabalham lindamente, por muito pouco dinheiro e com muito empenho. Mas é o conceito em si, não subscrevo. Isso tem a ver com a forma como vejo a minha profissão, mais do que a televisão. Vejo-me sempre a fazer qualquer coisa que ofereça algo positivo ao espetador. Num programa de talentos, estou a oferecer talento, aqueles miúdos estão a cantar bem. Num programa de culinária, então a cozinhar bem. Num programa com crianças, eles estão a dar a sua ingenuidade. Nos documentários, acho que estou a informar as pessoas. Ou seja, sinto sempre que entrego qualquer coisa que as pessoas podem usar. Num reality show, é entretenimento, é evidente, mas não acredito que seja muito positivo.

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